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domingo, 30 de abril de 2017

Arquivo/EM

Filme do Dia: Pickpocket (1959), Robert Bresson



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Pickpocket (França, 1959). Direção e Rot. Original: Robert Bresson. Fotografia: Léonce-Henri Burel. Montagem: Raymond Lamy. Dir. de arte: Pierre Charbonnier. Cenografia: Pierre Guffroy. Figurinos: Luce Scatena. Com: Martin LaSalle, Marika Green, Jean Pélégri, Dolly Scal, Pierre Leymarie, Kassagi, Pierre Étaix.

O jovem Michel (LaSalle) decide ser batedor de carteiras e ocasionalmente envia dinheiro à mãe (Scal), gravemente enferma, embora não a visite pessoalmente. Também não quer atender aos apelos da vizinha Jeanne (Green), que cuida de sua mãe e é amante de seu amigo Jacques (Leymarie). Inicialmente praticando seus delitos no metrô, Michel se torna visado por um inspetor policial (Pélégri) quando fora encaminhado como suspeito de ter roubado uma senhora, porém inocentado. Posteriormente, no entanto, não se esquiva em apresentar ao inspetor suas leituras sobre técnicas de furto no passado. Certo dia, conhece outro homem  (Kassagi) que lhe ensina todas as sutilezas da arte do roubo. Um dia decide visitar sua mãe, que morre pouco tempo depois. Com a polícia apertando o cerco contra ele e flagrando seus ex-comparsas sendo presos, Michel viaja para Milão e Londres, retornando após dois anos a Paris, tendo gasto todo seu dinheiro com farras e mulheres. Ao retornar, promete ajudar Jeanne, que vive sozinho com o filho, mas é preso quando tenta aplicar um golpe no mesmo local de seu primeiro furto. Um policial é usado como isca e quando tenta furtá-lo Michel é preso. Detrás das grades, confessa a Jeanne que não se incomoda em estar preso, mas sim em ter sido flagrado em ato e que finalmente teve que vivenciar tudo isso para descobrir seu amor por ela.

A austeridade habitual de Bresson se casa aqui com a excelente interpretação de LaSalle para criar uma obra inspirada e antecipadora do cinema moderno que a seguiria. Destituído de sentimentalismo mas não de interesse – que transcende o do mero voyeur – por seu personagem, Bresson segue mais um que sofre como todos aqueles seus outros personagens (Joanna D´Arc, o pároco em Diário de um Pároco de Aldeia ou Mouchette no filme de mesmo nome) por sua inadaptação às convenções de um mundo que vão contra seus princípios morais bem peculiares. É perceptível a opção do cineasta por buscar através das ações presentes no filme refletir mais o estado interior de seus personagens, já que não expresso através das interpretações dramáticas convencionais, que propriamente as explorá-las como motivações para criar sensações – nesse sentido, seu resumo de que sua viagem pela Europa que concentra dois anos numa frase é exemplar. Seu estilo seco e interpretações despojadas aliados a uma trilha musical não original (a partir de uma ópera de Jean-Baptiste Lully) praticamente inexistente, que usualmente pontua as transições entre as sequências, influenciaria várias gerações de cineastas, direta ou indiretamente (via Godard, por exemplo). Por outro lado, nega ao expectador as compensações fáceis das regras da manipulação emocional habituais. Compagnie Cinématographique de France. 75 minutos.

sábado, 29 de abril de 2017

Filme do Dia: A Vingança do Monstro (1955), Jack Arnold

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A Vingança do Monstro (Revenge of the Creature, EUA, 1955). Direção: Jack Arnold. Rot. Original: Martin Berkeley, sob argumento de William Alland. Fotografia: Scott Welbourne. Música: Willam Lava & Herman Stein. Montagem: Paul Weatherwax. Dir. de arte: Alexander Golitzen & Alfred Sweeney. Cenografia: Russell A. Gausman. Com: John Agar, Lori Nelson, John Bromfield, Nestor Paiva, Grandon Rhodes, Dave Willock, Robert Williams, Charles Cane.
Os cientistas Clete Ferguson (Agar) e Helen Dobson (Nelson) estudam o estranho homem-peixe que foi capturado na Amazônia e levado a um oceanógrafo da Flórida, em estado de coma. Juntamente com o também cientista Joe Hayes (Bromfield), a dupla revive o monstro e passa a fazer experiências com ele. Esse demonstra ter um potencial de inteligência bem superior a outros animais. Enamorados, Ferguson e Dobson fazem uma viajem juntos. O monstro consegue fugir do aquário, provocando terror. Obcecado por Helen, ele a capturará e a levará consigo. Clete se une à polícia para tentar salvar sua amada.
Continuação do talvez mais famoso filme de Arnold, O Monstro da Lagoa Negra que teria ainda um terceiro filme, não mais dirigido por Arnold. Todas as interpretações, diálogos e composição do monstro canhestros habituais dessas produções-B se encontram presentes, assim como sua trivial história de amor e uma alusão ao estilo Bela e a Fera através de sua referência cinematográfica mais célebre, King Kong (1933). Como no último há uma menção a ganância dos que querem faturar com um ser monstruoso, porém sensível, tornando-o atração de parque e sua atração por uma loura gritando histericamente que havia demonstrado algum interesse pela carente criatura. Apenas se salvam desse caldeirão de clichês kitsch, ambientado inicialmente no cenário natural do monstro, a floresta amazônica brasileira em que o personagem fala espanhol, algumas belas tomadas submarinas do casal enamorado (que influenciariam Spielberg décadas depois com seu Tubarão) e o impressionante efeito de alteração de movimento que faz com que uma das vítimas do monstro seja jogado contra uma árvore. Clint Eastwood surge numa ponta, como cientista de laboratório, em sua estréia no cinema. Universal. 82 minutos.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

The Film Handbook#125: Fritz Lang




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Fritz Lang
Nascimento: 08/12/1890, Viena, Áustria
Morte: 02/08/1976, Los Angeles, Califórnia, EUA
Carreira (como diretor): 1919-60

A economia, austeridade e objetividade dos filmes de Fritz Lang tornaram-no um dos diretores mais profundos, precisos e perenemente modernos. De forma notável, quando abandonou a Europa pelos Estados Unidos, as restrições do sistema de estúdios e sua adesão aos gêneros e estruturas narrativas convencionais provocou uma destilação de temas e estilos que já havia estabelecido na Alemanha.

Filho de um arquiteto, Lang ocupou sua juventude estudando engenharia, viajando e pintando. Ferido na I Guerra Mundial, passou a escrever enquanto convalescia; em 1918, mudou-se para Berlim, onde se tornou roteirista regular e assistente de Joe May nos estúdios UFA. Dirigiu seu primeiro longa, Halbblut, em 1919; mais tarde, nesse mesmo ano, iniciaria uma aventura serial em duas partes  As Aranhas/Der Spinnen, cuja narrativa fluente e vivaz marcou a chegada de um talento promissor. Porém foi A Morte Cansada/Der Müde Tod>1, o primeiro a sugerir seu interesse por sérias ideias abstratas: quando uma garota tenta evita a morte de seu amado, é conduzida pela Morte através de três períodos históricos nos quais ela demonstra a inevitabilidade de sua obra. Cenários monumentais, fotografia sóbria e interpretações incomumente contidas demonstraram a distância de Lang das tendências barrocas do Expressionismo, ainda que o humor presente na sequencia da fantasia chinesa seria erradicado de seus filmes futuros.

A obra silenciosa de Lang é notável por sua absoluta diversidade; Dr. Mabuse, o Jogador/Dr.Mabuse, der Spieler>2 e sua sequencia (O Inferno/Der Spinnen, 2.Teil - Das Brillantschiff) dizem respeito a um gênio criminal; o díptico Os Nibelungos/Die Nibelungen é uma narrativa épica sobre a morte de Siegfried e a vingança de Kriemhild; Metropolis>desenvolve uma alegoria sobre as relações entre Capital e Trabalho em uma cidade subterrânea do futuro, parte sinistra, parte utópica: Os Espiões/Spione é uma complexa aventura de espionagem. A Mulher na Lua/Frau im Mond, uma ficção mundana sobre viagem no espaço. Porém, apesar da diversidade no gênero, a obra de Lang repetidamente focava nos motivos centrais de vingança, violência, abuso de poder e cidades sombrias povoadas por inocentes alienados e tipos psicopatas-criminosos. A melhor expressão dessa visão pessimista do mundo adveio com seu primeiro filme sonoro, M/M - O Vampiro de Dusseldorff>4, um filme de ação virtuoso e virtualmente brechtiano no qual um assassino sexual pedófilo (Peter Lorre, numa performance maravilhosamente simpática) é levado a julgamento e sentenciado, não pela polícia, mas pelas forças unidas do submundo criminoso. Notável por um uso inventivo e não naturalista do som e de rimas e símbolos visuais, sendo o melhor filme alemão de Lang, ainda que em O Testamento do Dr.Mabuse/Das Testament des Dr.Mabuse impressiona o retrato do Nazismo finamente disfarçado.

Convidado por Goebbels para chefiar a indústria de cinema nazista, Lang abandonou a Alemanha pela França, onde dirigiu um único filme, Coração Vadio/Liliom, antes de partir para os Estados Unidos. Após dois anos de longas viagens e projetos abandonados, realizou Fúria/Fury>5, um filme de ação intenso e provocativo no qual uma vítima inocente de um linchamento sobrevive para trazer os culpados à justiça; retratando de forma anti-sentimental um homem bom transtornado pela vingança, o filme é o primeiro dos muitos dramas sombrios a refletirem a injustiça, violência e criminalidade psicótica da América moderna; os seguintes, Vive-se uma Só Vez/You Only Live Once e Casamento Proibido/You and Me passaram a revelar os problemas de reabilitação enfrentados por condenados dentro de uma sociedade intolerante. De forma semelhante, os resolutos filmes de propaganda de guerra são enquadrados  pelos filmes de ação criminais: em O Homem Que quis Matar Hitler/Man Hunt, um atirador apolítico, perseguido pelos assassinos da Gestapo , por uma Londres enevoada, finalmente desenvolve um compromisso com a causa antinazista em seu desejo de vingar a morte de uma jovem; enquanto Os Carrascos Também Morrem/Hangmen Also Die!, realizado em colaboração com Brecht, concebe uma narrativa do assassinato pela resistência tcheca do tirano nazista Heydrich dentro de uma contemplação pessimista da brutalidade humana e traição.

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Peter Lorre como o condenado assassino de crianças - baseado na vida real do assassino Peter Kurten - em M, de Lang.

Em 1944, Lang embarcou numa série de filmes noirs aterrorizantes nos quais heróis inocentes se encontram eles próprios em batalha contra as forças psicológicas, sociais e políticas para além de seus controles. Quando Desceram as Trevas/Ministry of Fear evoca uma Inglaterra britânica onde nada nem ninguém são como parecem; tanto Um Retrato de Mulher/The Woman in the Window>6 e Almas Perversas/Scarlet Street imagina americanos tranquilos e comuns cujos desejos subconscientes (tanto sexuais quanto de assassinatos) os levam aos mundos pavorosos da humilhação, culpa e criminalidade; enquanto O Segredo da Porta Fechada/Secret Beyond the Door>7, uma variação perversa sobre o melodrama da mulher em perigo, observa uma mulher que anseia por emoção casar com um arquiteto psicopata cujo hobby secreto é colecionar aposentos nos quais assassinatos horrendos foram cometidos. Por volta desse período, os filmes de Lang conquistaram uma admirável economia de execução, seus enredos complexos se desenvolvendo através de informações visuais poucos comuns; detalhados e não sentimentais em sua análise das fraquezas morais de seus protagonistas, foram reconhecimentos pessimistas e fatalistas dos mecanismos destrutivos de Sexo, Direito e Sociedade, pressionando indivíduos isolados ao conformismo. De fato, a força arquitetônica das linhas narrativas e imagens cuidadosamente enquadradas sugerem um silogismo filosófico: se X deseja isso, e Y é o mundo no qual ele vive, então Z se tornará seu inexorável destino trágico.

Nos anos 50 a obra de Lang se torna ainda mais sombria: O Diabo Feito Mulher/Rancho Notorious e Só a Mulher Peca/Clash By Night transcendem as convenções do western e do melodrama romântico, respectivamente; eles analisam a violência autodestrutiva do amor, um tema que retornaria em dois de seus filmes de ação mais pessimistas - Os Corruptos/The Big Heat>8 (no qual o desejo de  um policial de destruir um império criminal levam-no muito além dos domínios da obrigação, quando ele é consumido pelo desejo de vingar a morte de sua esposa - e Desejo Humano/Human Desire. O Tesouro de Barba Ruiva/Moonfleet foi uma narrativa, atipicamente sombria, de contrabandistas do século XVIII em Devon, observada pelos olhos de uma criança, No Silêncio de uma Cidade/While the City Sleeps um retorno à sexualidade psicopática de M. Melhor que todos, Suplício de uma Alma/Beyond a Reasonable Doubt>9, o último filme americano de Lang, foi também sua palavra final sobre a linha tênue entre lei e justiça: perspicaz em provar a falibilidade do sistema de júri, e portanto da iniquidade da pena capital, Dana Andrews, se enquadra  ele próprio enquanto assassino, somente para descobrir que sua vida se encontra em risco quando descobre que um amigo, que possui as fotos que provarão sua inocência, morre subitamente em um acidente de carro que também destrói a evidência; somente após ter sido sentenciado à morte e subsequentemente perdoado é que a verdadeira culpa de Andrews vem ironicamente à luz. Novamente, a complexidade tortuosa do enredo, conjugado as imagens minimalisticamente decorativas de Lang, emprestam ao filme a clareza e profundidade de um teorema científico.

Cansado dos produtores hollywoodianos, Lang retornou à Alemanha, onde sua primeira produção foi uma aventura que havia sido escrita nos anos 1920 com sua então colaboradora e mulher Thea Von Harbou; filmado parcialmente em locação, parcialmente em estúdio, O Tigre da Índia/Der Tiger von Eschnapur e O Sepulcro Indiano/Das Indische Grabmal foram um retorno ao estilo serial dos anos silenciosos, interpretados sem qualquer insinuação ao kitsch ou a paródia. De forma semelhante, Os Mil Olhos do Dr.Mabuse/Die 1000 Augen des Dr.Mabuse>10 revive o gênio criminal, morto mas ainda influente por meio de seus discípulos; de modo característico, o estilo aparentemente démodé e não sofisticado esconde uma rara seriedade de tema: assassinatos políticos, técnicas de vigilância e ameaça nuclear. A tragédia, outrora pessoal, agora é universal.

Filme após filme, Lang desenvolveu artifícios de estúdio para criar um universo austeramente estilizado no qual forças sócio-políticas e impulsos psicológicos aprisionam sujeitos comuns, isolando-os e os puxando para a violência e morte; é uma visão indelevelmente marcada pelas experiências juvenis do diretor, notavelmente seu ódio pelo Nazismo. O crime, seja derivado da paixão ou cuidadosamente planejado, é endêmico ao universo de Lang, nunca glorificado, mas analisado e compreendido. A complexidade de seu pensamento é desmentida pela simplicidade  de seu estilo; comparativamente, outros realizadores frequentemente parecem entregar-se a irrelevantes ornamentações. Seu pessimismo pode ser assustador, mas seu rigor artístico é raro e admirável.

Cronologia
Como muitos diretores (Siodmak, Murnau, Wilder, Brahm e Edgar Ulmer inclusos) emigrados, Lang foi moldado pela ideologia melancólica (menos que pelo estilo) do Expressionismo; por sua vez, pode talvez ter influenciado Hitchcock, Nicholas Ray e outros; certamente foi admirado por Godard (que o incluiu no elenco de O Desprezo) e Jacques Rivette.

Leituras Futuras
Fritz Lang (Nova York, 1977), de Lotte Eisner, Fritz Lang in América (Nova York, 1969), de Peter Bogdanovich

Destaques
1. A Morte Cansada, Alemanha, 1921 c/Lil Dagover, Bernhard Goetzke, Walter Janssen

2. Dr. Mabuse, o Jogador, Alemanha, 1922 c/Rudolf Klein-Rogge, Gertrud Welcker, Alfred Abel

3. Metropolis, Alemanha, 1928 c/Alfred Abel, Brigitte Helm, Gustav Frölich

4. M, O Vampiro de Dusseldorf, Alemanha, 1931 c/Peter Lorre, Gustav Gründgens, Ellen Widmann

5. Fúria, EUA, 1936 c/Spencer Tracy, Sylvia Sidney, Walter Abel

6. Um Retrato de Mulher, EUA, 1944 c/Edward G.Robinson, Joan Bennett, Raymond Massey

7. O Segredo da Porta Fechada, EUA, 1948 c/Joan Bennett, Michael Redgrave, Anne Revere

8. Os Corruptos, EUA, 1953 c/Glenn Ford, Gloria Grahame, Lee Marvin

9. Suplicio de uma Alma, EUA, 1956 c/Dana Andrews, Joan Fontaine, Sidney Blackmer

10. Os Mil Olhos do Dr.Mabuse, Alemanha, 1960 c/Peter van Eyck, Dawn Addams, Wolfgang Preiss

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 159-61.

Filme do Dia: Marquise (1997), Véra Belmont


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Marquise (Idem, França, 1997). Direção: Véra Belmont. Rot.Original:  Marcel Beaulieu, Véra Belmont &  Jean-François Josselin. Fotografia: Jean-Marie Dreujou. Música: Jordi Savall. Com:  Sophie Marceau, Bernard Giraudeau, Lambert Wilson, Patrick Timsit,  Thierry Lhermitte, Anémone.

Marquise (Marceau), é vendida pelo pai para uma companhia de artistas ambulantes liderada por Moliére (Giraudeau), cujo grande sonho é serem aceitos pela corte. Embora iniciando de forma traumática, esquecendo completamente suas falas, a apresentação de Marquise como dançarina é um tremendo sucesso. Entrando em crise e procurando abandonar o palco, após ser-lhe negada a pretensão de vir a interpretar e não apenas dançar, Marquise encena um suicídio, sendo amparada por Racine (Wilson), aspirante a dramaturgo, que lhe ensina a ser mais complacente. Após apresentar-se na corte aos olhos de um fascinado Luís XIV (Lhermitte), o sucesso de Marquise é selado. Casada com Gros-René (Timsit), que é complacente com seus relacionamentos extra-conjugais, desde que não o abandone, embora seja contrário a sua colaboração profissional com Racine. Seu envolvimento sexual com Moliére, por outro lado,  não lhe acena com a possibilidade de testar suas pretensões dramáticas. Racine também pretende envolver-se afetivamente com Marquise, mas esta, lembrando o que já ocorrido anteriormente com Moliére, prefere que o amor deles só se concretize após esse finalizar a peça. Racine levará como presente para René uma caixa de chocolates envenenados. Seu marido, piora e morre no palco, representando o seu papel correspondente na vida real, de moribundo, embora não tenha chegado a comer dos chocolates. A iniciação dramática de Marquise, na montagem de Andromaca de Racine, é constrangedora. Porém, após um esforço contínuo tanto dela como de Racine, apresentam a peça para a corte, emocionando a todos. Embora nada tenha a reclamar do momento que vive, Marquise não esquece Moliére, que vive um período de completa decadência, e procura restituir, sem sucesso, algum prestígio ao seu iniciador. Após acompanhar o excêntrico Rei, em um inédito banho numa fonte de Versalhes, para que ele possa escutar a poesia que declama, Marquise passa a sentir-se cada vez pior. Mesmo contra à vontade de sua camareira (Anémone), que lhe inveja a fama e procura reproduzir todos os seus gestos, Marquise vai  indisposta a mais uma representação de Andromaca, desmaiando no meio do espetáculo. Imediatamente a camareira se oferece para substituí-la e, embora a primeira vista Racine não goste da idéia, concorda. O sucesso é geral. Sabendo que o momento não é mais o seu, Marquise se envenena com os chocolates e morre no palco após mais uma apresentação de sucesso de Andromaca, sendo carregada por Racine ao final.

Esta grande produção, aliás como a maioria do gênero, não é nenhum exemplo de originalidade cinematográfica. Lidando com um tema e uma produção de semelhante envergadura, Farinelli, co-produzido pela própria Belmont, por exemplo, teve melhores resultados. Esse casamento entre drama histórico e grandes produções tem sido exaustivamente explorado pelo cinema francês nos últimos anos. Marceau, por exemplo, nos evoca imediatamente uma semelhante interpretação de Isabelle Adjani em Rainha Margot. Por outro lado, certa cenas dos bastidores da corte nos recordam Caindo no Rídiculo. E como não associar imediatamente a ascensão da camareira não com outro drama de época, antes com o clássico do cinema americano A Malvada(1950), de Mankiewicz? Da mesma forma os exercícios de metalinguagem são aborrecedores de tão gastos já se encontram. Um dos poucos pontos realmente dignos de nota talvez seja que, embora dirigido por uma mulher, e tendo como temática principal a vida de outra, o filme procure uma visão da protagonista menos heróica e mais matizada que o que certas visões recentes de “minorias” como Malcolm X (1990) de Spike Lee, onde o inquestionável heroísmo moral seja do negro, da mulher ou do homossexual tendem a empobrecer a quem se pretende dignificar. Tratando sua Marquise como uma figura sagaz, ambiciosa, amoral e, ao mesmo tempo, terna e fiel, assim como outros personagens, como Moliére, Belmont pelo menos conseguiu chegar mais próximo de uma dimensão humana. 3 Emme Cinematográfica/AMLF/Alhena Films/Cofimage 5/France 3 Cinéma/Multivideo/Stéphan Films. 120 minutos.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Filme do Dia: Bahia de Todos os Santos (1960), Trigueirinho Neto


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Bahia de Todos os Santos (Brasil, 1960). Direção e Rot. Original: Trigueirinho Neto, a partir de seu próprio argumento. Fotografia: Gugliemo Lombardi. Montagem: Maria Guadalupe.  Figurinos: Maria Augusta Teixeira. Com: Jurandir Pimentel, Araçary de Oliveira, Geraldo Del Rey, Lola Brah, Sadi Cabral, Antônio Pitanga, Eduardo Waddington, Mãe Masu, Anecy Rocha.

Na época do Estado Novo, Tonho (Pimental) é um jovem revoltado, abandonado pelos pais e que não quer viver com sua avó, mãe de santo (Masu). Ele vive de pequenos furtos e da amante americana, Miss Collins (Brah), de quem afana dinheiro para ajudar seus amigos grevistas, que passaram a fazer parte da clandestinidade. Quando Collins percebe que ele apenas quer se divertir nas gafieiras e pouco liga para ela, denuncia-o à polícia. Preso, é solto após a visita da avó, mas enquanto todos os amigos tomam alguma decisão a respeito do futuro, para ele nenhuma perspectiva diferente parece surgir.

Típico produto dos anos que antecedem o Cinema Novo, em termos de sua apropriação de temáticas que lidam com a questão social, sua predileção por filmagens em locação, tipos populares, apresentação da religião afro, repressão policial e um certo “tom engajado”. Porém, talvez permaneça do tão ou mais afinado com o cinema produzido anteriormente, ou pelo menos, uma reatualização dos dramas daquele através  de temas mais ousados e polêmicos para o período como a prostituição e as insinuações de homossexualidade entre alguns personagens. O ator amador Pimentel, em sua relativa limitação, não deixa de ser um achado que  resiste melhor ao tempo que tipos mais artificiosamente dramáticos como a gringa vivida por Brah ou, principalmente, a prostituta de Oliveira. Guardadas as devidas proporções, talvez o seu naturalismo seja o equivalente do buscado noutros tempos, em um ambiente igualmente marginal e igualmente na Bahia, por Cidade Baixa, ainda que o filme de Trigueirinho Neto seja mais interessante. Lorenzo Serrano Prod. Cinematográficas/Trigueirinho Neto Prod. Cinematográficas. 100 minutos.


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Filme do Dia: Magnolia (1999), Paul Thomas Anderson





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Magnolia (Magnolia, EUA, 1999). Direção e Rot. Original: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Música: Jon Brion. Montagem: Dylan Tichenor. Dir. de arte: William Arnold,  Mark Bridges,  Shepherd Frankel & David Nakabayashi. Cenografia: Chris L. Spellman. Figurinos: Mark Bridges. Com: Jeremy Blackman, Tom Cruise, Melinda Dillon, Luis Guzmán, Philip Baker Hall, Philip Seymour Hoffman, William H. Macy, Julianne Moore, Jason Robards, Melora Walters.

As vidas de algumas pessoas que moram em San Fernando Valley e suas atribuições são o material para que o cineasta realize mais um ácido painel da sociedade norte-americana, no estilo de Robert Altman e Todd Solondz. Entre essas pessoas se encontram: um garoto (Blackman) pressionado a ser o melhor num programa de auditório televisivo, o lider; um animador de um programa de auditório que cultua o macho, Frank T.J. Mackey (Cruise), que reencontra o pai, Earl (Robards) que se encontra em seu leito de morte; a atual esposa de Earl, Linda (Moore), arrependida pelo casamento por interesses; o apresentador de televisão Jimmy Gator (Baker Hall), que descobre que tem poucos meses de vida e conta para a esposa (Dillon) que abusou sexualmente da filha, a desequilibrada ninfômana e cocaínomana Claudia (Walters); o ex-garoto prodígio do show de Gator, hoje com sérios problemas profissionais e afetivos Donnie Smith (Macy); um policial obcecado pela disciplina e outros.
 Nesse drama de costumes, o cineasta mais descreve as situações do que procura enfatizar o caráter moral de seus personagens, ao mesmo tempo refletindo uma simpatia por esses talvez maior que a apresentada no Felicidade (1999) de Solondz, filme de estrutura bem similar e utilizando-se de uma montagem alternada e uma concentração de espaço e tempo que evoca  Short Cuts (1993), de Altman. Um dos grandes trunfos do filme é que, embora abertamente realista, apresenta seqüências que sutilmente ironizam com esse realismo, como a da chuva de sapos e a que os personagens cantam a canção Save Me, únicos momentos que o cineasta procura vincular, de modo mais orgânico,  todas as histórias paralelas que são traçadas. O outro é que, embora exista uma tensão crescente que parece transformar o pouco que há de estável nos personagens em absoluto caos, e que se concentra em um momento – a criança põe em jogo a lógica da pressão cruel a que se vê submetida sem meias palavras e ao vivo na TV, o policial perde sua arma, Frank Mackey se vê fragilizado diante do pai moribundo, Linda decide pôr um fim a própria vida – o final se afasta tanto de um desenlace confortável de todos os conflitos, como da perpetuação cega e cínica dos mesmos no filme de Solondz,  deixando patente que ali se encontram apenas momentos de uma trajetória de vida maior que aguarda novas alegrias e decepções. O trabalho dos intépretes, embora irregular, tende para boas interpretações, com exceções para momentos inconvincentes como o acesso de fúria de Claudia diante do pai e Mackey chorando no leito de morte daquele. Os diálogos, demonstram a influência de um senso de comicidade que trabalha pequenas idiossincrasias à la Quentin Tarantino, como no momento em que Claudia comenta com o policial sobre a disfunção de seu maxilar. Inicia e finaliza com um narrador e uma montagem em ritmo de videoclipe, sobre casos mais pitorescos que os apresentados no filme, como o do homem que acabou acidentalmente sendo cumplíce da própria morte. Anderson faz parte de um grupo de cineastas norte-americanos de tinturas mais autorais, não só escrevendo o próprio roteiro como utilizando com recorrência a mesma equipe técnica e atores. A utilização de elementos de nonsense dentro de um contexto realista, como no caso da chuva de sapos, é um recurso que foi utilizado ao extremo no contemporâneo Quero Ser John Malkovich (1999), de Spike Jonze. Urso de Ouro no Festival de Berlim. Ghoulardi Film Company/New Line Cinema/The Magnolia Project/188 minutos.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Filme do Dia: Pineapple Calamari (2014), Kasia Nalewajka




Pineapple Calamari (França, 2014). Direção: Kasia Nalewajka. Rot. Original: Manuela Lupini, Kasia Nalewajka & Daniel Negret. Fotografia: Stewart MacGregor. Montagem: Manuela Lupini. Dir. de arte: Paul Savulescu, Sanne Houwing & Steve Nanson. Figurinos: Natalie Jayne Hall.

Duas irmãs vivem uma rotina divertida, tocando piano juntas, andando a cavalo, assistindo corridas de cavalo, colhendo ovos da galinha,  cozinhando rãs e bebendo até que, certo dia, uma delas cai do cavalo e morre. Sentindo-se culpado ao observar a tristeza crescente da remanescente, o cavalo passa a incorporar os papéis da garota morta. Porém, ao se deparar com as imagens de corrida de cavalos, seu instinto fala mais forte e lágrimas lhe vem aos olhos. Compadecida, sua dona o liberta da função humana, embora alguém vá substituí-lo.

Bem humorado e dotado de excelente timing e senso de manipulação das situações. É hilário, e ao mesmo tempo tocante, o momento em que o cavalo passa a assumir a função da companheira falecida, a partir de sua intervenção no piano. Embora não seja necessariamente original, consegue ser mais interessante e menos cínico que outras experiências de animação de técnica semelhante, tais como  Calipso is Like So (2003)e tampouco cai na fórmula fácil de curtas como Cães ou Gatos? (2003) e a animação de Nick Park. 10 minutos.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Filme do Dia: Géraldine (2000), Arthur de Pins




Géraldine (França, 2000). Direção e Rot. Original: Arthur de Pins. Música: Esteban.

Homem que acorda certo dia como mulher, Géraldine. De início, convivendo de forma bastante deprimida com a súbita mudança, e reagindo de forma masculina às investidas masculinas à sua pessoa, seja de um grupo que joga bola ou do patrão que lhe estapeia o traseiro, Géraldine, através de sua melhor amiga, começará a se conformar com os padrões femininos, ao ponto de marcar um casamento. No momento desse, no entanto, uma nova reviravolta se sucede.

Curta de animação que não consegue ir muito além de algumas tiradas de humor mediano a partir da situação apresentando, resvalando para os clichês sugeridos que uma sinopse imaginada poderia antecipar. Tudo parece funcionar dentro da medida para tal produção e é exatamente isso que não o torna distinto. ENSAD. 9 minutos e 15 segundos.