CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

sábado, 22 de julho de 2017

Filme do Dia: Fábula (1965), Arne Sucksdorff



Fábula (Mitt Hem är Copacabana, Suécia/Brasil, 1965). Direção, Fotografia e Montagem: Arne Sucksdorff. Rot. Original: João Bethencourt & Flávio Migliaccio, sobre o argumento de Sucksdorff.  Música: Luciano Perrone. Cenografia: José T. Araújo. Com: Antonio Pitanga, Dirce Migliaccio, Leda Santos, Álvaro Peres, Amaro Cavalcanti, Andrey Salvador, Antônio Carlos Fontoura, Antônio Lima, Cosme dos Santos.



        Um grupo de meninos favelados e órfãos enfrentam a dura realidade da sobrevivência no Rio de Janeiro. Aos poucos vão descobrindo estratégias como a de criar uma pipa que consegue pegar a de todos os  garotos na prai de Copacabana e revendê-las em outro local da praia. Ao voltarem para seu barraco improvisado, necessitam conviver com um grupo de marginais que se entricheirou no local e ensinam para a maior parte deles a arte de furtar. Um deles, no entanto, é resoluto em não aderir ao crime e prefere ser engraxate. Observam também os rituais de candomblé nas areias da praia e se solidarizam com o garoto que fica adoentado e decide voltar para o instituto penal em Caxambu, de onde fugiu.
        Esse retrato de uma “infância perdida” possui a habitual atração de Sucksdorff em dirigir animais – e no caso aqui mais enfaticamente – crianças. Mesmo que seu tom possa ser considerado por demais lírico para suas pretensões realistas, encontra-se bem mais próximo da estética do primeiro Cinema Novo em suas pretensões de crítica social que a obra de outro cineasta estrangeiro que é o Camus de Orfeu do Carnaval (1959). O resultado final, mesmo prejudicado pela excessiva dispersão da trama, sobretudo do meio ao final, consegue ser menos sufocado por uma visão carregadamente lírica como a de Manoel de Oliveira em Aniki Bóbó (1942). Nesse sentido já aponta para o caráter de um crime organizado que possui inúmeras metralhadoras, apresentando  uma relação de maturação do mesmo bem maior do que a geralmente evocada pela imprensa contemporânea e, mais importante, antecipa uma possibilidade concreta de ser repudiado por setores conservadores do momento em sua opção por retratar os despossuídos. Na trama, tal antecipação profética (o filme seria censurado por cerca de um ano exatamente por esse motivo) é encarnada pela personagem de um advogado de meia-idade que se revolta com uma equipe de fotógrafos que decide tirar fotos dos garotos da favela para exibir no estrangeiro, não apresentando as belezas da cidade. Utiliza-se grandemente de um narrador off (Nélson Xavier). Sua mescla de lirismo e realismo com laivos de denúncia social antecipa um estilo semelhante ao de Pixote (1980), de Babenco. Svenskfilmindustri. 88 minutos

sexta-feira, 21 de julho de 2017

The Film Handbook#136: Fred Zinnemann

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Fred Zinnemann
Nascimento: 29/04/1907, Viena, Áustria
Morte: 14/03/1997, Londres, Inglaterra
Carreira (como diretor): 1934-1982

Os filmes de Fred Zinnemann - outrora considerado enquanto um moralista sério com talento para o realismo social - não envelheceram bem. Frequentemente lentos, solenes e simplistas, sendo a obra de um diretor que parece ter equacionado arte com bom gosto, objetividade com indiferença e significação com reverência destituída de humor.

Foi assistente de direção em vários filmes em Paris e Berlim (incluindo o clássico Gente no Domingo/Menschen  am  Sonntag de Siodmak. Em 1929, Zinnemann emigrou para Hollywood, onde trabalhou na mesma medida para seu compatriota Berthold Viertel, Flaherty e Berkeley. Em 1934, com o fotógrafo Paul Strand co-dirigu Redes, longa semidocumental sobre as vidas de pescadores mexicanos que lhe propiciou um contrato com a MGM, onde dirigiria curtas para a série Crime Does Not Pay. Somente oito anos após realizaria verdadeiramente sua estreia em um longa, com Um Assassino de Luvas/The Kid Glove Killer, um drama bem realizado de baixo custo sobre um técnico laboratorial da polícia que resolve um crime. Inicia então uma série de filmes de suspense B que chega ao final em 1944 com A Sétima Cruz/The Seventh Cross, filme antinazista sobre a fuga de um prisioneiro de um campo de concentração através da Alemanha devastada pela guerra. Porém foi o humanismo piegas de Perdidos na Tormenta/The Search, filmado em meios as ruínas da Berlim do pós-guerra, com Montgomery Clift atendendo às necessidades de um abrigo para crianças, que estabeleceu pela primeira vez Zinnemann enquanto realizador preocupado com a moral e supostamente realista. Nem tampouco Ato de Violência/Act of Violence ou Espíritos Indômitos/The Men>1 eram tímidos de significações: o primeiro foi um thriller agradavelmente tenso no qual um vingativo soldado raso investiga o oficial que traiu seus companheiros em um campo de prisioneiros de guerra, o segundo um melodrama ambientado em um hospital repleto de veteranos de guerra desiludidos e paraplégicos. Assumidamente, Zinnemann era hábil com os atores (Espíritos Indômitos deu a Brando seu primeiro papel no cinema), mas a sua tendência a uma mão pesada ao tratar de temas domésticos de uma perspectiva dramática e moral já começava a se manifestar.

Matar ou Morrer/High Noon>2 foi um divisor de águas: um western que demonstra o desprezo de seu realizador pelas convenções do gênero, a respeito de um xerife cujo fracasso em formar um grupo que defenda os covardes moradores de um povoado os quais é contratado para defender pretendia espelhar o espírito traiçoeiro da América de McCarthy; na história, o paralelismo entre o tempo real e o tempo fílmico e seu forte contraste de imagens aparentam serem mais maneiristas que dotados de sentido. Não menos controverso ou portentoso, mesmo que consideravelmente menos compreensível, foi a posterior série de adaptações de obras literárias e teatrais de Zinnemann: Cruel Desengano/Member of the Wedding de Carson McCullers foi teatral e exageradamente de bom gosto; A Um Passo da Eternidade/From Here to Eternity>3 foi executado com tanto desdém pelo melodrama a ser enfrentado que qualquer vitalidade foi oriunda somente das interpretações; o musical da Broadway Oklahoma! foi transposto com enfadonho pedantismo. Enquanto a carreira de Zinnemann se encaminhava para produções de prestígio, sua obra tornava-se calculadamente de elevada moral. Uma Cruz à Beira do Abismo/The Nun's Story, talvez o mais excruciantemente óbvio dos diversos filmes do diretor a lidarem com a crise de consciência, foi implacavelmente tedioso em seu evidente desejo de se manter afastado do mau gosto; Peregrino da Esperança/The Sundowners, com Robert Mitchum e Deborah Kerr, lutando para se tornarem criadores de ovelhas na Austrália dos anos 20, fui agradável mas demasiado extenso; O Homem Que Não Vendeu Sua Alma/A Man for All Seasons, a partir de uma peça de Robert Bolt sobre Sir Thomas More soou pesado e superficial. De fato, por essa época, Zinnemann parecia ter tornado seus filmes mais lentos e sua carreira aparentava se encaminhar a passo de lesma, com apenas três filmes realizados nos próximos dezesseis anos; O Dia de Chacal/The Day of the Jackal, uma anêmica versão do best-seller convencional de Frederick Forsyth sobre uma tentativa de assassinato de De Gaulle; Julia, sobre o caso de Lilian Hellman com Dashiell Hammett, assim como a sua amizade com uma ativista política, na Europa dos anos 30, transformando a ameaça nazista em um insípido drama de época; e o extravagante Cinco Dias Num Verão, romance pitoresco e exangue ambientado nos Alpes Suíços nos anos 30. A ênfase de Zinnemann em um aborrecido bom gosto agora já não era mais bem aceito e ele abandonou a direção.

Por mais que sejam bem intencionados em suas inclinações vagamente liberais, os filmes de Zinnemann sofrem com sua tendência pouco criativa e demasiado metódica de tornar cada ponto por demais explícito; já que tudo que existe em sua obra fica na superfície, não existem subliminaridades ou nuances a descobrir. O resultado é, frequentemente,  extremamente maçante.


Cronologia
Zinnemann não exibe nenhuma da vitalidade ou da paixão que é encontrada em Von Stroheim, Vidor e Flaherty, a quem muito admirava. Antes poderia ser melhor comparado com Wyler, Stevens, Lean e Attenborough.

Destaques
1. Espíritos Indômitos, EUA, 1950 c/Marlon Brando, Teresa Wright, Everett Sloane

2. Matar ou Morrer, EUA, 1952 c/Gary Cooper, Grace Kelly, Lloyd Bridges, Katy Jurado

3. A Um Passo da Eternidade, EUA, 1953 c/Burt Lancaster, Montgomery Clift, Deborah Kerr, Frank Sinatra

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 325-6.


Filme do Dia: A Casa das Janelas Fechadas (1910), D.W. Griffith







A Casa das Janelas Fechadas (The House with Closed Shutters, EUA, 1910).
Direção: D.W. Griffith. Rot. Original: Emmett C. Hall. Fotografia: G. W. Bitzer. Com: Henry B. Walthall, Grace Henderson, Dorothy West, Joseph Graybell, Charles West, William J. Butler.




Soldado confederado (Walthall) parte para a guerra como herói, despedindo-se da mãe (Henderson) e da irmã (West). Quando recebe uma missão de atravessar uma zona em conflito para entregar uma mensagem as forças confederadas das mãos do General Robert E. Lee entra em colapso nervoso e se refugia em casa. Sua irmã então, decide, por conta própria fazer-se de soldado e entregar a mensagem. Engaja-se na batalha e morre heroicamente. Sua morte sela igualmente a morte em vida para o irmão, que a mãe pretende ocultar dos olhos da sociedade, trancando todas as janelas da casa e não permitindo que ele saia. Certo dia, muitos anos passados, dois antigos pretendentes da irmã (Graybell e Charles West), descobrem que ele se enconrava vivo, mas ele acaba morrendo diante deles.

Esse melodrama da época da Guerra da Secessão, um dos temas prediletos do realizador, mesmo com todos os elementos hilários e constrangedores aos olhos de hoje como a atuação exagerada de seu elenco ou a presença indefectível de um ator branco vivendo o papel do mordomo negro, apresenta ao mesmo tempo uma inversão nos valores de gênero. Destaque para a patética morte da irmã, que praticamente se suicida para pegar uma bandeira americana em meio ao fogo cruzado. Há um tom anti-realista, e mesmo gótico, na morbidez do ato da mãe que pretende ter o filho dado como morto mas herói. E uma empostação típica do teatro melodramático da época, na postura empertigada com que os atores fazem valer seus códigos morais, como no tableau final. Biograph. 16 minutos.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Filme do Dia: Elis (2016), Hugo Prata


Elis Poster



Elis Regina (Horta), é uma jovem entusiasta pela música que chega ao Rio de Janeiro com seu velho pai Romeu (Machado), justamente quando irrompe o golpe militar. Como eles vieram com atraso, não conseguem o prometido teste de gravação e Elis, contra a vontade paterna, fica para um ensaio com Tom e Vinícius, do qual sai desgostosa. Porém, logo brilhará em um clube noturno comandado por Ronaldo Bôscoli (Machado) e Miéle (Mauro Filho), no qual a estrela do momento é Nara Leão (Wilker). Seu temperamento não se afina com o de Bôscoli, notório mulherengo, que mantém casos com várias cantoras, sendo sua presença de palco comandada pelo coreógrafo norte-americano Lennie Dale (Andrade). Logo ela se torna um fenômeno da TV ao lado de Jair Rodrigues (Silva), porém Bôscoli acredita ser seu talento desperdiçado na TV, onde é a febre do momento, substituindo o canto intimista da bossa nova, mas logo se verá ameaçada pela popularidade da Jovem Guarda. Elis se apaixona por Bôscoli e os dois casam. Um episódio que marca negativamente sua carreira é o fato de ter cantado para os militares em uma transmissão televisiva por se sentir pressionada, sendo enterrada simbolicamente por Henfil (Gomlevsky)  em uma de suas tiras. Separando-se de Bôscoli, após inúmeras traições, ela se une ao pianista e arranjador César Camargo Mariano (Ciocler), posiciona-se criticamente em relação à ditadura e a indústria fonográfica, visita Lennie Dale na prisão, mas se sente aprisionada em sua carreira, entrando em constantes atritos com Mariano que a levam a se separar. Pouco tempo depois morre deprimida em seu quarto, após ingerir whisky e anfetaminas.


Essa cinebiografia não se esquiva de seguir o mesmo receituário das muitas que surgiram, sobretudo a partir de duas décadas anteriores ao seu lançamento, em um paralelo não de todo distante com um ciclo ainda mais intenso de documentários sobre personalidades do mundo cultural, sobretudo da música brasileira. Produção bem efetivada e com o tradicional rol de personalidades com as quais o (a) biografado(a) conviveu – curiosamente Milton Nascimento se encontra ausente, talvez por imposição do próprio compositor – e o roteiro, nada digno de nota, não se escusa em apresentar através de diálogos um tanto forçosamente didáticos  sobre quem se trata. Horta encarna com mimetismo habitual os esgares e gargalhadas que são marcas registradas da cantora, fazendo sua parte a contento dentro do conjunto construído. Porém esse último é um tanto anêmico para soar motivador, flertando ocasionalmente com temas muito interessantes, como é o caso da percepção de Elis que uma nova censura, talvez ainda pior que a do regime militar, começa a se instaurar, que é a do próprio mercado, porém  não indo além da superfície desses, assim como – e aí, de forma bem mais nociva em se tratando de um filme ficcional – não conseguindo manter uma tensão dramática que o faça conseguir levantar voo para além do desgastado modelo, completamente absorvido na pretensa curiosidade mórbida alavancada por uma figura pública expressiva e morta precocemente. E aí nos encontramos em plena seara de transformar a maior parte de suas personagens em anêmicos espectros unidimensionais. Dentre os contrastes demasiado fáceis que se faz questão de ressaltar, estão a da caipira gaúcha proveniente de um ambiente estritamente familiar que se choca com a promiscuidade de Bôscoli e com a maconha fumada por Lennie Dale ao ínicio, que se arvora como piscadela ao público que já sabe – ou senão saberá através do próprio filme – da futura Elis, mulher liberada e sem pudores, adepta do palavrão assim como das drogas. Se houve toques de ousadia da cantora em relação ao momento em que viveu, ao inclusive abraçar e transformar em enorme sucesso uma música como O Bêbado e o Equilibrista e se o próprio tempo não deixou de ser cruel em termos da datação de boa parte do repertório brilhantemente interpretado por ela, incluindo a própria referida canção, o filme multiplica a enésima potência esse efeito com saídas tão canhestras como a recorrente intercalação de números musicais da cantora com momentos vivenciados por ela numa cansativa pausterização imerecida para alguém tão criativa e carismática. Longa de estréiaBravura Cinematográfica-Globo Filmes para Downtown Filmes. 110 minutos.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Filme do Dia: Os Amantes Passageiros (2013), Pedro Almodóvar

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Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros, Espanha, 2013). Direção e Rot. Original: Pedro Almodóvar. Fotografia: José Luis Alcaine. Música: Alberto Iglesias. Montagem: José Salcedo. Dir. de arte: Antxón Gomez & Federico García Cambero. Cenografia: María Clara Notari. Figurinos: David Delfin & Tatiana Hernández. Com: Carlos Areces, Javier Cámara, Raúl Arévalo, Lola Dueñas, Hugo Silva, Antonio de la Torre, José Luis Torrijo, José María Yazpak, Cecilia Roth.
Avião que parte de Toledo rumo a Cidade do México tem dificuldades de prosseguir viagem e core risco de se espatifar na pista, já que se encontra sem um de seus trens de pouso. Dentro dele, dada a situação um grupo de passageiros começa a liberar seus traumas, telefonando do avião para seus entes queridos, dançando para os passageiros ou simplesmente fazendo sexo. O avião faz um pouso de emergência sem maiores problemas.

Dispensável filme, talvez o pior da profícua e talentosa carreira do realizador. Ao se voltar para a comédia rasgada, centrada sobretudo em referências ao sexo, o filme deixa de lado a verve melodramática que impulsionara alguns dos melhores filmes do realizador (inclusive o seu longa imediatamente anterior, A Pele Que Habito) sem tampouco, efetivamente, resgatar o teor libertário e pioneiro de suas primeiras produções, abertamente escrachadas. Se o próprio realizador foi, de certo modo, grandemente responsável com que elementos contraculturais, anteriormente relegados ao gueto, se tornassem cada vez mais comuns nas telas do cinema e fora delas, voltar-se para uma tentativa de ressuscitar o mesmo, sob bases semelhantes, não faz o menor sentido. Constrangedor em seus apelos para uma tentativa de humor que explore situações vinculadas ao sexo – como a virgem que observa um casal fazendo sexo ao seu lado e decide ir à classe econômica para lá perder a virgindade – ou ao histrionismo homossexual, representado por  um trio de comissários de bordo que faz uma apresentação musical. Ainda que exista muito ocasionalmente algumas saídas engenhosas, como as conversas telefônicas que são escutadas por todos os passageiros da primeira classe, essas na maior parte das vezes soam mais interessantes enquanto ideias que concretizações de fato. As subtramas dos passageiros não chegam a ser grandemente desenvolvidas e são tão inócuas quanto os próprios. Penelope Cruz e Antonio Banderas surgem em pontas ao início. El Deseo S.A. 90 mnutos.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Filme do Dia: One of the Bravest (1914), Otis Turner

Herbert Rawlinson Picture

One of the Bravest (EUA, 1914). Direção: Otis Turner. Com: Herbert Rawlinson, Mary Ruby, Frank Lloyd.
Nora (Ruby) desperta a paixão de dois colegas bombeiros, Larry (Rawlinson) e Jim (Lloyd). O fato dela engatar um relacionamento com Larry faz com que Jim fique profundamente enciumado e articule estratégias para que o casal se separe, unindo-se ela com ele próprio. Casamento que logo se mostrará infeliz, com Jim alcóolatra, desempregado e maltratando Nora, que trabalha em uma fábrica. Quando ocorre um incêndio nessa, Jim tenta salva-la mas passa mal. Quem retira os dois do local é Larry, porém Nora sobrevive em ótimo estado de saúde enquanto Larry sucumbe.

A falta de sutileza das rivalidades masculinas em um triângulo amoroso que se anuncia como pólvora para explosão acompanha essa produção desde o início, como era usual à época (The Trail of Cards inicia de forma não muito distinta). A ambiguidade sorridente inicial da mocinha também é algo de praxe. Abusa-se igualmente, e tampouco uma característica incomum à época, de recardos e cartas, uma alternativa menos intrusiva de todo modo que as cartelas. Como os filmes produzidos por outros estúdios, embora a continuidade já se adivinhe na movimentação dos personagens, não existe propriamente ainda a prática sistemática do uso do raccord de forma tão premente quanto nas produções da Biograph. Destaque para o momento em que um dos personagens, o proprietário da fábrica onde a heroína trabalha,  corre por um então então prosaico cruzamento da após célebre Sunset Boulevard. E para os relativamente bem produzidos efeitos de simulação do incêndio. Como era de se esperar o vilão, vivido pelo também realizador Lloyd (que ganharia dois Oscars como tal, por Cavalgada e A Divina Dama)  morre praticamente abençoando a união de Nora e Larry, que encontra consolo evidentemente no peito desse, sinalizando para uma união próxima. Produzido pelo estúdio que se tornará  muito em breve a Universal. Powers Co. 27 minutos.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Filme do Dia: Uivo (2010), Rob Epstein & Jeffrey Friedman

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Uivo (Howl, EUA, 2010). Direção e Rot. Original: Rob Epstein & Jeffrey Friedman. Fotografia: Edward Lachmann. Música: Carter Burwell. Montagem: Jake Pushinski. Dir. de arte: Thérèse De Prez & Russell Barnes. Cenografia: Robert Covelman. Figurinos: Kurt and Bart. Com: James Franco, Todd Rotondi, Jon Prescott, Aaron Tveit, David Strathairn, John Hamm, Andrew Rogers, Bob Balaban, Mary-Louise Parker, Treat Williams.

Epstein & Friedman, após toda uma trajetória dedicada ao documentário não conseguem se desvencilhar do mesmo quando partem para sua tentativa de ficção documental. Ou melhor, talvez desperdicem a chance de efetuar um documentário de melhor qualidade.  Ainda que se aposte que sua evasão do modelo biográfico convencional de retratar períodos bastante demarcados de uma personalidade (Capote, por exemplo), tenha se dado por motivos outros, como sua relativamente espartana produção, o que parece pouco provável dada a própria trajetória de seus realizadores, o resultado final demonstra ser bem menos interessante que a produção documentária dos realizadores (O Celulóide Secreto talvez o mais conhecido). Aqui observa-se o julgamento da obra Uivo, de um jovem Ginsberg (Franco), acusada de pornográfica por um promotor extremamente conservador (Straithairn), ao mesmo tempo em que paralelamente se escuta os depoimentos de  Ginsberg para uma entrevista gravada e muitas das passagens de seus poemas mais célebres, como o próprio Uivo e Moloch, a partir de animação. Quando se faz uso de uma pouco talentosa animação, que mais parece saída de qualquer programa rotineiro de televisão como opção para ilustrar a radicalidade de uma proposta poética, ainda que de meio século anterior ao lançamento do filme, pode-se ter uma idéia de que o calcanhar de aquiles dessa produção é menos a questão da opção pelo viés documentarizante ou tampouco os parcos recursos de sua produção, mas sim a ausência de uma dramaticidade que conseguisse emprestar a esse viés documentarizante ou a contundência da poesia-grito de Ginsberg algo mais que uma insipidez nem mesmo digna do momento no qual o filme foi produzido. Strathairn parece repetir o mesmo tipo que o celebrizou em Boa Noite, e Boa Sorte., apenas invertendo a sua coloração ideológica e Franco parece interpretar o seu Ginsberg com a convicção de espelhar, ou o que é pior, reproduzir involuntariamente a juventude de 2010. Destituído de erotismo, comedido em sua militância gay, tendo em vista talvez o que o próprio Ginsberg afirmara de sua obra não ser uma apologia da homossexualidade, assim como ineficiente em sua evocação da poética de seu autor, resta ao filme somente a triste sina de se transformar em armadilha para eventuais incautos atraídos pelo empréstimo do título da obra de Ginsberg. Ao final, não sobram as legendas afirmando resumidamente sobre o destino dos principais envolvidos – ou referidos – no episódio em questão. Werc Werk Works/RabbitBandini Prod/Telling Pictures/Radiant Cool para Oscilloscope Pictures. 84 minutos.

domingo, 16 de julho de 2017

Filme do Dia: Tarântula (2015), Aly Muritiba & Marja Calafange


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Tarântula (Brasil, 2015). Direção e Rot. Original: Aly Muritiba & Marja Calafange. Fotografia: Maurício Baggio. Montagem: Guilherme Delamuta & Aly Muritiba. Dir. de arte: Fabrícia Bonofiglio. Com: Ana Clara Fischer, Giuly Biancato, Luma Domingues Zanetti, Malu Zanetti Domingues.
Em um casarão mora um mãe (Fischer) e suas duas filhas. A mais jovem, Isa (Domingues) se sente ameaçada com a presença do amante (Matos) da mãe, que lhe trouxe uma protése de presente, já que ela não possui uma perna. Sua irmã mais velha lhe afirma que ele voltará para pegar a perna que lhe resta.

As virtuosas direção de arte,montagem, enquadramento e interpetações não afastam um fantasma que Muritiba soube driblar melhor em sua passagem para o longa (Para Minha Amada Morta), quando consegue trazer o estranhamento atmosférico para uma situação mais plenamente realista. Aqui, fica-se com inglória impressão que todo seu esforço para limar o mundo exterior, para não dizer a própria precisão de uma data, algo evocativa de uma estratégia tipicamente utilizada por uma cineasta como Lucrecia Martel, com melhores resultados, não faz bem a proposta. De fato, a mulher e suas duas filhas vivem apartadas da realidade ao ponto de não conseguirmos imagina-las fora do ambiente da casa e sua propriedade tornando tudo vinculado somente ao domínio do filme de gênero, armadilha que seu longa igualmente soube se esquivar.Grafo Audiovisual. 20 minutos.