CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Filme do Dia: A Qualquer Custo (2016), David Mackenzie

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A Qualquer Custo (Hell or High Water, EUA, 2016). Direção: David Mackenzie. Rot. Original: Taylor Sheridan. Fotografia: Giles Nutgens. Música: Nick Cave & Warren Ellis. Montagem: Jake Roberts. Dir. de arte: Steve Cooper. Cenografia: Wihelm Pfau. Figurinos: Malgosia Turzanska. Com: Jeff Bridges, Ben Foster, Chris Pine, Gil Birmingham, Dale Dickey, Kate Mixon, Marin Ireland, Heidi Sulzman.
Tanner (Foster) e Toby Howard (Pine) são dois irmãos que se reúnem para assaltar consecutivamente bancos, tendo como objetivo salvar o rancho em West Texas, que querem deixar como herança  para os filhos de Toby. Em sua caça se encontram o delegado Marcus Hamilton (Bridges) e seu assistente Alberto Parker (Birmingham).

Embora o filme não se afaste tanto assim  dos filmes de assaltantes de banco e perseguições, de antecedentes ilustres na história do cinema americano (Mortalmente Perigosa, Bonnie&Clyde, Terra de Ninguém) para se tornar realmente empolgante, conta a seu favor com uma não menos que exuberante direção de fotografia, que ressalta as paisagens do Meio-Oeste americano como poucos outros o fizeram e uma trilha co-assinada por Cave que consegue se furtar dos excessos. Se o filme se escusa ou não investe tanto na psicologia de seus personagens, tal como o filme de Malick e ao contrário dos outros dois, segue fielmente a lógica do espetáculo, observando com prazer voyeurístico os combates, marcas de tiros na lataria dos carros ou a cabeça do parceiro de Marcus se transformar numa poça de sangue tal como, cada qual a seu tempo, as duas outras produções haviam tirado partido. Uma variação sobre a tradição que traz um ou outro elemento novo, como ressaltado em um final que tende a ser um aceno para a paz, mais que da vingança acima da lei como se poderia supor, dos sobreviventes, por outro lado não se constrange em apresentar, na melhor tradição do cinema clássico, um personagem não branco que não apenas apoia o protagonismo do outro, como ainda vem a ser o bode expiatório a ser lamentado. Ou seja, apesar das pequenas variações sobre o mesmo tema, se nos restringirmos somente a questão visual, em termos não estritamente técnicos, mas de inventividade, Mackenzie se encontra evidentemente longe dos Irmãos Coen. Embora boa parte da ação seja ambientada no Texas, foi filmada, na verdade, no Novo México. Não falta uma referência a cidadela onde foi filmado A Última Sessão de Cinema, que tinha como proeminência em seu elenco Jeff Briges 45 anos mais moço. Film 44/Odd Lot Ent./Sidney Kimmel Ent. para CBS Films. 102 minutos.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Filme do Dia: Libido of Benjamino (1994), Ivan Maximov



Libido of Benjamino (Libido Bendzhamina,  Rússia, 1994). Direção: Ivan Maximov

O fato de agora Maximov incorporar o seu mundo fantástico a um corpo narrativo mais coeso que em filmes do início de sua carreira (tal como em From Left to Right) apenas torna ainda mais interessante o resultado final dessa animação convencional em preto e branco. Aqui, um erotômano se vê as voltas com a necessidade de uma cirurgia para retirar uma lingüiça inteira não deglutida de seu estômago. Durante a cirurgia sua cabeça literalmente se descola do corpo para acompanhar fantasias eróticas que o levam a verdadeiros labirintos. 7 minutos e 23 segundos.

domingo, 19 de novembro de 2017

The Film Handbook#149: Andrzej Wajda

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Andrzej Wajda
Nascimento: 06/03/1927, Suwalki, Polônia
Morte: 09/10/2016, Varsóvia, Polônia
Carreir (como diretor): 1950-2016

Talvez o melhor, certamente o mais conhecido realizador polonês de sua geração, Andrzej Wajda tem repetidamente  se debatido com os problemas de representar a história recente da Polônia. Gradualmente se afastando de um estilo grandemente barroco, e mesmo expressionista, rumo a um naturalismo mais convencional, ele tem persistentemente problematizado  as versões "oficiais" de eventos históricos e da ideologia.

Tendo lutado ao lado da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, Wajda foi estudante da escola de cinema de Lodz, onde dirigiria diversos curtas após ter sido assistente de Aleksander Ford em Five Boys from Barska Street/Piatka z ulicy Barskiej, realizando sua estreia na direção de um longa com Geração/Pokolenie, o primeiro filme de uma vaga trilogia que também incluiu Kanal>1 e Cinzas e Diamantes/Popiól i Diament>2. Todos três se referiam à experiência polonesa da guerra (os dois primeiros retratando a atividade da Resistência em uma Varsóvia ocupada; o último, ambientado nos dias finais da guerra, no assassinato de um membro do partido comunista) e foram notáveis não somente por seu melancólico imaginário (a ação de Kanal ocorre em grande parte nos esgotos da cidade, enquanto o protagonista de Cinzas e Diamantes morre em um monte de lixo), assim como por sua visão nada romântica do heroísmo de guerra. De fato, mais que aceitar o mito de que se morrer lutando por seu país é puramente uma questão de glória, Wajda acentua a confusão, medo e ansiedade dos personagens; e, como eles, da própria Polônia, presa entre a Rússia e a Alemanha, observada enquanto buscando um senso de identidade.

Apesar da obra posterior de Wajda ser comparativamente menor, tanto Lotna (sobre as lutas da Polônia contra os invasores nazistas em 1939) quanto Os Inocentes Charmosos/Niewinni Czarodzieje (sobre o cinismo e a desilusão da juventude contemporânea) revelam um interesse continuado nos efeitos das mudanças sociais e políticas sobre os indivíduos. Mas foi somente com Tudo à Venda/Wszystko na Sprzedaz>3 que realizaria um avanço significativo sobre seus filmes anteriores: inspirado na morte do ator Zbigniew Cybulski e mensurando os efeitos de uma morte similar sobre o elenco, equipe técnica e diretor de um filme em produção, o filme analisa a relação entre ilusão e realidade e se depara na natureza frequentemente exploradora da criatividade artística. Por alguns anos, no entanto, Wajda parecia ter perdido seu rumo: Moscas Caçadoras/Polowanie na Muchy foi uma excursão rara e não bem sucedida à sátira, Paisagem Após a Batalha/Krajobraz po Bitwie um retorno ao tema da guerra, O Bosque de Bétulas/Brzezina e The Wedding/Wesele sólidas mas indistintas adaptações literárias relativamente apolíticas.

Para O Homem de Mármore/Czlowiek z Marmuru>4, Wajda abandonou seu gosto pela alegoria e simbolismo focando diretamente no legado stalinista para a Polônia do pós-guerra. Uma jovem documentarista decide investigar a queda em desgraça de um herói  pedreiro dos anos 50: sua descoberta de que ele se encontra desaparecido, provavelmente morto e que sua "desgraça" remetia ao seu apoio a um amigo, enquadarado em um "julgamento-evento" dos anos 50, permite que Wajda ofereça uma acentuada acusação de corrupção oficial e por parte da cobertura midiática. Não foi surpreendente que o filme tenha sido inicialmente banido. Igualmente relevante na sua mescla de pessoal e político foi Sem Anestesia/Bez Znieczulenia (no qual a desintegração emocional de um jornalista coincide com seu prestígio político perdido), O Homem de Ferro>5, (uma sequência de O Homem de Mármore, na qual o marido da documentarista, em notória alusão a Lech Walesa, do Solidariedade, é objeto de uma campanha difamatória), e o drama histórico realizado na França Danton>6, cuja oposição do heroi a Robespierre quando a Revolução Francesa se transforma no Reino do Terror, abertamente espelhava os eventos contemporâneos na terra natal de Wajda. Ao mesmo tempo Wajda alternava esses possantes e intransigentes filmes políticos com de longe menos bem sucedidas alegorias como O Maestro/Dyrygent e dois romances melancólicos e nostálgicos (As Senhoritas de Wilko/Panny z Wilka, Crônica de Acontecimentos Amorosos/Kronica Wipadków Milosnich) e um outro retorno a Segunda Guerra Mundial (Um Amor na Alemanha/Eine Liebe in Deustchland), todos notáveis por suas sensíveis descrições das emoções humans, mas todos prejudicados por uma certa previsibilidade.

No seu melhor, Wajda casa política e história com um compromisso e inteligência que tornam seus filmes tanto lúcidos quanto comoventes. Porém, ele é um talento errático e sua obra menor (mesmo digna e profícua) pode ser acadêmica e pesada.

Cronologia
Um contemporâneo de Jerzy Kawalerowicz e dos últimos filmes de Andrzej Munk, Wajda foi fundamental no encorajamento para que Polanski e Skolimowski se tornarssem realizadores. Sua influência pode ser discernida na obra de figuras mais jovens tais como Krzysztof Zanussi, Agnieska Holland e Krzystof Kiewslowski.

Destaques
1. Kanal, Polônia, 1957 c/Wienczyslaw Glinski, Teresa Izewska, Emil Karewicz

2. Cinzas e Diamantes, Polônia, 1958 c/Zbigniew Cybulski, Ewa Krzyzewska, Adam Pawlikowski

3. Tudo à Venda, Polônia, 1969 c/Andrjez Lapicki, Beata Tyszkiewicz, Daniel Olbrychski

4. O Homem de Mármore, Polônia, 1976 c/ Krystyna Janda, Jerzy Radziwilowicz, Tadeusz Lomnicki

5. O Homem de Ferro, Polônia, 1980 c/Jerzy Radziwilowicz, Krystyna Janda, Marian Opiana

6. Danton, França, 1982 c/Gérard Depardieu, Wojciech Pszoniak, Patrice Cháreau

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 303-4.

Filme do Dia: Koyaanisqatsi - Uma Vida Fora de Equilíbrio (1982), Godffrey Reggio


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koyaanisqatsi – Uma Vida fora de Equilíbrio (EUA, 1983). Direção: Godffrey Reggio. Rot. Original: Godffrey Reggio, Michael Hoenig, Ron Fricke & Alton Walpole. Música: Phillip Glass & Michael Hoenig. Fotografia: Ron Fricke. Montagem: Ron Fricke & Alton Walpole.
O primeiro de uma trilogia que só seria completa quase vinte anos após, apresenta como mensagem-título a modernização como principal estimuladora de uma vida louca ou sem equilíbrio no idioma hopi – de onde foi, igualmente, extraída a letra da composição, em forma de ópera minimalista, que acompanha todo o filme. Munindo-se somente de imagens, em sua maior parte filmadas pela própria equipe e ocasionalmente de imagens de arquivo, da citada trilha sonora e de efeitos de câmera lenta – e principalmente – acelerada, o filme procura “denunciar” a sordidez de um mundo moderno que se movimenta obsessivamente sem o menor sentido, seja no tráfego louco de Nova York ou nos gestos repetitivos a exaustão (e, com efeito de ampliação da aceleração da imagem) de jogadores de videogame ou de operários da indústria automobilística. Em uma das primeiras sequências em que o ser humano é divisado, Reggio aponta que há algo de errado em uma civilização em que uma mãe tranquilamente faz lazer com o filho nas areias de uma praia há poucos metros de uma usina nuclear. Segue-se, então, um turbilhão de imagens de multidões em movimento como formigas, automóveis que se transformam em imagens semelhantes a laser e, numa sequência de destaque particular, a cidade moderna por excelência se transforma em algo muito semelhante as placas de computador. Quanto aos seres humanos, as poucas vezes em que a câmera se aproxima deles, são a própria expressão da apatia, da solidão e do patético (um grupo de trabalhadoras de um cassino em Las Vegas posa para a câmera com seu ridículo uniforme e maquiagem, um velho faz propaganda com o boné de uma atração turística, outro faz a barba em plena rua, vários rostos melancólicos), possuindo como contraponto a irônica mensagem de um anúncio publicitário vista pouco antes que exorta a felicidade. Igualmente não faltam as tradicionais e diversas sequências em que se destaca o caráter serial da linha de produção (que agora fazem justamente o oposto da pretensa louvação da modernidade que filmes como Berlim, Sinfonia de uma Metrópole efetivaram, demonstrando o banal e o desumano, que aliás, inconscientemente, o próprio filme de Ruttman já apresentava). Também sobra uma rápida sequência para ironizar com o bombardeio de informações e imagens proporcionados pela televisão. O resultado, sintetizado na longa e bela sequência final, que acompanha a explosão de um foguete e, particularmente, de uns destroços aos quais acaba se sobrepondo a imagem de uma pintura do povo Hopi é mais que evidente: se continuarmos nesse ritmo perderemos qualquer possibilidade de fruição da essência humana e estaremos, ainda pior, condenados ao apocalipse. Tal sequência, aliás, é um explícito contraponto ao otimismo e fé na razão que articulavam o plano às avessas de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), de Kubrick, quando o osso jogado pelo macaco se transformava em uma moderna nave singrando pelo espaço. Aqui, opera-se em sentido inverso, da alta tecnologia para uma pintura ancestral. Porém, em última medida, a crítica efetivada por Reggio soa grandemente retórica, senão mesmo conservadora, tão presa se encontra de uma idealização de culturas do passado e igualmente sem apontar qualquer saída no presente que não seja a mera abstração. Seu último filme da trilogia apenas confirma, senão de modo ainda mais acentuado, um humanismo vago e irritante que é o mesmo motor para documentários igualmente supervalorizados como o brasileiro Nós que Aqui Estamos Por Vós Esperamos. Utilizando-se igualmente somente da música e imagens, em sua maior parte de arquivo, e provavelmente com preocupações bastantes semelhantes as de Reggio, o cineasta armeno Pelechian consegue resultados bem mais notáveis e intrigantes. Prêmio do Público na Mostra Internacional de São Paulo. Institute for Regional Education. 87 minutos.


sábado, 18 de novembro de 2017

Filme do Dia: Não Estou Lá (2007), Todd Haynes


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não Estou Lá (I´m Not There, EUA, 2007). Direção: Todd Haynes. Rot. Original: Todd Haynes & Oren Moverman sob argumento de Haynes. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Jay Rabinowitz. Dir. de arte: Judy Becker. Figurinos: John A. Dunn. Com: Cate Blanchett, Ben Whinsaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger, Kris Kristofferson, Julianne Moore, Michelle Williams.

Haynes continua sua hagiografia do mundo pop, sendo que aqui ele se aproxima e radicaliza elementos de um estética presente em seu Velvet Goldmine(1998) ao contrário do mais convencional A História de Karen Carpenter (1987), realizado para a TV. É curioso o modo como Haynes modela elementos bastante concretos e até clichês da vida de Dylan nos seis atores-tipos que o vivenciam através de uma moldura bastante solta e evocativa do videoclipe. Se por um lado se afasta da rotineira cinebiografia convencional ao estilo de The Doors, de Stone ou Cazuza-O Tempo não Para, gênero por demais exaurido e consegue uma aproximação maior com a visualidade enquanto elemento expressivo por outro acaba por se tornar cansativo em seu tom reiteradamente fragmentário, pós-moderno e – pior que tudo – disperso. Nesse sentido, as soluções visuais e o caleidoscópio criado se tornam menos efetivos do que os presentes em filmes nos quais tal inventividade visual parte menos do excesso que do limite. Mesmo ousando em um projeto que foge de qualquer tipo de identificação fácil até mesmo com o(s) protagonista(s) o resultado final parece ser demasiado estéril e talvez conscientemente fake por si só para soar interessante, ao menos quando comparado a  produções menos pretensiosas, mais caras e próximas do universo do gênero que também fazem uso de uma estética do excesso tais como as dirigidas por Baz Luhrman. Destaque para uma ponta em que Richie Havens surge interpretando Thombstone Blues. Killer Films/John Wells Prod./John Goldwyn Prod./Endgame Ent./Film & Ent. VIP/Grey Water Park Prod./Rising Star/Wells Prod. para The Weinstein Co. 135 minutos.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

The Miner's Daughter (1950), Robert Cannon & John Hubley




The Miner’s Daughter (EUA, 1950). Direção: Robert Cannon & John Hubley. Rot. Original: Bob Russell, Phill Eastman & Bill Scott. Música: Gail Kubik.

Clementina trabalha incansavelmente com seu pai em uma mina em local ermo até observarem a presença de um forasteiro, um almofadinha louro de Boston que também parece interessado em explorar o ouro. Clementina imediatamente se apaixona pelo rapaz, não sendo correspondida. Esse possui tecnologia moderna incomparavelmente avançada em relação as meras picaretas de pai e filha e rapidamente extrai uma literal montanha de ouro das montanhas. Resta a família tentar fisga-lo pelo estômago agora.

Brincando com o anacronismo de forma ligeiramente distinta da que foi utilizada por nomes como Tex Avery, Cannon (que seria um dos nomes que traria maior reconhecimento aos curtas da série Jolly Frolics, aqui em seu quinto exemplar, com filmes como Gerald McBoing Boing) traça  um interessante “estereótipo as avessas”, já que a animação comercial de então se esmerava em tornar motivo de riso sobretudo negros pretos e pobres, indígenas e qualquer tipo de “outro” mais fácil de ser estereotipado. Não que sua contraparte mais convencional, na representação misógina da garota solteira e desajeitada representada pela Clementina da célebre música (e presente igualmente em vários títulos homônimos de ação ao vivo durante o Primeiro Cinema e primórdios do cinema narrativo) tampouco deixe de estar presente. Porém, aqui chama mais a atenção o musculoso e vaidoso jovem de porte empinado, proveniente de Boston, trajando um agasalho universitário de Harvard e portador de toda a engenhosidade prática que se associou a cultura norte-americana, como é o caso da casa pré-fabricada de borracha que constrói apenas com alguns sopros e com muito menos esforço que o Lobo Mau tivera para demolir as casas dos porquinhos ou a brincadeira de criança que se transforma a caça ao ouro. UPA para Columbia Pictures. 7 minutos e 14 segundos.





quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Filme do Dia: Ventos da Liberdade (2006), Ken Loach

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Ventos da Liberdade (The Wind that Shakes the Barley, Reino Unido, 2006). Direção: Ken Loach. Rot. Original: Paul Laverty. Fotografia: Barry Ackroyd. Música: George Fenton. Montagem: Jonatham Morris. Dir. de arte: Michael Higgins & Marl Lowry. Figurinos: Eimer N. Mhaoldomhnaig. Com: Cilian Murphy, Padraic Delaney, Liam Cunningham, Orla Fitzgerald, Mary O´Riorda, Mary Murphy, Laurence Barry, Damien Kearney.
Irlanda, anos 1920. Damien (Murphy) ao contrário do irmão Teddy (Delaney), decide seguir sua carreira médica e não se envolver na resistência irlandesa contra os ingleses, mesmo depois de testemunhar o assassinato covarde do adolescente Micheail (Barry). Percebendo que a violência contra os irlandeses se encontra disseminada em todo canto, decide ingressar no grupo de resistência. Quando a Inglaterra acena para um pacto de paz com a Irlanda, o grupo do qual Teddy faz parte aceita o mesmo. Radicais como Damien o negam, pois reivindicam uma autonomia irrestrita do país. Uma guerra civil se instaura então, com Damien e Teddy lutando em lados opostos, o que resultará no no fuzilamento do primeiro.

Loach volta sua dramaturgia e estilo bastante convencionais, através de seu costumeiro realismo relativamente contido, para focar as raízes do movimento de liberatação irlandesa e do IRA. Interessa menos a Loach o próprio IRA, do que a mais convencional dupla linha dramática na qual irmãos e a política confluem ou se distanciam. Não faltam, no entanto, toques melodramáticos, alguns mesmo dispensáveis, dada a sua evidente manipulação emocional, tal como o assassinato de Damien comandado pelas mãos do próprio irmão.  O motivo melodramático em si da luta de irmão contra irmão,  possui longa tradição no cinema (evidentemente, não apenas nele) e vem sendo explorado desde pelo menos Griffith (O Nascimento de uma Nação tem seu interesse dramático pensado a partir da contraposição de duas famílias do sul e do norte americanos). Não há como não sentir uma sensação de deja vu, no entanto, seja na fotografia e na direção de arte que retrata a época. Loach deixa bastante evidente de qual perspectiva ele observa seus dramas, restringindo conscientemente qualquer retrato mais complexo ou humano de seus adversários mais poderosos, invertendo a relação habitual apresentada pelo cinema clássico colonialista. O resultado final, soa parcialmetne incongruente na sua tentativa de conjugar seu drama particular e o cenário político mais amplo, algo que o pioneiro filme de Griffith tampouco esteve isento.  Palma de Ouro em Cannes. 127 minutos.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Filme do Dia: Francisco, Arauto de Deus (1950), Roberto Rossellini

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Francisco, Arauto de Deus (Francesco, Giullare di Dio, Itália, 1950) Direção: Roberto Rossellini. Rot.Original: Federico Fellini, Pe. Antonio Lisandrini, Pe. Felix Morion & Roberto Rossellini. Fotografia: Otello Martelli. Música: Enrico Buondonno & Renzo Rossellini. Montagem: Jolanda Benvenuti. Com: Aldo Fabrizi,  Nazario Gerardi, Arabella Lemaitre.
     Francisco (Gerardi) demonstra sua humildade ao ser interrogado sobre o motivo que os outros o seguiam, apesar de feio e pobre, afirmando ele nada ser e Deus ser tudo. Quando correm para se abrigar da chuva na choupana que fora construída por eles próprios, são expulsos por um camponês que prefere abrigar lá sua vaca. Francisco expulsa a todos e quando alguns pretendem reivindincar algo, Francisco diz que a  situação de se encontrarem em plena chuva não deixa de ser uma graça para testar a resolução de todos em abraçar a fé que abraçam. Irmão Ginepro volta despido de seu hábito de Santa Maria, onde os irmãos haviam acabado de construir uma nova choupana. Aos irmãos, que se encontram reunidos orando, ele afirma que não pode resistir ao pedido de um passante, ao que Francisco afirma que ele não deveria repetir tal atitude. Giovanni, velho camponês das redendozas, resolve doar uma vaca para Francisco e seus companheiros, mas sua doação é recusada, enquanto ele passa a ser o mais novo membro do grupo. Os irmãos preparam o chão com rosas para o encontro de Francisco com Santa Clara (Lemaitre). Enquanto os irmãos oram na choupana com a presença de Clara, Ginepro retorna novamente sem o hábito e divide a atenção dos irmãos. No final do dia o céu arde em fogo de tão elevadas foram as preces do encontro. Um dos irmãos se encontra doente e sem apetite. Interrogado se se trata de mais um dos seus habituais jejuns, ele afirma que não. Recusa a sofrível sopa ofertada por Ginepro e afirma que gostaria de um belo pé de porco. Ginepro vai caçar um porco e lhe traz seu pé, provocando a fúria de seu proprietário que os chama de ladrões. Volta posteriormente e entrega o restante do porco. Ao orar solitariamente no bosque, Francisco tem sua preces interrompidas pela passagem de um leproso. Vai até ele e, após um certo estranhamento por parte do enfermo, abraça-o demoradamente. Depois chora. O irmão Ginepro cozinha alimentos para 15 dias, para que possam realizar suas missões sem mais se preocuparem com as necessidades da alimentação. Francisco ao saber do ocorrido, dá-lhe permissão para pregar. Indo pregar em região mais afastada, Ginepro encontra uma comunidade liderada por um tirano, Nicolau (Fabrizzi). Quase chacinado pela multidão furiosa que pensa ser ele um espião, Ginepro é salvo por um padre que sabe tratar-se de um seguidor de Francisco. Leva-o ao tirano, que pede que lhe retirem a armadura que preparam em seu próprio corpo, e que o deixem a sós com o suspeito. Após tentar todas as formas de intimidação para com  Ginepro e continuar vendo o sorriso em seus lábios e o doce olhar a encará-lo, o tirano desiste e manda que ele e sua gente se retire do local. Francisco afirma ao irmão Leone que mesmo com toda a caridade habitual que faz não consegue sentir uma experiência de completa alegria. Ao irem pregar em casa de um rico homem, são de lá expulsos escada à baixo violentamente pelo dono e terminam na lama onde, agora sim, Francisco se diz realizado. Francisco decide doar todos os pertences do grupo aos mais necessitados e partir, cada um por si próprio, para pregar as virtudes cristãs em locais diversos. Utiliza como método de definir quem irá para onde, a simples volta sobre o próprio corpo. Todos logo ficam tontos e caem, menos Giovanni, o mais velho de todos. Pouco depois até mesmo Giovanni não resiste e Francisco pergunta a cada um em direção de que cidade caíram, afirmando que é prá lá que devem ir. O grupo se dispersa.
Um dos cineastas mais assumidamente cristãos da história do cinema, Rossellini narra através de dez sketches, passagens da vida de São Francisco. Como sempre comedido em termos de forma e técnica,  não deixa, no entanto, que a  simplicidade signifique precariedade estética e se apropria dela como um trunfo que se adéqua como uma luva para o tema que trata. Consegue assim não só belas imagens como as cenas na chuva, de grande força pictórica, como uma narrativa, pelo menos aparentemente,  extremamente influenciada pela história oral e anedotário popular, que acaba amortizando qualquer pretensão de uma seriedade impositiva e esterilizante como no caso da produção hollywoodiana sobre temas religiosos. Mesmo assim demonstra menos inventividade e o resultado é menos empolgante que no episódio O Amor (1948), no filme de mesmo título. Um dos melhores momentos é o do encontro entre Ginepro e o tirano (vivido perfeitamente por Fabrizzi, que viveu o padre-mártir de Roma: Cidade Aberta) e que lembra o encontro de Macuínama com o monstro em Macunaíma (1969) de Joaquim Pedro de Andrade. A estrutura anedótica e a compartimentação em sketches parecem ter exercido grande influência sobre Pasolini, em filmes de sua trilogia da vida, em especial Decameron (igualmente com dez sketches). Além de ter tido dois padres na colaboração do roteiro, o próprio ator que vive Francisco é um frei franciscano. Cineriz. 75 minutos.