CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Eric Clapton - I Shot The Sheriff ( Studio Version )

gli uomini sono come le pompe a benzina: dai piedi alla cintura è Super; dalla cintura alle spalle è Ordinaria; dalle spalle alla testa  è Senza Piombo.

Hoagy Carmichael - Hong Kong Blues (1944)

Chet Baker - How Deep Is The Ocean (Chet Baker Sings Again)






Billie Holiday - How Deep Is The Ocean? (How High Is The Sky) Clef Recor...



Mais uma pérola de Irving Berlin

Filme do Dia: Spider (2007), Nash Edgerton


Spider (Austrália, 2007). Direção: Nash Edgerton. Rot. Original: Nash Edgerton & David Michôd.  Fotografia: Greig Fraser. Música: Ben Lee. Montagem: Luke Doolan & Nash Edgerton. Dir. de arte: Alex Holmes & Elizabeth Mary Moore. Figurinos: Jodie Fried. Com: Nash Edgerton, Mirrah Foulkes, David Michôd, Joel Edgerton.
Jovem casal para em um posto. O rapaz (Edgerton) compra flores, chocolate e uma aranha de brinquedo para assustar e descontrair sua companheira (Foulkes). Ela, porém, não entende a brincadeira e reage impulsivamente, sendo atropelada por um carro em alta velocidade. Enquanto os paramédicos a atendem, um deles acaba novamente encontrando a aranha e acidentalmente enfiando a seringa no olho do rapaz.
O que esse curta investiu em valores de produção, incluindo o impressionante acidente com a moça e o não menos impressionante momento em que a seringa do paramédico acaba indo parar no olho do rapaz, ele se descuidou em termos de um roteiro que fosse além de um efeito-piada de humor negro. Tão, ou até mais problemático, no entanto, passa a ser o filme caso ele seja interpretado como portador de uma mensagem sobre  o perigo que tais tipos de brincadeiras aparentemente inocentes podem provocar. Edgerton é dublê em grandes produções hollywoodianas. Blue-Tongue Films para IndieFlix.  9 minutos e 24 segundos.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Bobby McFerrin - Drive


Bosnia presents a terrifying picture of Europe's future

The ordinary people of Bosnia-Herzegovina are showing Europe how to avoid sleepwalking into a disaster to rival that of a century ago
Exactly 30 years after the Olympic flame was lit in Sarajevo in 1984, the city was in again in flames. In recent weeks, protesters have stormed government buildings in an explosion of anger over their social situation, rampant poverty, moribund economy, and the stagnant social and political life. When the flame was lit back in 1984 I was seven and lived just across from the Olympic stadium. We could not sleep for two weeks, the flame was that powerful. But, we were at the same time very happy: it was a flame of prosperity, peace and endless possibilities.
Back then Sarajevo was projecting an image of what the European Union wanted its members to become: prosperous, diverse and secular with functioning industries, social equality, enviable social mobility and consistent growth. The European Union, as we now know, has failed to live up to that ambition.
There is another scene from the past too. Ten years after the Olympics, Sarajevo was in ruins, the exact image of what Europe thought it had left behind: a besieged and destroyed city, the victim of resurgent nationalism and sectarianism, Bosnia's landscape dotted with concentration camps and mass graves. Europe watched without doing anything, as if the image it believed to have left for ever in its past was too mesmerising.
And now again, Sarajevo and Bosnia are holding up a mirror to Europe, to its present and to its future. Bosnian cities resemble London in the summer of 2011 and the suburbs of Paris in 2005: an explosion of anger and the anarchic destruction of all symbols of political, social and economic power. Almost 20 years after the Dayton peace agreement, it seems as if local elites and international players have both reached a consensus only on one point: how to rapidly restore capitalism in the country. Yet it is mass privatisation that has led to almost total de-industrialisation and the dependence on imported goods and services financed by the debt slavery of citizens and their weak state.
The result is that ethno-nationalist elites, greatly responsible for war, were rewarded in peace not only by ethnic partition, but also with all the wealth of the territories they control. This was the elite that the international community and the EU, through their marginal politicians sent as "high representatives", treated as their main partners. Citizens were to be kept at bay.
But there is one big difference with the riots seen in other European cities, and this is where Bosnia speaks directly to Europe's current predicament: this is not a rebellion of discriminated and ghettoised groups, territorially contained on the outskirts of big cities. It is a rebellion of the whole population that has been subjected to economic impoverishment, social devastation and political destitution. In this, Bosnia is an image of Europe's future: ungovernable populations, exhausted by austerity measures and left to their own devices after the collapse of remnants of the welfare state – a state with no prospect for growth, run by elites of dubious, if any legitimacy who deploy heavily armed police to protect themselves against ordinary citizens.
However, Bosnia-Herzegovina today sends yet another image. Throughout the country popular assemblies – or plenums – have been established, and an especially laudable example is the Tuzla plenum, which has become so significant that it is now in a position to make appointments to local government. We are talking about ordinary people who are desperate and angry but at the same time determined to struggle for a better life in spite of all the institutional obstacles. They are not merely shouting slogans about what democracy should look like but are putting participatory democracy into practice instead.
Bosnia is showing us scenarios of unrest in other European cities, but also a way out, through the struggle of its citizens for social justice, equality and democracy. In fact, Bosnia is offering an image of what Europe must become in order not to sleepwalk again into a disaster as it did a century ago, when the assassination of Franz Ferdinand in Sarajevo marked the beginning of the first world war. Europe didn't listen then just as it did not follow the image that Sarajevo's Olympic flame was projecting in front of my window in 1984. Will it fail to understand the message Bosnian citizens are sending now? Will Europe engage in putting down this flame only to see it erupting in some other corner of the continent, very soon, when it might be too late?
Igor Stiks, The Guardian

ESTREIA-Indicada ao Oscar de animação, "Vidas ao Vento" combina fantasia e realidade

SÃO PAULO, 27 Fev (Reuters) - "Vidas ao Vento", animação do veterano cineasta japonês Hayao Miyazaki ("A Viagem de Chihiro", "Ponyo: Uma amizade que veio do mar") é ao mesmo tempo uma elegia e uma despedida. Um filme sobre os sonhos de juventude perdidos, um adeus do diretor, de 73 anos, que anunciou em setembro passado - quando o longa foi exibido no Festival de Veneza - que está se aposentando. A obra concorre ao Oscar de Melhor Animação, estreando no Brasil apenas em cópias legendadas.
O roteiro, assinado por Miyazaki e baseado em mangá que ele publicou entre 2009 e 2010, constrói uma biografia ficcionalizada de Jiro Horikoshi (1903-1982), designer responsável pelos aviões Mitsubishi A6M Zero, usados por anos pela Força Aeronáutica do Japão, inclusive para operações kamikazes. E, apesar dos elementos de fantasia, há uma base bastante real para esse filme.
Se fosse literatura, "Vidas ao Vento" seria um "bildungsroman", um romance de formação que acompanha o seu protagonista desde a infância, até a sua perda da inocência. Acompanha-se Jiro desde pequeno e seu sonho de ser piloto de avião. Seu ídolo é o engenheiro italiano Giovanni Caproni, que aparece em seus sonhos e se torna uma espécie de mentor - eis o lado tipicamente Miyazakiano do filme, com seus elementos de fantasia. O mestre convence o rapaz que seu talento é para construir aeronaves.
É durante um dos piores terremotos da história do Japão, conhecido como o Grande Sismo de Kantô, de 1923, que Jiro conhece a jovem Naoko - ambos estavam viajando no mesmo trem. Ela se tornará o grande amor de sua vida, mas, para ele, ainda era cedo para pensar nisso - seus interesses se concentravam nos projetos de avião.
Metódico e empenhado, Jiro se vê não apenas como um projetista, mas também com um artista, tentando encontrar a perfeição pela forma das aeronaves. Existe aí um paralelo entre a carreira do biografado e a do próprio diretor - em suas obsessões pela perfeição, e, ao mesmo tempo, por serem incompreendidos.
A polêmica surge, então, no retrato que o cineasta faz desse personagem, que, em última instância, estava construindo algo que seria cooptado pelo governo e ia acabar se tornando arma de guerra, à revelia de seu criador.
Anos mais tarde, quando Jiro se reencontra com Naoko, já na vida adulta, o filme segue essa paixão delicada entre os dois - ameaçada pelo maior fantasma que os assombra: uma doença. Entrelaçando a vida profissional com a pessoal do protagonista, o cineasta constrói uma história de amor tocante. A forma como ela influencia na vida de Jiro irá refletir-se no trabalho dele, mostrando que existe um mundo além do seu escritório e da mesa de projetos.
Se "Vidas ao Vento" for mesmo o último filme do cineasta - e há uma grande torcida para que não o seja -, Miyazaki conclui sua filmografia com uma obra bonita e melancólica sobre a incompreensão e a desilusão - um filme que é corajoso ao desafiar a historiografia oficial do Japão, e, ao mesmo tempo delicado na sua percepção da humanidade do artista.
(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)
* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

Stanley Jordan - Eleanor Rigby

Arthur Holdsworth Conversando com Thomas Taylor e Capitão Stancombe às Margens do Rio Dart, 1757

A demanda britânica por retratos cresceu intensamente no século XVIII quando membros da afluente classe média se tornaram eles próprios mecenas. Arthur Devis foi um artista provinciano que passou a viver em Londres, onde sofisticados retratistas da classe alta tais como Reynolds e Gainsborough dominavam o mundo artístico. Devis recebia comissões de proprietários de terras de classe média, mercadores e oficiais que viviam em cidades menores, afastadas de Londres.

Esse retrato informal é uma conversation piece, gênero apreciado por Devis. As figuras, embora apresentadas de corpo inteiro, são relativamente pequenas e se encontram posicionadas um pouco para trás da paisagem; o pano de fundo é maior e mais detalhado que na pintura tradicional, descrevendo temas pessoais e contexto social.

Devis concebeu um repertório de posturas e gestos que utilizou para expressar o status social de seu retratado.Arthur Holdsworth, diretor do Dartmouth Castle,  observado sentado, com expressão atenta em sua face. O barco aportando na embocadura do rio Dart ao fundo pode ser uma referência ao negócios da família do cunhado de Holdsworth, Thomas Taylor, posicionado diante dele, em roupas de equitação. O terceiro homem é o Capitão Stancombe.
Texto: National Gallery of Art. Nova York: Thames & Hudson, 2005, pp. 143.

Pink Floyd Final Cut (1) - The Post War Dream



Certamente está longe de ser considerado pela crítica a obra-prima do grupo, esse que foi seu último álbum digno de fato de carregar o nome da banda, mas é o único que tenho  uma ligação realmente afetiva. Lembro de sua chegada em casa em vinil, capa embalada em plástico cheirando a novo e falando de coisas tão recentes como a Guerra das Malvinas. essa canção, particularmente, tem uma das frases mais "grudentas" em minha memória da música pop ("tell me true/tell me why/was Jesus crucified...); digo grudentos no bom sentido do termo, de um casamento tão bom entre acorde e palavra que ao longo dessas décadas vez por outra assoma de novo de forma completamente espontânea, quando menos espero..."tell me true/tell me why/was jesus crucified..."

Filme do Dia: Blue (1993), Derek Jarman


Blue (Reino Unido, 1993). Direção e Rot. Original: Derek Jarman. Música: Simon Fisher-Turner Momus. 
Colagem de áudio e ruídos sobre o mesmo fundo azul do início ao final. Jarman pretende evocar a crescente deficiência visual em seu processo terminal que o levaria a morte no ano seguinte.  Na trilha de áudio ouve-se o próprio Jarman e alguns outros (como Tilda Swinton e Nigel Terry). Sua estratégia pode evocar a técnica do fluxo de consciência de Virginia Woolf, ao de certa forma representar uma evocação da própria mente e subjetividade humanas ainda que sua bravura formal (é ainda mais radical em sua proposta que Branca de Neve, de João César Monteiro, no sentido de que aquele ainda  pode se apoiar grandemente em um fluxo narrativo mais convencional  em sua banda sonora, e aqui tudo acaba se restringindo a sua sofisticada sonoplastia) também tenha um custo elevado, que exige bastante do espectador (auditor?). Jarman vai de evocações do passado até detalhes clínicos de seu tratamento (como a extensa lista de contra-indicações de um dos medicamentos que faz uso), da poesia a mais banal descrição do que encontra nos intermináveis corredores dos hospitais, da certeza da morte e ausência de posteridade a uma fantasia juvenil pela Índia. Basilisk Co./Uplink Co./Arts Council of Great Britain/Channel Four Films/BBC Radio/Opal. 79 minutos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Meu Caro Diário, 24/04/2011

 domingo. Acabei de me despedir de Vancarder, cerca de duas horas atrás. Voltei e revi foto por foto as cercas de 500 que tiramos no feriado. Algo de meio óbvio me veio a mente. A beleza da vida representada pelo movimento (crianças se jogando no rio em Morretes) e pela ausência dele (prédios, velhos em bancos de praça). O fluxo que escorre lentamente e nos faz também mais gordos – pesei-me em Morretes e para meu horror me descobri com 73 quilos, novo recorde! O fato é que as fotos me levaram a um mundo bem mais telúrico e intenso do que o cotidiano cinza da universidade. Porém, um prazer deslocado, prenhe da alienada necessidade de sobrevivência. Fugir da rotina, no feriado, foi de certo modo a confirmá-la. Pois os dias de exceção somente existem para confirmar a regra. Que assim o seja, pois d´outro modo acho que não me acharia, antes perderia o restante de razão que ainda possuo. Talvez a maior parte das melhores fotos tenham sido efetivadas por Vancarder, assim como talvez algumas das piores também. Sem dúvida, ele possui o domínio da técnica da câmera um pouco mais que eu. Pude ver o quanto sou abusado nas fotos, assim como ele também. Estou com vontade de enviar um cd para Cris e presentear Pedro e Lia com outro. O medo dos sentimentos é o que fode e ao mesmo tempo consegue fazer com que a vida seja tocada para frente. 

Meu Caro Diário, 24/01/2006

 O mês de janeiro se esvai como a tarde, com sua luminosidade dourada e eventuais bandos de andorinhas. E eu novamente com a idéia fixa de um plano com câmera fixa a escutar o “noturno” de Chopin. Hoje, ao contrário das diversas saídas de ontem, passei o dia em casa. Acordei tarde para os novos padrões daqui, por volta de 9, 9 e meia. Ainda há tempo de ver 2 dos 3 filmes que havia programado para o dia na tv a cabo: “The Lost World”, típico sci-fi b completamente desclassificável, mas que me provocou prazer de assistir e o primeiro longa de Buster Keaton. Depois almocei. Escrevi resenha sobre um deles. Dormi. Escrevi sobre o outro. Li agora um pouco de Graciliano. Completamente imerso em meu mundinho mesquinho de pensamentos e sensações. Desde ontem sob o efeito do antibiótico para combater a farin/laringite que me acometeu, e que provavelmente também fez Iraíde como vítima. Por sinal, vou ter que interromper essas notas pra tomar um xarope também receitado pela doutora. Hoje Mamãe relatou episódios de quando criança. Alguns já bastante repetitivos, outros não lembrava com tanta precisão dela ter comentado antes. Como o desejo de brincar de madrugada, insone ao contrário dos outros. E ela me levava pra brincar na cama, receosa que Papei escutasse meus choros e voltasse a me bater. Agora são 23:06. acabei conseguindo ver também o terceiro filme do dia. Foi (sic) Simpathy for the Devil, de Godard.
(...)

Meu Caro Diário, 24/09/2005

 Sábado. Atendi ao convite da Lia de ir até a Pinacoteca. Sinto-me agora meio morto-vivo e isso diz respeito a duas coisas. A primeira o fato de ter dormido mal três noites seguidas – indo (sic) dormindo tarde e acordando, ontem até que ainda consegui pegar no sono de novo, mas não hoje ou anteontem – e a segunda foi um certo espectro de negatividade que senti em Lia e que ela própria expressou. Para piorar ainda tive que trafegar por todas aquelas ruas nauseabundas e com gente horrível e pobre por todos os cantos. Divaguei um longo tempo com Lia no Parque (sic) colada a Pinacoteca, onde transitam sobretudo putas, miseráveis e clientes (talvez os dois últimos encarnados numa só configuração humana, se estendermos a dimensão de miserabilidade). Mas quem sou eu para toda essa moralice carola? 
(...)

Despedida, Cecília Meireles

Por mim, e por vós, e por mais aquilo 
que está onde as outras coisas nunca estão, 
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo: 
quero solidão. 

Meu caminho é sem marcos nem paisagens. 
E como o conheces? - me perguntarão. 
- Por não ter palavras, por não ter imagens. 
Nenhum inimigo e nenhum irmão. 

Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada. 
Viajo sozinha com o meu coração. 
Não ando perdida, mas desencontrada. 
Levo o meu rumo na minha mão. 

A memória voou da minha fronte. 
Voou meu amor, minha imaginação... 
Talvez eu morra antes do horizonte. 
Memória, amor e o resto onde estarão? 

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra. 
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão! 
Estandarte triste de uma estranha guerra...) 
Quero solidão.

Klaus Voormann & Paul McCartney in Hog Hill Mill Studios circa 2008

Filme do Dia: Amor Profundo (2011), Terence Davies

Amor Profundo (The Deep Blue Sea, Reino Unido/EUA, 2011). Direção: Terence Davies. Rot. Adaptado: Terence Davies, a partir de uma peça de Terence Rattigan. Fotografia: Florian Hoffmeister. Montagem: David Charap. Dir. de arte: James Merifield, David Hindle & Sarah Pasquali. Cenografia: Debbie Wilson. Figurinos: Ruth Myers. Com: Rachel Weisz, Tom Hiddleston, Simon Russell Beale, Ann Mitchell, Barbara Jefford, Jolyon Coy, Karl Johnson, Oliver Ford Davies.
Segunda Guerra Mundial. Hester (Weisz) abandona o casamento com o bem situado socialmente juiz, Sir William Collyer (Beale) para viver uma tórrida paixão com um piloto da Força Aérea, Freddie Page (Hiddleston). A relação entre ambos é sempre marcada pelo tom indignado, ressentido e violento de Page. Mesmo com as constantes súplicas do ex-marido para retornar, Hester tenta o suicídio, mas mantém os sentimentos pelo amante. Com o final da guerra, a relação entre ambos entra em declínio, com Freddie cada vez menos socialmente adaptado. Quando surge uma possibilidade de trabalho e aventura no Rio de Janeiro, ele decide que é hora de partir e avisa no mesmo dia para Hester.
Talvez o que torne esse filme de Davies mais interessante, seja a absoluta recusa de atualizar sua mais que convencional relação de submissão feminina e quase indiferença masculina dos dias da peça de Rattigan aos dias em que o filme veio a ser produzido. E, agindo assim, tudo parece ainda mais afinado com a sua habitual direção de arte, fotografia e iluminação características, repletas de nostalgia e com direito às canções, cantadas coletivamente em pubs e estações de metrô, a singelo meio passo entre a empostação absoluta do musical e a mais realista discrição. Certamente não se deve esperar algo particularmente original nem com a pungência somente conseguida de todo nos filmes de matriz fortemente autobiográfica do realizador (A Trilogia de Terence Davies, Vozes Distantes), mas o habitual esmero na direção de atores e na reconstituição da atmosfera de uma época faz com que o envolvimento com os personagens se torne quase inevitável. Ao final, tal como no episódio mais tocante de sua trilogia, Children (1976), observa-se a câmera se distanciar dos personagens, demarcando-os dentro de seu cenário e, ao mesmo tempo, intensificando a situação de dor em contraste com as ações cotidianas vividas pelos que se encontram nos arredores, alguns deles bem próximos fisicamente da protagonista. Talvez a utilização do Concerto para Violino e Orquestra, Opus 14, de Samuel Barber seja demasiado enfático e funcione de forma menos orgânica que as canções da época que habitualmente povoam seus filmes – aqui basicamente restritas aos momentos diegéticos referidos. Uma versão para as telas da peça havia sido produzida pouco depois de sua estreia teatral, dirigida por Anatole Litvak, com Vivien Leigh e Kenneth More nos papéis principais. Em pouco tempo, a dramaturgia de Rattigan cairia do gosto com a explosão de John Osborne e de seus angry young men, que também dominariam as telas cinematográficas inglesas a partir do final dos anos 50. Camberwell-Fly Films/Film4/UK Film Council/Lipsync Prod./Protagonist Pictures/Fulcrum Media Services/Artificial Eye para Music Box Films. 98 minutos.


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Cartola II [1976] | Completo full album

Meu Caro Diário, 25/02/14

acabei de ver o último dos Coen. It´s fucking good! Tava morrendo de medo de acontecer o que aconteceu em setembro, quando paguei um ingresso de 25 dólares para assisti-lo numa gigantesca sala do Lincoln Center, rodeado de centenas de pessoas e simplesmente dormi. Havia acordado umas 4h30 da manhã e era depois do almoço, [sic] buxo cheio, etc. Pensei: vou dormir de novo. Foi uma experiência algo fantasmática, assombrada por alguns breves momentos de lembranças de cenas da visada anterior, agora fazendo evidentemente plenamente sentido. Dá gosto de ver ao contrário da maior parte das sebosidades que concorrem ao Oscar - e o que vai ganhar, "A Trapaça", é um lixo! Ao invés de seguir a carreira de um Bob Dylan ou afins, que "surge" ao final em início de carreira, o filme segue uma figura que, como centenas de outras, não vingou como Dylan.E o quão importante é essa tomada de posição pelo outro lado da história, muitas milhas distantes do Sonho Americano. As canções, que já vinha escutando desde setembro são qualquer coisa de boas. É um filme que mobiliza não apenas os sentidos, mas o espírito. Humano até dizer chega. E sem precisar dizer que é humano, que é o mais fundamental!  E sem as horrendas trilhas que acompanham a maior parte dos filmes que estão por aí, que tentam sentir pelo espectador. Ou sem o uso abusivo de canções de época apenas como efeito para tentar sanar suas próprias lacunas e provocar "sensação" como o medíocre filme de Russell e quase todos os filmes que lidam com determinado período passado. Merecia ao menos a porra do Oscar de rot. original para ficar em boa companhia (Cidadão Kane, Crepúsculo dos Deuses, Chinatown, Um Dia de Cão, Annie Hall, Hannah e Suas Irmãs, Pulp Fiction, Fargo, Fale com Ela). Merecia, pois acabei de descobrir que a porra dessa premiação não o indicou na categoria de roteiro. Pode-se levar a sério tal porcaria? Já faz algum tempo que acho os Coen os cineastas norte-americanos mais talentosos em ação - e de longe!

Both Members of This Club, 1909

Both Members of This Club foi inspirada pelas lutas que Bellows testemunhou no Tom Sharkey Athletic Club em Nova York. Na época, as lutas de boxe públicas eram ilegais na cidade. Organizações privadas como a de Sharkey tornavam os futuros lutadores membros provisórios do "clube" na noite do evento para driblar a lei.

Na pintura pode quase se sentir a atmosfera da fumaça de charutos borolentos e suor que caracterizava esses ambientes. No frenético clímax da disputa, o lutador vitorioso à direita avança, enquanto o quase vencido boxeador da esquerda, com a face contorcida de dor, resiste fracamente ao soco e momentaneamente consegue adiar sua derrota iminente. As pinceladas rápidas e contundentes de Bellows, seu uso característico de iluminação dramática  e cores lúgubres, sua seleção de ângulos fortes e dramáticos primeiros planos todos amplificam o sentido de momento presente da cena. Os membros da platéia, com suas faces horrivelmente desfiguradas pela paixão sofrida, apresentam uma selvagem sede de sangue que revela muito a respeito dos aspectos mais sombrios da natureza humana. O artista sugere que os homens no ringue, unidos por seus esforços físicos também devem competir com o mais amplo, e talvez ainda mais brutal, adversário que é a injustiça social.
Texto: National Gallery of Art. Thames & Hudson. Nova York, 2005. pp. 246.
O público de skiffle e rock-and-roll, a não ser que severamente retardado mental, tendia a ter entre dez e quinze anos de idade. O apelo universal da moda provavelmente se deu a esse infantilismo.
(Eric J. Hobsbawn, História Social do Jazz, p. 100)

That's the way god planned it - Billy Preston

“There is something sad about people going to bed. You can see they don’t give a damn whether they’re getting what they want out of life or not, you can see they don’t ever try to understand what we’re here for. They just don’t care. Americans or not, they sleep no matter what, they’re bloated mollusks, no sensibility, no trouble with their conscience.
I’d seen too many troubling things to be easy in my mind. I knew too much and not enough. I’d better go out, I said to myself, I’d better go out again. Maybe I’ll meet Robinson. Naturally that was an idiotic idea, but I dreamed it up as an excuse for going out again, because no matter how I tossed and turned on my narrow bed, I couldn’t snatch the tiniest scrap of sleep. Even masturbation, at times like that, provides neither comfort nor entertainment. Then you're really in despair.” 
― Louis-Ferdinand CélineJourney to the End of the Night

Berlinale

Dirigido por Diao Yinan, o filme policial chinês Black Coal, Thin Ice surpreendeu o público ao levar o prêmio de melhor filme da Berlinale (Festival de Filmes Internacional de Berlim), neste sábado (15), na capital alemã. Além do Urso de Ouro pela honraria, o longa ainda faturou o Urso de Prata de Melhor Ator (Liao Fan). A Berlinale 2014 teve recorde de venda de ingressos – 300 mil em dez dias de festival.
Com o prêmio,  Black Coal, Thin desbancou a produção favorita ao principal prêmio do evento, Boyhood, de Richard Linklater, que foi honrado como melhor diretor na 63ª edição do evento, o principal voltado ao cinema da Alemanha, presidida pelo produtor James Schamus. 
"É difícil acreditar que esse sonho que tive por tanto tempo se tornou realidade", disse o diretor com aparência surpresa ao receber o prêmio na noite deste sábado, no Berlinale Palast.
Black Coal, Thin Ice se passa no norte da China e conta a história de um policial que é suspenso depois de sobreviver a uma troca de tiros com suspeitos de um assassinato. Cinco anos depois, outra série de homicídios misteriosos leva o agora perturbado e alcoólatra ex-agente de volta à ativa.
Surpresas do Oriente
A China apresentou três expoentes de seu novo cinema na competição. O olhar desses novos cineastas para um país em rápida transformação revelou um cinema promissor, mas que ainda precisa amadurecer sua cinematografia. No entanto, o júri se encantou com o filme de Diao, que não era considerado o favorito.
Com imagens elaboradas e trilha sonora que tenta recriar a sensação de um cego, Blind Massage, de Lou Ye, foi o mais interessante dos filmes chineses no evento e levou o prêmio de contribuição artística por sua fotografia.
O japonês Yoji Yamada apresentou o delicado The Little House, uma história de um amor proibido na Tókio dos anos 1930 e 1940 vivida pela criada da casa, interpretada por Haru Kuroki, que também surpreendeu ao levar o Urso de Prata de melhor atriz.
Outros vencedores
A comédia de mistério e aventura O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, que abriu o festival e conta com um elenco de estrelas que causou frisson em Berlim, acabou levando o Grande Prêmio do Júri.
Os irmãos Dietrich e Anna Brüggemann levaram o Urso de Prata de melhor roteiro por The Station of the Cross, dirigido por Dietrich. Life of Riley, do veterano Alain Resnais, faturou o Prêmio Alfred Bauer por "abrir novas perspectivas na arte cinematográfica".
Olhar infantil
Diversos filmes apresentados no festival buscaram o universo ou o olhar infantil no desenrolar de suas histórias. Entre eles, o favorito Boyhood. O tocante e divertido longa sobre a infância e adolescência de um menino é também um sensível e corajoso projeto cinematográfico. Durante 12 anos, Linklater reuniu um grupo de atores para contar as aventuras de uma família.
O filme é focado em Manson (Ellar Coltrane) e em sua jornada de descoberta do mundo através da relação com o pai ausente (Ethan Hawke), a mãe (Patricia Arquette) e seus casamentos, e sua irmã mais velha, Samantha (Lorelei Linklater).
Dois filmes alemães apresentaram grandes atuações de jovens protagonistas. Ivo Peitzcker brilha no drama Jack, de Edward Berger, na pele de um menino de dez anos que toma conta, sozinho, de si mesmo e do irmão mais novo já que a jovem mãe trata os filhos como amigos. É quando um acidente muda o destino da família.
The Station of the Cross, que também era forte candidato ao Urso de Ouro, mostra o cotidiano da adolescente Maria (Lea Van Acken), cuja vida é comandada por sua fé na Igreja Católica. A jovem não consegue lidar com a família conservadora e os desafios do mundo contemporâneo.
O austríaco Macondo, de Sudabeh Mortezai, fala das dificuldades de um menino checheno ao tomar conta de sua família e, ao mesmo tempo, buscar um modelo em seu processo de amadurecimento para se tornar um adulto em um mundo com poucas opções e limitadas perspectivas.
Outro destaque foi o argentino Historia del Miedo. O filme mostra de maneira apocalíptica o cotidiano e as tensões entre ricos e pobres no país através das relações de moradores e empregados em um condomínio de luxo no subúrbio de Buenos Aires.
Bom ano para o cinema brasileiro
O cinema brasileiro triunfou na Berlinale desst ano com a dupla premiação de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. O longa de estreia de Daniel Ribeiro, que conta a história de um jovem cego que se descobre gay, ganhou o prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema e o Teddy Awards de melhor filme de temática GLBT. O longa ainda ficou em segundo lugar na escolha do público da mostra Panorama, na qual também foi apresentado O Homem das Multidões, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes.
A estreia de Praia do Futuro na mostra competitiva não empolgou a crítica e polarizou opiniões. A história do salva-vidas Donato, que abandona a família no Brasil para viver com o namorado em Berlim, tem belas imagens, cenas de sexo realistas e boa trilha sonora, mas se perde na transição entre o Brasil e a Alemanha. Ainda assim, com o futuro lançamento em diversos países são grandes as expectativas de que o belo filme de Aïnouz conquiste público – e prêmios – mundo afora.
Outro destaque foi Castanha, de Davi Pretto. O filme brinca com o real e o ficcional ao mostrar a vida do ator e transformista. Através da relação do protagonista com sua mãe, o diretor mergulha na essência do personagem e fala de amor, família e arte.
O longa de Pretto fez parte da mostra Forum, que neste ano apostou em novas visões da realidade através de filmes que transitavam entre o documentário e a ficção, como O Sequestro de Michel Houellebecq,de Guillaume Nicloux – uma paródia do suposto sequestro do escritor francês, em 2011. A reflexão sobre mídia, literatura e a atual França foi um dos mais divertidos e interessantes filmes da Berlinale.
Recorde de público
A Berlinale 2014 será lembrada pelo recorde de venda de ingressos – foram 300 mil em dez dias de festival – mas também por sua morna competição.


A 64ª edição do Festival de Cinema de Berlim mostrou que o cinema está buscando novos caminhos, não só como forma artística, mas em sua visão de retratar a realidade e potencializar seu caráter político.
Fonte: Terra.

Filme do Dia: Um Copo de Cólera (1999), Aluísio Abranches

Um Copo de Cólera (Brasil, 1999). Direção: Aloísio Abranches. Rot. Adaptado: Aluísio Abranches & Flávio R. Tambellini, baseado no romance de Raduan Nassar. Fotografia: Pedro Farkas. Música: André Abujamra. Montagem: Idê Lacreta.Com: Alexandre Borges,  Júlia Lemmertz. 
      Uma jornalista (Lemmertz)  vive com um agronômo (Borges) que resolveu se isolar do mundo, em sua fazenda,  uma relação amorosa atravessada por um longo dia de explosões de fúria de ambos os lados, desde que, no café da manhã, esse resolve correr desesperado para atacar as saúvas que apareceram em sua propriedade. O bate-boca só finda quando, ao invés do momento de amor que pensa viver, a jornalista, que fora atiçada pelo pé de seu companheiro no seu sexo, acaba se revoltando quando esse acaba rindo de sua situação e abandona a propriedade, onde cai no chão, completamente vencido por suas próprias perturbações, sendo reerguido pelos caseiros que há pouco humilhara. No final da tarde, a jornalista, como sempre não resistindo ao retorno, reencontra-o completamente despido e indefeso em posição fetal na cama.
      Embora a proposta de se adaptar diálogos literários com um viés também literário seja instigante, pela sua originalidade, o resultado não se sustenta desde o início, sendo constrangedor e aborrecido, seja nos diálogos repletos de adjetivos, clichês e frases de efeito, que talvez ainda provocassem alguma reação no teatro, ou ainda na tentativa de se apresentar como um produto artisticamente refinado e cult, através da música, fotografia bem cuidada e ritmo. De uma gravidade absurdamente pomposa, o filme se torna ridiculamente pretensioso, mesmo nas cenas de amor “ousadas” do casal, que soam tão artificiais quanto o filme como um todo. Como expressão de erotismo e obsessão sexual se encontra a anos-luz de O Império dos Sentidos (1976), de Oshima. Como adaptação de uma fonte extra-cinematográfica a anos-luz de Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966) de Nichols, que também apresenta uma situação de conflito conjugal em uma situação espaço-temporal igualmente comprimida, devido, em grande parte, a limitação dos atores e da fonte literária. Ravina Produções. 70 minutos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Tommy Dorsey and his Orchestra -- Blue Skies (Irving Berlin)



Cream - White Room

"And never have I felt so deeply at one and the same time so detached from myself and so present in the world." -- Albert Camus'
A arte folclórica, inevitavelmente, perde muito de sua concreção assim que sai da comunidade que reconhece suas alusões detalhadas e referências. À medida que o jazz se tornou o idioma musical geral para imigrantes negros que chegavam às cidades, perdeu inevitavelmente algumas de suas raízes.
(História Social do Jazz, Eric J. Hobsbawn, p. 105)

Paisagem Fluvial, c. 1590



Pode ser dito que com pinturas como essa, Annibale Carraci inventou a paisagem como tema para a pintura barroca italiana. A natureza é apreciada aqui primeiro e antes de tudo por ela própria, e não como pano de fundo para uma história. Uma branda luz de sol salpica a terra e seleciona as ondulações que pertubam a superfície do rio. O dourado no topo das árvores sugere um dia de começo do outono. Revestido de forma luzidia em vermelho e branco, um barqueiro executa seu ofício pelas águas rasas.

Na companhia de seu irmão Agostino e seu primo Ludovico Carraci, Annibale fez excursões ao campo para criar esboços de paisagens. Desses estudos rápidos feitos nos locais, trabalhou suas pinturas no estúdio. A composição resultante é um magistral equilíbrio das formas. Como o rio segue seu caminho pelo campo em direção ao primeiro plano os desvios de terra que traçam seu curso são feitos de recuos e avanços num ritmo alternado de triângulos. Árvores, como postes indicativos, demarcam a dimensão do recuo à distância. Ao mesmo tempo, as pinceladas ousadas das árvores escuras em primeiro plano forma um padrão dramático na superfície que roubam a atenção do espectador do azul enevoado do horizonte distante.
Texto: National Gallery of Art. Thames & Hudson: Nova York, 2005. pp. 109.

CSN - Guinnevere

Miles Davis - Guinnevere - The Complete Bitches Brew Sesssions, 1970



Também conseguimos um take deslumbrante de "Guinevere", que é foda de cantar. Anos depois, foi a erva do gato para Miles Davis. Ele trabalhava em Bitches Brew na época e encontrou com [David] Crosby no Village. "Ei David", disse, "gravei uma canção de vocês, 'Guinevere'. Quer escutar?", perguntou Miles, abraçado uma loura alta  de longas pernas  com quem desejava trepar. Então foram os três ao apartamento escutar "Guinevere". Miles pôs a canção, uma versão de vinte minutos que se diluía numa míriade de direções cósmicas e foi para a cama com a loura, deixando David escuta-la enquanto fumava. Meia-hora depois Miles apareceu do rendez-vous em seu quarto. "O que você acha, Dave?" Crosby lhe soltou uma de suas penetrantes observações características: "Bem Miles, você pode usar a canção, mas retire o meu nome dela."  Miles ficou abatido. "Você não gostou?" "Não cara, não gostei nenhum pouco".

Cerca de dez anos após, eu estava  num evento pós-Grammy no Mr.Chow, em Los Angeles e vi Miles chegando com Cicely Tyson. Ele chamou minha atenção acenando insistentemente para mim. Eu olhei por cima de meu ombro e pensei que certamente estava acenando para qualquer outra pessoa. "Não, não, é você, venha cá", insistiu. Quando cheguei ao alcance de sua voz, ele inclinou-se e me indagou com sua voz baixa e grave: "Crosby ainda está puto comigo?"
"Você fala a respeito de 'Guinevere'?", perguntei.
"Isso", ele confirmou. "Ele ainda está puto?"
"Não creio, Miles. Ou ele estava alto demais ou não estava no momento certo para escutar sua versão. Provavelmente esperava que os acordes fossem os mesmos, mas não creio que ele tenha ficado nenhum pouco puto."
Miles ponderou com sua intensidade socrática. "Ok. Dê um oi a David. E lhe diga que espero que ele ainda não esteja puto."
(Graham Nash, Wild Tales, pp. 152-3)

Filme do Dia: Sonhos de um Sedutor (1972), Herbert Ross

Sonhos de um Sedutor (Play it Again, Sam, EUA, 1972). Direção: Herbert Ross. Rot. Adaptado: Woody Allen, baseado em peça homônima de sua autoria. Fotografia: Owen Roizman. Música: Bill Goldenberg. Montagem: Marion Rothman. Dir. de arte: Ed Wittstein. Com: Woody Allen, Diane Keaton, Tony Roberts, Jerry Lacy, Susan Aspach, Jeniffer Salt, Joey Bang, Viva.
      Allan Felix (Allen) é um crítico de cinema subitamente em crise após ser abandonado pela esposa, Nancy (Aspach). O casal de amigos Dik (Roberts) e Linda Christhie (Keaton) o ajudará a encontrar um novo amor, assim como a inspiração extra-terrena de um especialista no assunto, Humphrey Bogart (Lacy). Depois de várias tentativas frustradas e saídas ocasionais, e com uma maior proximidade entre Allan e Linda, enquanto o marido Dik cada vez mais se distancia da mulher e investe no trabalho, eles vivenciam uma situação amorosa. Porém o novo amor é posto à prova quando Linda e Allan se deparam com um casamento de anos e com a traição ao melhor amigo respectivamente e Linda decide ficar com o marido e abandonar o amante.
        Curiosamente mesmo não dirigido pelo cineasta, trata-se do primeiro filme com Allen a abordar o universo urbano de seu alter-ego neurótico de classe média e sua conturbada vida afetiva, apresentando muitas das situações que antecipariam filmes posteriores como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), filme de ruptura na carreira do cineasta, onde retrabalharia o tema de modo mais sofisticado, tanto em termos dramatúrgicos quanto no aspecto visual. Os personagens de Keaton e Roberts já são um protótipo para filmes posteriores: ela como uma mulher charmosa, sensível e excêntrica; ele, como o melhor amigo do alter-ego de Allen e representando uma espécie de seu oposto, em termos de segurança financeira e afetiva. Da mesma forma aqui inicia-se, ainda que de uma forma canhestra por ser tão explícita, a relação entre sonho e realidade, cinema e vida, que também seria um tema recorrente na carreira do cineasta, que o próprio Allen trabalharia de modo bem mais sofisticado em filmes como Memórias (1980) e  Desconstruindo Harry (1997). Alguns poucos momentos são realmente divertidos como o nervosismo de Allan ao encontrar uma pretendente, enquanto as inserções de um sósia de Bogart, vestido à caráter como seu personagem em Casablanca geralmente soam desnecessárias e sem um ritmo apropriado de engajamento na narrativa. Adaptado de uma peça que Allen dirigira, quatro anos antes. Foi o seu primeiro trabalho com Diane Keaton, que seria sua parceira ao longo da década. Esse, entre todos os trabalhos que foi somente ator,  é o mais próximo de seu próprio universo. Uma tentativa semelhante, realizada por Paul Mazursky, outro cineasta americano também próximo do gênero cômico, Cenas de um Shopping (1991), foi desastrosa e maçante. APJAC Productions/Paramount Pictures. 85 minutos.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Wave - João Gilberto (de Tom Jobim)

lester young jammin the blues

Meu Caro Diário, 23/09/2004

(...)
A noite, a galera jovem (Maíra, Lindomar, Marquinhos, Thunder, Roberto, Murilo & Nádia) da Pousada e ex-pousada esteve numa festa em que acabaram chegando por volta das 6 h. da manhã. Quando já tava preparado para dormir, Carmen apareceu aqui no quarto dizendo que Fernando a havia agredido na frente da Vera na (sic) Lam House, ou seja, exatamente abaixo do meu quarto. Tive que dar um apoio moral e coisa e tal e isso comeu uma parte do meu sono. Descobri uma locadora aqui que é baratinha comparada com os preços extorsivos da merda da 2001. e, graça divina, tem um filme raro como A Idade da Terra, de Gláuber. O que importa agora é acabar essa porra de tese o quanto antes.

Filme do Dia: O Machão (1969), Rainer Werner Fassbinder



O Machão (Katzelmacher, Alemanha Ocidental, 1969). Direção e Rot. Original: Rainer Werner Fassbinder. Fotografia: Dietrich Lohmann. Música: Peer Raben. Montagem: Rainer Werner Fassbinder. Com: Hanna Schygulla, Lilith Ungerer, Rudolf Waldemar Bren, Elga Sorbas, Doris Mattes, Irm Hermann, Peter Molland, Hans Hirschmüller, Harry Baer, Hannes Gromball, Rainer Werner Fassbinder.
      Um grupo de amigos de uma pequena cidade alemã, decide centrar toda o seu mal-estar contra suas próprias vidas medíocres contra um imigrante grego recém-chegado, Jorgos (Fassbinder), que passa a ser acusado das coisas mais diversas desde molestar sexualmente Gunda (Mattes) até ser comunista. Marie (Schygulla), no entanto, abandona o  grosseiro namorado para namorar Jorgos, o que aumenta mais ainda a ira dos homens do grupo, que se reúnem e dão uma surra no grego.
   Essa pequena obra-prima filmada em apenas nove dias é o segundo longa-metragem de Fassbinder e já apresenta todas as características da estética que marcará seus primeiros filmes. Afastando-se do realismo convencional através da utilização de planos sempre fixos, recusa de trilha sonora e atuações marcadamente contidas e diálogos igualmente reduzidos, Fassbinder constrói seu comentário sobre o fascismo presente nas relações cotidianas. Seus atores não mais que balbuciam seus diálogos em um tom quase sempre monocórdio. Intercala dentro dessa estética da contenção,  breves momentos em que, rompendo com o restante da estrutura do filme, dispõe de alguns dos travellings mais belos da história do cinema, com acompanhamento musical – compondo cenas em que duplas desfilam fazendo comentários no pátio do edifício no qual moram, acompanhados pela bela e melancólica trilha sonora de Raben, que se tornaria presença contínua nas produções posteriores de Fassbinder. Toda a composição dessas breves intervenções da música e dos movimentos de câmera nos passeios das duplas, como da disposição dos atores em cena já aponta para o caráter de um humor profundamente subliminar, que tanto quanto seu distanciamento emocional e a forma seca e despojada com que são apresentados os personagens serão característicos dos primeiros filmes do diretor. Antitheater X-Film. 88 minutos. 


sábado, 22 de fevereiro de 2014

#10 The Auld Triangle | JustinTimberlake/MarcusMumford | Inside Llewyn D...

John Lennon - God

Comunidade Alto da Paz é despejada pelo Batalhão de Choque


Brasil, meu Brasil brasileiro...



Apolo Perseguindo Dafne, c. 1755-60

Ao longo de toda a sua carreira, Tiepolo pintou pequenos retratos de temas mitológicos, que provaram ser extremamente populares. Os temas de tais obras eram provenientes dos episódios mais conhecidos da literatura antiga, mas sua concepção das histórias era variada e original. Sua descrição de Apolo e Dafne vem diretamente das Metamorfoses, de Ovídio. Dafne, a bela ninfa e seguidora da casta deusa Diana, é perseguida pelo deus sol Apolo, que foi atingido pela flecha dourada do amor do Cupido. Fugindo de Apolo, Dafne alcança seu pai, Peneus, o deus dos rios, observado aqui à esquerda. Para evitar os avanços indesejáveis de Apolo, ela é transformada num pé de louro. A transformação ocorre diante de nós, com uma de suas pernas virando tronco e de seus braços brotando ramos.

Apolo e Dafne é única em meio às interpretações do tema. O impulso para a frente de Apolo parece provocar o movimento de recuo de Dafne, numa composição de frenético movimento. O cupido domina a ira de Apolo, que logo o seguirá, e Peneus permanece firmemente enraizado  no esforço de deter o ardoroso perseguidor. A composição descentrada, típica da arte veneziana, foi utilizada por Tiepolo alhures, mas nunca de modo tão intensamente dramático e emocional.
Texto: National Gallery of Art. Nova York: Thames & Hudson, 2005. pp. 111.

Filme do Dia: Sapatinhos Vermelhos (1948), Michael Powell & Emeric Pressburger

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Sapatinhos Vermelhos (The Red Shoes, Reino Unido, 1948). Direção: Michael Powell & Emeric Pressburger. Rot. Adaptado: Michael Powell & Emeric Pressburger, baseado no conto de Hans Christian Andersen. Fotografia: Jack Cardiff. Música: Brian Easdale. Montagem: Reginald Mills. Dir. de arte: Hein Heckroth. Cenografia: Arthur Lawson. Figurinos: Carven, Dorothy Edwards & Hein Heckroth. Com: Anton Walbrook, Moira Sharer, Marius Goring, Robert Helpmann, Léonide Massine, Albert Basserman, Ludmila Tchérina, Esmond Knight.
O diretor de bale Boris Lermontov (Walbrook) acaba apostando nos jovens talentos da bailarina Victoria Page (Sharer) e do compositor Julian Craster (Goring) na sua adaptação do conto de Hans Christian Andersen. A aclamação conquistada com o balé “Sapatinhos Vermelhos” acaba levando com que todo o repertório da companhia seja voltado para Victoria, sendo dispensada a antes primeira bailarina, Irina Boronskaja (Tchérina), que decidira se casar. Cuidando de todos os aspectos da carreira de Victoria, Boris se sente profundamente magoado quando descobre que seu convite para jantar com Victoria não pode se efetivar devido ela se encontrar nos braços de Julian. Inicia-se uma perseguição à dupla que acaba fazendo com que se afastem da companhia e se casem. Boris vai atrás outra vez de Irina, mas nunca esquece o brilho de Victoria, nem tampouco ela esquece os melhores momentos de sua carreira. Lermontov a reencontra e faz com que aceite o papel principal de uma nova montagem de “Sapatinhos Vermelhos”. No dia de sua estréia em Paris, no entanto, Julian, que abandonara a estréia de sua ópera em Londres para vir ao encontro de Victoria a pressiona para abandonar o palco alguns minutos antes da estréia do balé, enquanto Lermontov afirma que se ela for embora nunca mais a quer vê-la. Dividida entre o amor à dança e Julian, Victoria acaba escolhendo uma terceira opção.
Esse, que é um dos retratos mais tocantes da contraposição entre a arte e a vida pessoal que o cinema já legou, incluindo Bergman e Truffaut, beneficia-se sobretudo de sua excelente direção de atores, das impecáveis fotografia e cenografia com os habituais tons exuberantes que se tornaram marca registrada da dupla Pressburger & Powell. O personagem de longe mais intrigante e complexo de todos é o de Lermentov, própria metáfora do artista que apenas consegue sublimar seu afeto por Victoria através da criação artística. Metáfora bastante próxima do próprio universo do cinema, sendo Lermentov talvez alter-ego do próprio Powell e Sharer, iniciante como a protagonista da fábula. E o filme acaba, de modo maduro, não sendo enfático em defender uma ou outra opção. A própria morte de Victoria, ainda que sugerida ao pé da letra como acidental e guiada pelos sapatinhos mágicos – coroando a reprodução da própria narrativa de Andersen no enredo do filme – é um evidente suicídio e referência não menos evidente a Madame Bovary. É interessante o tratamento dado a longa seqüência que reproduz o balé no filme. Não se procura reproduzir realisticamente o mesmo, antes acrescentar a graça desse um “toque mágico”, a la Méliès, de cinema. Ou seja, trucagens vez por outra são acrescentadas, fazendo com que, por exemplo, Victoria tenha os sapatos automaticamente incorporados aos seus pés quando os vê. Ou ainda, através de sobreposições, que ondas se quebrem aos pés do palco em que Victoria se apresenta. Foi considerado pelos próprios criadores do technicolor como o melhor exemplo do uso de sua tecnologia pelo cinema. Independent Producers/The Archers para Eagle-Lion Distributors. 133 minutos.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Inside Llewyn Davis OST - Five Hundred Miles


Só o burro não toma Castaniodo


The Cure - Friday I'm In Love

Unto Us A Child Is Born





Um dos filmes pioneiros no uso da técnica de Kinestasis, que logo seria apropriada pelo imaginário audiovisual como um todo, de propagandas da Xerox a aberturas de longas comerciais. Porém você não encontrará o nome de Bill Morgan se procurar no IMDB. Ironicamente, uma razoável parte dos milhões de vídeos postados no you tube é descendente do uso da técnica da qual Morgan foi um dos pioneiros.  Num mundo em que números (e quanto maiores, melhores) parecem significar tudo, acho um exercício de desapego, ainda que involuntário, continuar se produzindo - se é que ele continua, pois nem mesmo sei se ainda se encontra vivo -  vídeos que não serão vistos por mais que algumas centenas.

Comentando a respeito do curta, ele próprio escreve:
 For me (Bill Morgan) it was a dream come true as I had long dreamed of combining photographs with classical music.  Other examples of my kinestasis works can be see at:  theawaremind.com/videos/

Fern Hill by Dylan Thomas (+playlist)


Sempre me tocou criadores que simplesmente continuam fazendo seus experimentos, goste ou não deles, carregando uma semente de amadorismo auto-consciente. É o caso do praticamente ilustre desconhecido Bill Morgan, um dos inventores da técnica de kinestasis, quando ainda estudante da University of Southern California, em meados dos anos 60. Ele possui dezenas de vídeos disponibilizados por ele próprio no You Tube, a maior parte deles com não mais que 200 acessos. E nem por isso deixa de realizar suas coisas.



Fern Hill

BY DYLAN THOMAS

Now as I was young and easy under the apple boughs
About the lilting house and happy as the grass was green,
       The night above the dingle starry,
               Time let me hail and climb
       Golden in the heydays of his eyes,
And honoured among wagons I was prince of the apple towns
And once below a time I lordly had the trees and leaves
               Trail with daisies and barley
       Down the rivers of the windfall light.

And as I was green and carefree, famous among the barns
About the happy yard and singing as the farm was home,
       In the sun that is young once only,
               Time let me play and be   
       Golden in the mercy of his means,
And green and golden I was huntsman and herdsman, the calves
Sang to my horn, the foxes on the hills barked clear and cold,
               And the sabbath rang slowly
       In the pebbles of the holy streams.

All the sun long it was running, it was lovely, the hay
Fields high as the house, the tunes from the chimneys, it was air
       And playing, lovely and watery
               And fire green as grass.
       And nightly under the simple stars
As I rode to sleep the owls were bearing the farm away,
All the moon long I heard, blessed among stables, the nightjars
       Flying with the ricks, and the horses
               Flashing into the dark.

(...)



      Dylan Thomas 1914–1953