CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

quarta-feira, 30 de abril de 2014

RUN BOY RUN SANFORD CLARK

Simon & Garfunkel - Cecilia

Monsignor Della Casa, provavelmente 1541/44

Giovanni Della Casa, que muito provavelmente é o tema desse quadro, pertencia a uma rica família toscana e veio a se tornar proeminente à serviço da Igreja. Como poeta, humanista e teórico político circulou nos mais altos escalões da vida intelectual italiana. Della Casa também escreveu um livro sobre boas maneiras, e nesse retrato, do princípio dos anos 1540, exibe o sóbrio auto-controle expresso nessa obra. Quando Pontormo pintou essa imagem, Della Casa estava nos seus trinta e poucos anos, e atuava em Florença como Comissário Apostólico dos impostos. Pontormo retratou o monsenhor em um escuro interior e, ainda que os detalhes arquitetônicos sejam poucos, sugerem se tratar de Santa Maria del Fiore, a catedral de Florença.

O estilo maneirista de Pontormo era uma brilhante síntese expressiva de fantasia e observação acurada da natureza. Aqui o equilíbrio se inclina a favor da realidade visível, mas uma realidade intensificada por exageros plausíveis. Por exemplo, a pequena cabeça do monsenhor aparenta ser ainda menor por conta da enorme massa em formato cônico de seu opulento manto tão aproximado e roçando as extremidades da moldura.
Texto: National Gallery of Art. Nova York: Thames & Hudson, 2005, pp. 99.

Gino Paoli - Sapore di sale (1963)

The Idea of Order at Key West


Wallace Stevens

She sang beyond the genius of the sea.
The water never formed to mind or voice,
Like a body wholly body, fluttering
Its empty sleeves; and yet its mimic motion
Made constant cry, caused constantly a cry,
That was not ours although we understood,
Inhuman, of the veritable ocean.
The sea was not a mask. No more was she.
The song and water were not medleyed sound
Even if what she sang was what she heard,
Since what she sang was uttered word by word.
It may be that in all her phrases stirred
The grinding water and the gasping wind;
But it was she and not the sea we heard.
For she was the maker of the song she sang.
The ever-hooded, tragic-gestured sea
Was merely a place by which she walked to sing.
Whose spirit is this? we said, because we knew
It was the spirit that we sought and knew
That we should ask this often as she sang.
If it was only the dark voice of the sea
That rose, or even colored by many waves;
If it was only the outer voice of sky
And cloud, of the sunken coral water-walled,
However clear, it would have been deep air,
The heaving speech of air, a summer sound
Repeated in a summer without end
And sound alone. But it was more than that,
More even than her voice, and ours, among
The meaningless plungings of water and the wind,
Theatrical distances, bronze shadows heaped
On high horizons, mountainous atmospheres
Of sky and sea.
                   It was her voice that made
The sky acutest at its vanishing.
She measured to the hour its solitude.
She was the single artificer of the world
In which she sang. And when she sang, the sea,
Whatever self it had, became the self
That was her song, for she was the maker. Then we,
As we beheld her striding there alone,
Knew that there never was a world for her
Except the one she sang and, singing, made.
Ramon Fernandez, tell me, if you know,
Why, when the singing ended and we turned
Toward the town, tell why the glassy lights,
The lights in the fishing boats at anchor there,
As the night descended, tilting in the air,
Mastered the night and portioned out the sea,
Fixing emblazoned zones and fiery poles,
Arranging, deepening, enchanting night.
Oh! Blessed rage for order, pale Ramon,
The maker's rage to order words of the sea,
Words of the fragrant portals, dimly-starred,
And of ourselves and of our origins,
In ghostlier demarcations, keener sounds.

Filme do Dia: O Silêncio (1998), Mohsen Makhmalbaf

O Silêncio (Soukut, Irã/França/Tadjiquistão, 1998). Direção: Mohsen Makhmalbaf. Rot. Original: Mohsen Makhmalbaf. Foto: Ebrahim Ghafori. Montagem: Mohsen Makmalbaf. Elenco: Golbibi Ziadolahyeva, Nadereh Normatova, Nadereh Adedelagyeva, Hakem Ghassem, Araz M. Mohamadli.
     Korshid (Ziadolahyeva) é um garoto cego que sustenta a mãe (Adedalagyeva), com a sensibilidade de seu ouvido musical e sua grande capacidade sensitiva, trabalhando como afinador de instrumentos, talento que também é explorado na hora em que vão ao mercado fazer as compras. Mesmo auxiliado por uma amiga (Normatova), Korshid,  no entanto, acaba por ter seu chefe contra ele por dois motivos: os clientes reclamam da qualidade da afinação dos instrumentos e Korshid quase sempre chega atrasado ao emprego. O último motivo se deve ao fato de que Korshid sempre se distrai seguindo uma bela voz feminina ou algum músico que toque belas melodias nos ônibus que pega para ir ao trabalho ou ainda os trabalhadores que consertam panelas próximo ao seu trabalho. Ao mesmo tempo que suas relações com o chefe indicam que este o despedirá em breve, sua mãe vem recebendo ameaças de que será despejada pelo senhorio, pelo atraso do aluguel. Korshid é efetivamente despedido, enquanto sua mãe se encontra na expectativa de que ele receba um aumento. Tentando não perder o local de moradia, ele vai com sua amiga procurar o músico que o fizera distrair sua atenção pela última vez, explicando os motivos e tentando fazer com que se sinta culpado pela sua demissão e despejo. Porém, ainda que sensibilizado com a situação do garoto, o músico afirma que não possui nada além de sua própria música. E toca com amigos, enquanto a mãe de Korshid é despejada. Sem emprego ou local para morar, Korshid rege um grupo de trabalhadores que consertam panelas.
       Mesmo que possa ser considerada como uma metáfora política sobre a situação de censura e repressão no Irã - sobretudo em momentos como o que Korshid caminha com sua amiga e esta lhe admoesta que precisam procurar outro caminho porque um homem se encontra armado ameaçando mulheres que andam sem véu - o filme também não descarta outras, talvez até mais interessantes, representações. Uma delas segue a tradição do filósofo Epicuro, que furou os olhos ao acreditar que o universo dos sentidos era um entrave para a melhor compreensão do mundo - presença constante no filme, especialmente na cena em que Korshid, por experiência própria ao tapar constantemente os ouvidos, ensina a duas meninas no ônibus que devem tapar a vista para apreenderem com maior facilidade o que tentam decorar, o que ela já havia conseguido apenas ouvindo-as. Porém tal desconfiança nos sentidos se apresenta, ao mesmo tempo, paradoxal, já que embora faça  com que, por exemplo, compre um pão seco influenciado pelo toque no rosto da vendedora de pele macia,  também lhe proporciona o prazer de ouvir os acordes musicais que o elevam do meramente cotidiano. Aliás o motivo da demissão é decorrente justamente de dois motivos que apenas reforçam a paradoxalidade da recusa dos sentidos: por um lado calcada no distraimento de Korshid ao seguir os sentidos, que faz com que chegue atrasado ao emprego; por outro, baseado na sua recusa desse distraimento, que faz com que igualmente recuse toda manifestação exterior na sua afinação dos intrumentos que não siga sua intuição interior, e que resulta em não afinar os instrumentos segundo o padrão exigido. Aqui o versátil Makhmalbef, que teve que realizar este filme fora do Irã, se apresenta menos hermético que em Gabbeh, não recusando de todo uma narrativa mais tradicional, característica ainda mais vísivel em Um Instante de Inocência. A seqüência final, grandemente incógnita, talvez aponte para uma redenção e superação da miséria material através da arte. Makhmalbaf Productions/Martin Karmitz. 87 minutos.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Nelson Goncalves Carlos Gardel

Paul Simon and Edie Brickell Arrested and Charged With Disorderly Conduct

The husband-and-wife singer-songwriters Paul Simon and Edie Brickell were arrested over the weekend in Connecticut and charged with disorderly conduct, the authorities said on Monday. Mr. Simon and Ms. Brickell own a house in New Canaan, Conn., where, the police said in a news release, they investigated a “family dispute” on Saturday night at approximately 8:20 p.m.
The police said that investigating officers “gathered information and found probable cause to arrest” Mr. Simon and Ms. Brickell.
They were released on a promise to appear in Norwalk Superior Court on Monday.
Mr. Simon is the Grammy Award-winning artist whose songs include “The Sound of Silence,” “Bridge Over Troubled Water” and “Kodachrome.” Ms. Brickell, also a Grammy winner, has performed as a solo artist, with the band New Bohemians and with Steve Martin. Mr. Simon and Ms. Brickell were married in 1992 and have three children.
Mr. Simon’s lawyer and a representative for Ms. Brickell did not immediately respond on Monday to requests for comment.

Artigo sobre Carmen Miranda

Rainha da música brasileira nos anos 30 e figura controversa por conta da sua atuação no show biz americano, Carmen Miranda chega amanhã ao centenário com herança reavaliada

Com exceção de duas músicas, o choro Tico-Tico no Fubá, conhecido há anos e tocado em outro estilo pelos pianistas de New Orleans, e o samba-exaltação Aquarela do Brasil, gravado à beça no exterior com o título de Brazil, tudo o que se sabia sobre a música brasileira no resto do mundo até a chegada da bossa nova resumia-se a dois nomes próprios: Carmen e Miranda. Afora isso, nada mais. De 1940 a 1962.


Especial de Carmen Miranda
Carmen havia brilhado no Brasil como nenhuma outra cantora durante a década de 1930, a chamada Época de Ouro da música popular brasileira. A entrada em cena foi rápida e retumbante; seu terceiro disco - a marchinha que seria celebrizada como Taí - abriu as portas do sucesso para si e para a gravadora Victor, então no segundo ano de atividades no Brasil. Era inevitável que se tornasse a primeira estrela da companhia, uma celebridade no ambiente das cantoras que flertavam com um incipiente profissionalismo. Carmen não, era "profissa" antes mesmo de entrar em estúdio pela primeira vez.

Nos quase 10 anos seguintes o repertório de Carmen será uma divertida fotografia em preto-e-branco daquele Rio das confeitarias e das palhetas, um bocado diferente do que seria a capital 20 anos mais tarde, e mais ainda de 1960 em diante. Mas então em que medida o fon-fon das buzinas das baratinhas ou o dim-dim dos condutores de bonde, que servem de pano de fundo não audível nas suas gravações, podem despertar algo mais que mera curiosidade em quem vive no mundo de hoje? É algo semelhante ao que está presente nos imaginativos solos do cornetista Bix Beiderbecke com os Wolverines ou nas esplêndidas melodias de Mischa Spoliansky que nos remetem de per si e respectivamente à fascinante Chicago dos gângsteres nos anos 20 e à fervilhante Berlim dos permissivos cabarés entre as duas grandes guerras. É algo sutil que nos leva mais que simplesmente a reviver uma época, senão vivenciar uma quarta dimensão da história através do mais belo dos testemunhos, o da arte. E dela, a forma mais etérea, a música. É algo decorrente da singular percepção, provavelmente instintiva, de Carmen Miranda quando decidia o que gravar, quando cantava como gravou. É algo que só existia de fato nas suas performances de palco com balangandãs, turbantes, sandálias plataforma e tudo o mais, porém fortemente presente na imaginação de quem ouve seus discos.

São eles, para nós bem mais que os filmes de Hollywood, a valiosa herança do capítulo da arte popular brasileira que reúne um recorde de 286 gravações em menos de 10 anos, originalmente em 78 rotações, cujos rótulos estampam, abaixo dos nomes dos autores de cada canção, o dessa intérprete que soube combinar sua voz com uma figura cênica ímpar, no nível de Charles Chaplin.

Devido à profusão de inusitados elementos visuais e aos trejeitos que personalizaram seus espetáculos em circos, auditórios de rádio, teatros e cassinos, bem como filmes em que atuava, Carmen era uma cantora fácil de ser caricaturada como fez, como exemplo, a vedete Gina LeFeu em Tio Samba, um musical dos anos 60 produzido no Teatro Record.

Mas a essência da Carmen veio mesmo à tona em tributos consideravelmente mais marcantes, quando Ney Matogrosso e quando Ná Ozzetti realizaram, em momentos diferentes, magistrais recriações de seu repertório baseadas no que se ouvia em seus discos, reveladores do estilo da cantora.

O "it" de Carmen é que ela tinha bossa. E tanta que, a partir do seu Taí para o Carnaval de 1930, o gênero marchinha começa de fato a existir nas canções dos três dias de folia, até então francamente dominadas pelo ritmo do samba. E assim, ditada pela bossa de Carmen, a marcha carnavalesca passou a ser um gênero fértil na música brasileira, representando por mais de 20 anos o quadro pitoresco e de fácil memorização de acontecimentos e de pensamentos vistos sob a ótica da pândega ou da crítica social.

Zuza Homem de Mello

The 10 best American poems


The list could go on and on, but these are the poems that seem to me to have left the deepest mark on US literature – and me
Walt Whitman
Engraving of Walt Whitman by George C Cox. Image: Bettmann/Corbis
For whatever reason, I woke up today with a list of the 10 greatest American poems in my head that had been accumulating through the night. Every list is subjective, and of course the use of "greatest" even more so - but these are not just "favorite" poems. I've been thinking about American poetry - and teaching it to university students - for nearly 40 years, and these are the 10 poems that, in my own reading life, have seemed the most durable; poems that shifted the course of poetry in the United States, as well as poems that I look forward to teaching every year because they represent something indelible. The list could go on and on, of course. I deeply regret leaving off Roethke's "The Lost Son", Adrienne Rich's "Diving into the Wreck" and "The Asphodel, that Greeny Flower" by William Carlos Williams. But I guess I just sneaked them onto the list, didn't I?
1. "Song of Myself" by Walt Whitman
Whitman reinvents American poetry in this peerless self-performance, finding cadences that seem utterly his own yet somehow keyed to the energy and rhythms of a young nation waking to its own voice and vision. He calls to every poet after him, such as Ezra Pound, who notes in "A Pact" that Whitman "broke the new wood."
2. "The Idea of Order at Key West" by Wallace Stevens
Stevens's sumptuous, glittering language takes blank verse and reinvents it. This poem raises to a sublime level what Stevens once called a war "between the mind and sky." The poem celebrates the "blessed rage for order" at the heart of all creative work.
3. "Because I could not stop for death" by Emily Dickinson
A perfect poem, and one of Dickinson's most compressed and chilling attempts to come to terms with mortality. Once read, it stays in the head forever, in part because of the ballad stanza, so weirdly fresh in her capable hands.
4. "Directive" by Robert Frost
This surprising late poem concentrates Frost's lifetime of thinking and working as a poet. "Drink and be whole beyond confusion," he says at the end, mapping out the inner life of any reader. It is blank verse cast in Frost's trademark craggy voice, and it might be considered a local response to Eliot's more cosmopolitan "The Waste Land."
5. "Middle Passage" by Robert Hayden
Hayden was an African American poet who managed, in this brief epic, to bring the slave trade into lyrical focus with a polyphony of voices. The fierce drive for liberty has rarely been so beautifully framed or embodied. It's a haunting poem that operates in complex ways.
6. "The Dry Salvages" by TS Eliot
This is the "American quartet", and it's uneven; but it brings into a single major poem many of Eliot's concerns, rooting his vision in the American landscape, especially the St. Louis of his boyhood and the area off the north shore of Boston. The fifth section contains Eliot's most sublime moments of religious contemplation as he thinks about "hints and guesses", which is all we ever get: "and the rest / Is prayer, observance, discipline, thought and action".
7. "One Art" by Elizabeth Bishop
This villanelle brings to a height the craft and ironic tone of a poet of casual grace. It's a poem about losses, small and big, and it's stunning in the way its power accumulates, stanza by stanza. This is a poem to memorise and repeat in the wee hours of the night.
8. "To My Dear and Loving Husband" by Ann Bradstreet
I can't think of another poem that so beautifully captures the deep love of a wife for her husband. The clarity and force of the poem overwhelm me whenever I re-read it, which I do quite often.
It's hard to pick among the half-dozen best of Lowell's poems from his groundbreaking volume, Life Studies (1959), but I find myself reading this one over and again, always drawn to the personal voice, at once shaky and firm – the firmness arising from the confident free verse, with its searing portrait of the convict, Czar Lepke, "flabby, bald, lobotomized" who hangs "in his air / of lost connections".
"You can't say it that way anymore," Ashbery declares, ushering into American poetry a fresh way of seeing and saying the world, celebrating "The extreme austerity of an almost empty mind". Ashbery's diarylike poems, collecting American life like flies on sticky paper, draw me to them, irritating me, inspiring me, never more perfectly than in this poem, which plays off a famous phrase from Horace that compares poetry and painting.

Filme do Dia: A Floresta Encantada (1986), Milan Blazekovic & Doro Vlado Hreljanovic

Floresta Encantada (The Elm Chanted Forrest, Iuguslávia/EUA, 1986). Direção: Milan Blazekovic & Doro Vlado Hreljanovic. Rot. Original: Fred P. Sharkey & Suncana Skrinjaric. Fotografia: Ernest Gregl. Música: Dennis Leogrande. Montagem: Zlata Reic.
O pintor Peter adormece junto a uma árvore encantada e consegue compreender todos os animais da floresta. Eles vivenciam um período de terror provocado pelo Imperador das Forças do Mal, que faz de tudo para destruir a floresta, primeiro através do fogo, após a partir de uma enchurrada. Com o auxílio de seus novos amigos Peter, que passa a ter poderes mágicos, consegue produzir uma poção que transforma o imperador num bondoso rei e traz de volta a felicidade para a floresta.
Não deixa de ser desapontador, mesmo em se tratando de uma animação voltada para o universo infantil  e para um público amplo, observar que esse, que é o primeiro longa produzido na então Iugoslávia, nada deve a toda uma rica tradição de animação em curta-metragens produzidos no país, conhecida como Escola de Zagreb, que teve o auge de seu prestígio duas décadas antes. Aqui segue-se de perto o padrão, senão de animação, de narrativa disneyana, incluindo a obrigatória antropomorfização dos animais e o maniqueísmo básico. Não há nenhum espaço para a ironia, por menor que seja, nesse sentido se afastando até mesmo das produções mais recentes da Disney. Uma continuação foi produzida quatro anos após, também dirigida por Blakezovic. Uma leitura apressada e um tanto forçosa talvez enxergue uma possível crítica ao regime ditatorial então vivido pelo país e o poder da arte para se contrapor ao mesmo, porém curiosamente ao final o líder permanece o mesmo, ainda que completamente docilizado. Conta com algumas canções, apenas uma ou duas mais inspiradas. Croatia Film/Fantasy Forest Films para Croatia Film. 83 minutos.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

If you’re not working for Brezhnev Studio-Mosfilm, you are working for Nixon-Paramount. …
You forget that this same master has been ordering the same film for fifty years.

Vento do Leste

(Citado por David Bordwell, The Classical Hollywood Cinema)

Aracy de Almeida - Não me diga adeus (1947)

CAROLE LOMBARD 16mm CRASH FOOTAGE

DIANA ROSS ~ DO YOU KNOW WHERE YOU'RE GOING TO (VINYL)



Acordei com esse clássico brega na cabeça...

Filme do Dia: Romance (1988), Sérgio Bianchi

Romance (Brasil, 1988). Direção: Sérgio Bianchi. Rot. Original: Caio Fernando Abreu, Fernando Coni Campos, Mário Carneiro, Cláudia Maradel, Cristina Santeiro & Suzana Semedo, sob o argumento de Sérgio Bianchi & Eduardo Albuquerque. Fotografia: Marcelo Coutinho, Adrian Cooper, Aloysio Raulino e Paulo Mendes da Rocha. Montagem: Marília Alvim. Dir. de arte: Ruth Alvin & Bronie Lozneaunu. Figurinos: Ruth Levy. Com: Imara Reis,  Hugo Della Santa, Cristina Mutarelli, Isa Kopelman, Rodrigo Santiago, Beatriz Segall, Emílio Di Biasi, Elke Maravilha.
Regina (Reis) se torna uma obsessiva pesquisadora da obra do recentemente falecido intelectual Antônio César (Santiago), morto misteriorsamente. A pesquisa a leva a Curitiba, onde César morava quando morreu e as pressões de um corrupto político (Mamberti), que provoca um pequeno atentado contra Regina. Enquanto isso, amigos próximos de César vivenciam seu drama de forma desesperada. Fernanda  (Kopelman), ex-amante e o homessexual com quem vivia, André (Santa). Fernanda acaba optando pelo suicídio e André, portador do vírus  HIV, procura sem sucesso restringir sua sexualidade à masturbação. Ao contrário da opção trágica da amiga, Regina prefere aceitar a cooptação do político e se transformar na principal responsável por um espaço cultural destinado à obra de César.
Segundo longa de Bianchi, que não consegue a dinâmica e o impacto de seu média metragem documental anterior, Mato Eles? nem resolver de melhor maneira muito do que tematiza aqui e em seu posterior longa Cronicamente Inviável (2000). Nesse sentido, o olhar pretensamente ácido do cineasta com relação à sociedade brasileira é prejudicado por fatores vários, que vão desde a risivelmente caricata caracterização do intelectual de esquerda (que, utilizando-se do batido mote de Cidadão Kane, irá tentar ser revivido pela pesquisadora) até a precária direção de atores e uma busca de um certo apuro visual extremamente kitsch, bastante comum na produção paulistana da década. Tampouco a visão política do filme, um tanto quanto ingênua e esquemática (voltará a ser retrabalhada de modo mais sofisticado em Cronicamente Inviável) demonstra ser interessante. Existe uma certa dispersão narrativa, com a presença de personagens certamente dispensáveis, como a companheira de apartamento de Regina.  A pletora de cacoetes de um certo cinema modernista, que inclui uma cena em que o próprio Bianchi desanca com a atriz que desanca na diegese com um garçom, apenas demonstra algo de interessante quando incorpora em meio à narrativa um pequeno documentário que segue em tom implicitamente irônico (uma voz grave, estilo dos documentários realizados à época do auge do regime militar) sobre uma experiência de auto-gestão de uma fazenda por agricultores pobres, evocando de maneira mais sutil o que Jorge Furtado, igualmente utilizando humor e problemática social, faria em seu curta Ilha das Flores (1989). Embrafilme. 103 minutos, embora exista uma versão de 90.

domingo, 27 de abril de 2014

Hollywood is a place you can’t geographically define. We don’t really know where it is.
John Ford

Frank Sinatra & Tommy Dorsey - Stardust

O Feitiço da Ficção


Macondo correu o mundo com Cem Anos de Solidão, mas o povoado mítico surgiu antes, em pelo menos uma novela e um conto de García Márquez. Na verdade, Macondo já existia em estado latente na imaginação e nas fantasias do jovem Gabo, que levou muitos anos para armar e escrever o romance latino-americano mais lido de todos os tempos.
Em livros anteriores, principalmente nos relatos Ninguém Escreve ao Coronel e O Veneno da Madrugada (La Mala Hora), é visível a influência de Hemingway no modo objetivo e relativamente simples de narrar uma ficção a partir de uma experiência pessoal. Mas em Cem Anos de Solidão, Márquez amplia e aprofunda os temas e motivos de toda a sua obra anterior, e o resultado disso é um romance de grande envergadura social, política e histórica. Nele, há várias camadas históricas e simbólicas que dizem muito sobre a América Latina, com seus dilúvios e catástrofes políticas durante um tempo longo de tragédias cíclicas, que abarca a fundação mítica de Macondo na época colonial, as lutas pela independência, o "bogotazo" de 1948 e o posterior período de violência política na Colômbia.
Às vezes, essa leitura histórica é ofuscada pela sintaxe exuberante do estilo, pelo exotismo e o pitoresco excessivos, pela fantasia e imaginação solta de um modo de narrar, que deve muito ao romanesco. Nesse tipo de narrativa, que Machado de Assis não apreciava, as personagens passam por metamorfoses incríveis e podem ser aparentadas com deuses, anjos e demônios.
A literatura romanesca vem de muito longe, das narrativas épicas, em que a contingência da vida cotidiana é conduzida ao miraculoso e encontra seu extremo no mito. García Márquez recorreu a essa tradição épica, às novelas de cavalaria, à magia dos contos das Mil e Uma Noites, ao Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe e, mais próximo do nosso tempo, ao romance Orlando, de Virginia Woolf. Na nossa literatura, Macunaíma é um admirável personagem romanesco que morre, renasce e se metamorfoseia ao longo da rapsódia de Mário de Andrade. Numa perspectiva mais próxima do fantástico, são também notáveis os personagens mortos-vivos de Incidente em Antares, de Erico Verissimo.
Para a compreensão da literatura, o soco que Vargas Llosa deu no rosto de García Márquez é irrelevante. Agressões físicas ou verbais, e acirrados embates ideológicos estão destinados ao esquecimento. Muito mais importante é o livro Historia de Un Deicidio (1971), um exaustivo estudo de Llosa sobre a obra de Márquez e suas filiações literárias.
Numa conversa com o escritor peruano, Márquez revela sua admiração pela "extraordinária capacidade de artifício verbal de Borges", um dos autores que ele mais leu. No entanto, foi muito impreciso quando afirmou que o escritor argentino, "ao trabalhar sobre realidades mentais, é pura evasão..."
Cada escritor inventa uma ficção a partir de um modo muito particular de ler certos livros, e de ver e sentir a realidade. Penso que a literatura de Borges não é pura evasão, nem se limita a construir labirintos circulares e elaborar indagações metafísicas. Na verdade, ela mantém uma relação profunda com a história da Argentina e de outros países, mas raramente essa relação é explícita ou se deixa ver com facilidade. É provável que Márquez tenha sido uma vítima privilegiada de uma grande ironia: o mais famoso escritor do nosso continente leu a obra de Borges como muitos europeus, norte-americanos e até mesmo latino-americanos a leram. Esses leitores não perceberam o conteúdo histórico da poesia e da prosa borgiana. É quase certo que essa armadilha também fizesse parte do jogo ardiloso do autor de obras-primas como Ficções e O Aleph.
As narrativas de Borges, urdidas por um narrador intelectual, certamente não alcançaram o enorme público de García Márquez. Mas para os que gostam de literatura, a obra dos dois escritores é capaz de enfeitiçar leitores de todas as latitudes.

Led Zeppelin - Boogie with Stu

Filme do Dia: Em Nome da Lei (1949), Pietro Germi

Em Nome da Lei (In Nome della Legge, Itália, 1949). Direção: Pietro Germi. Rot. Adaptado: Mario Monicelli, Federico Fellini, Tullio Pinelli, Guiseppe Mangione & Pietro Germi, a partir do romance Piccola Pretura, de Guiseppe Lo Schiavo. Fotografia: Leonida Barboni. Música: Carlo Rustichelli. Montagem: Rolando Benedettti. Dir. de arte: Gino Morici. Com: Massimo Girotti, Jone Salinas, Camilo Mastrocinque, Charles Vanel, Saro Urzi, Turi Pandolfini, Umberto Spadaro, Sara Arcidiacono, Bernardo Indelicato, Nadia Niver, Ignazio Balsamo.
Guido Schiavi (Girotti) chega ao vilarejo siciliano de Capodarso no momento em que o juiz anterior abandona a cidade. Desde o momento em que põe os pés na cidade, Schiavi percebe que não contará com apoio nem da elite, representada pelo corrupto Barão Lo Vastro (Mastrocinque), nem muito menos pela Máfia, liderada por Massaro (Vanel) ou ainda pelo povo, temeroso de sofrer represálias da Máfia. Schiavi tenta convencer o Barão a abdicar da proteção da Máfia pela do Estado, após ter um de seus homens morto numa ação criminosa. Seu assassino, Vanni Vetriolo acaba posteriormente sendo vitimado pela Máfia, ainda que tenha guardado em sua mão o medalhão de um dos capangas de Massaro, Tulo Galinella,  que acaba sendo preso. Schiavi ao mesmo tempo se envolve com a velha ação de reabertura da mina, fonte de renda da maior parte da população. Um de seus poucos aliados é o jovem Paolino (Indelicato), apaixonado por Bastianedda (Niver), que é o motivo do desejo do próprio padrasto. Schiavi acaba se apaixonando por Teresa (Salinas), a sensível mulher do Barão, que se torna outra aliada sua. Schiavi sofre um atentado logo após abandonar a casa do Barão, que numa recepção em sua homenagem, havia tentado sem sucesso suborná-lo para abandonar o local e sua esposa. O atentado é cometido a mando de Massaro e comandado pelo próprio Galinella, já solto.  Lo Schiavo também se torna impopular junto ao povo por ordenar a evacuação da área da mina, prestes a ser invadida, decidindo abdicar do cargo. Quando já encontra prestes a ir embora com Teresa, cujo envolvimento afetivo com ele já é público, Schiavi sabe da morte de Paolino, cometida pelo padrasto de Bastianedda. Schiavi retorno e chama, através dos sinos da igreja, toda a população local, para afirmar que não mais irá abandonar o seu cargo, após o assassinato de Paolino. A máfia simula a morte do criminoso mas, no último minuto, acaba o entregando para o juiz e a polícia.
Esse arrebatador filme de Germi, seu terceiro, apresenta uma notável filiação ao cinema neo-realista, na sua escolha pela abordagem voltada para a crítica social, uso de locações não apenas como forma de exploração do exotismo “local”, mas como meio de apreender a dinâmica social em relação com o seu próprio universo (nesse sentido, antecipando, como outras produções neo-realistas, opções como a do Cinema Novo brasileiro) e o uso de atores amadores, boa parte deles restritos somente a essa produção ou umas poucas mais. Porém, não deixa de se filiar às exigências dos filmes de gêneros, com uma representação de muitos dos eventos descritos, tais como o do primeiro contato do grupo mafioso com Schiavo, assim como a descoberta do cádaver de Vetriolo, que se aproxima bastante do western, para  não falar da própria subtrama do imbróglio romântico, aparentemente comprometido em seu final pela opção de permanência de Schiavi. Ao contrário do western, no entanto, o herói aqui é justamente aquele que pretende romper um perverso ciclo de exploração e concentração de poder, assim como de um patriarcalismo que gera situações expúrias como a do padrasto de Bastaniedda, que consegue conjugar as duas dominações ao mesmo tempo, ao unir no seu crime a revanche pessoal e a denúncia de Paolino como informante do juiz, e portanto passível de execução pela Máfia. Enquanto o western clássico finda justamente quando o poder da lei já torna obsoleto a personagem do cowboy justiçeiro, aqui se vivencia uma situação inversa, por mais que seu final ambíguo, em que a Máfia coopera com as forças do Estado, aponte para uma interrogação que não chega a ser explicitada: seria um “amadurecimento” da Máfia o reconhecimento irrevogável da chegada do Estado, não apenas enquanto floreio retórico, ou seria um “amadurecimento” do agente do Estado, jovem, mas siciliano, como ele mesmo gosta de observar, a inevitável necessidade de diálogo ou compromisso com os poderes locais? Enquanto paladino imperturbavel da justiça que não pretende se contaminar por toda a podridão local, mas que possui como ponto fraco justamente um amour fou, o juiz vivido com brilhantismo por Girotti, cuja relativa falta de dinâmica expressiva aqui parece se ajustar a perfeição aos fins exigidos, antecipa o protagonista de Lola (1981), de Fassbinder. Poucas vezes talvez o cinema tenha conseguido traduzir de forma tão eloqüente a resistência de uma sociedade tradicional fincada no compadrio e na cordialidade à impessoalidade burguesa. Adaptada a sua própria realidade social, Caçada Humana (1966) apresenta um herói com fibra e convicção  semelhantes.  Ao mesclar crítica social de peso com elementos oriundos do cinema de gênero, Germi parece encontrar uma solução mais bem resolvida que o contemporâneo Guisseppe De Santis. Lux Film. 101 minutos.


sábado, 26 de abril de 2014

YOKO ONO - HARD TIMES ARE OVER (Lyrics).wmv

Carmen Miranda - PRIMAVERA NO RIO - João de Barro - gravação de 1934

MEU MUNDO E NADA MAIS - GUILHERME ARANTES - (1976)

O Cine PE, que começa sábado, ganha cara nova e foco curatorial

Desde que foi criado, o Cine PE - Festival do Recife guardava um desejo de seus fundadores, o casal Sandra e Alfredo Bertini. "A gente sempre dizia que, na sua maturidade, na 18.ª edição, o festival iria se internacionalizar." Promessa feita tem de ser cumprida. O 18.º Cine PE, que começa no sábado, será internacional. E será a consequência de uma conversa que Sandro Bertini teve com o crítico, jornalista e atual analista de dramaturgia da TV Globo, Rodrigo Fonseca, no set de Lula, o Filho do Brasil.
O ano era 2009 e ambos visitavam o set do longa de Fábio Barreto, em Pernambuco, a convite do produtor Luiz Carlos Barreto. Conversaram sobre o festival, e como melhorá-lo. O Cine PE - Festival do Recife é o Maracanã dos festivais, mas nunca teve um foco curatorial. Os filmes compunham mais uma seleta entre o que havia de disponível no mercado. Foram necessários cinco anos para que a nova fase se concretizasse. Ao se internacionalizar, o Cine PE passa a existir para o mundo. Foram 300 inscritos para a etapa nacional - 72 longas e o restante, curtas. Os filmes estrangeiros estão vindo todos a convite.
Não é uma seleção aleatória. O foco curatorial está nas questões da identidade e da memória. E o conceito é claro - se o festival é de público, o cinema de autor que privilegia tem de dialogar com as massas. Rodrigo Fonseca está feliz com sua dupla seleção. "A separação entre documentário e ficção vai produzir uma estranheza, mas espero que seja positiva. Sempre achei que não apenas a seleção, mas a premiação também era caótica. Misturavam-se coisas demais, o festival ganha agora uma unidade e um conceito."
Internacionalizar não significa latinizar. "O Cine Ceará já cumpre muito bem o papel de ser uma janela para a latinidade. E no Recife já existe o Janela, um festival de cinema autoral que propõe coisas radicais. Queremos a autoria, mas que dialogue com o Cine-Teatro Guararapes lotado. O objetivo é fazer com que o público queira voltar toda noite." A mostra competitiva de ficção é integrada pelos longas Anni Felici, da Itália, Muitos Homens num Só, do Brasil/Rio de Janeiro, Mundo Deserto de Almas Negras, do Brasil/São Paulo, O Menino no Espelho, do Brasil/Minas Gerais, Romance Policial, do Brasil/Rio, e Todos Tenemos Un Plan, da Argentina.
Novo Cine PE põe foco na questão da identidade
Existem críticos que rezam pela cartilha do cinema de autor e parecem fazer suas escolhas de olho na bilheteria dos filmes. Se o público gosta, eles são contra. E vice-versa. Rodrigo Fonseca pertence a outra categoria, que acredita que filmes de autor não são necessariamente venenos de bilheteria. Akira Kurosawa, Federico Fellini, Luchino Visconti tiveram grandes sucessos de público ao longo de suas extraordinárias carreiras. E hoje autores como Christopher Nolan e Alfonso Cuarón estão assinando os grandes blockbusters de Hollywood.
Para selar a internacionalização do Cine PE, Fonseca espera lotar no sábado, na abertura, o Cine-Teatro Guararapes com a nova comédia de Wes Anderson, Grande Hotel Budapeste, que passa fora de concurso, depois de inaugurar a Berlinale/Festival de Berlim, em fevereiro. "Foi a Fox que nos procurou oferecendo o filme", diz Sandra Bertini, criadora com o marido, Alfredo Bertini, do festival. Ela constrói uma metáfora simples para explicar porque a internacionalização demorou o tempo de uma maioridade. "Sou economista de formação. Aprendi a encarar as coisas com planejamento. Não teríamos condições de iniciar um festival internacional já na primeira edição. Fomos construindo passo a passo, ganhando a confiança do Poder Público, para mostrar que não éramos aventureiros da classe artística. E agora chegamos, finalmente, a esta nova etapa."
Cada festival de cinema brasileiro guarda uma identidade particular. O de Brasília, à sombra do poder, tradicionalmente foi usado pelos jovens como plataforma para manifestações políticas. O festival também é o que mais honra, às vezes excessivamente, os luminares herdeiros do Cinema Novo. No Sul, o Festival de Gramado, que concorre com Brasília em antiguidade, foi para outro lado e sempre teve uma queda pelo tapete vermelho. Em Gramado, qualquer global da novela das 6 sempre provocou mais frisson que os grandes autores. O festival internacionalizou-se, virou latino e brasileiro, houve tentativas para minimizar o efeito tapete vermelho.
O Recife, por outro lado, é o grande festival de público. O próprio fato de ocorrer num ginásio de esportes transformado em cinema - o Cine-Teatro Guararapes, o Maracanã dos festivais de cinema, em Olinda -, contribui para isso. Já houve filmes que passaram para 3 mil pessoas, em sessões abarrotadas. O calor do público recifense sempre foi algo bonito de ver, mas os filmes volta e meia deixavam a desejar. Razões não faltavam para isso - um problema de curadoria, ou de falta de; a questão da data. No primeiro semestre - em abril/maio -, os filmes que participaram de grandes eventos no ano anterior estão estreando e os completamente inéditos estão se reservando para grandes eventos internacionais ou para os maiores festivais do País (Gramado e Brasília). A internacionalização pode quebrar a escrita.
Rodrigo Fonseca explica o foco da curadoria - "São dois caminhos que convergem numa mesma trilha, a memória. O tema dominante deste festival é a questão recorrente da identidade. Troca de identidade, reconstrução da identidade. E não falo apenas da identidade de indivíduos. O filme do (Daniele) Luchetti, Anni Felici, o concorrente italiano, busca reconstruir a tradição da grande comédia italiana dos anos 1950 e 60. Não quero cair na facilidade de só pensar o cinema de gênero como terror. A grande comédia italiana, de Dino Risi e outros autores, nutriu minha experiência e a de gerações de espectadores. Vamos compartilhar isso com o Luchetti."
Pela primeira vez, a competição será dividida em quatro segmentos (curtas pernambucanos, curtas nacionais, documentário e longa de ficção), com júris próprios, e abertura para filmes de outros países. Três dos concorrentes brasileiros na mostra principal são policiais. Alice Braga e Vladimir Brichta interpretam personagens de João do Rio em Muitos Homens num Só, de Mini Kerti, um policial de época. Jorge Duran mistura cinema, literatura, o Rio e o deserto do Atacama no thriller Romance Policial. E Rui Veridiano viaja ao futuro em Mundo Deserto de Almas Negras para revelar uma São Paulo dominada pela elite negra, na qual a periferia é branca. Igualmente estranho é o universo ficcional de O Menino no Espelho, de Guilherme Fiúza Zenho.
Baseado no livro de Fernando Sabino, é sobre menino que vê seu reflexo no espelho adquirir vida própria. Da Argentina, fechando a competição de ficção, vem um concorrente forte, Todos Tenemos Un Plan, que é de 2012, mas nunca encontrou o caminho para os cinemas do País. Sua seleção por Rodrigo Fonseca tem o valor de um resgate. "É um filme de uma diretora que ainda não é conhecida no Brasil, Ana Pitaberg. Tem uma interpretação genial de Viggo Mortensen, que, para mim, é um dos maiores atores da história", diz o curador. "O que ele fez em Senhores do Crime (de David Cronenberg) é excepcional. O filme é sobre um homem cansado da sua vidinha em Buenos Aires e que assume a identidade do irmão, quando o outro morre. Só que o irmão está ligado ao crime e a vida dele sofre um baque. Viggo Mortensen representa em espanhol. Estou louco para ver o público compartilhar a emoção e o prazer de ver esse grande ator em mais uma interpretação antológica." A mostra principal ainda propõe a pré-estreia, fora de concurso, de Getúlio, de João Jardim, que estreia em 1.º de maio, em todo o Brasil.

Hallado muerto un coronel que torturó a víctimas de la dictadura brasileña


Paulo Malhães fue asesinado mediante asfixia en su vivienda de Río de Janeiro, según las primeras investigaciones

Malhães declara ante la Comisión Nacional de la Verdad en Río, en abril. / COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE
Las heridas de la dictadura brasileña (1964-1985) siguen abiertas y mucho queda por saber sobre este periodo, casi 30 años después de la redemocratización del país. Así lo atestigua la muerte repentina del teniente coronel retirado, Paulo Malhães, agente del Centro de Informaciones del Ejército (CIE) que funcionaba en la localidad de Petrópolis, en la sierra de Río de Janeiro, conocida por algunos historiadores como la “casa de muerte”. Se da la circunstancia que Malhães declaró hace un mes ante la Comisión Nacional de la Verdad instaurada en Brasil para investigar los crímenes cometidos durante los años de plomo. En su polémico interrogatorio, que duró algo más de dos horas, Malhães admitió con una frialdad de hielo su participación en una retahíla de asesinatos, torturas y desapariciones de disidentes del régimen castrense.
Según las investigaciones premilitares, el militar fue asesinado por asfixia en su casa del municipio de Nova Iguaçu, en la Baixada Fluminense de Río de Janeiro. Según informa el diario Folha de S. Paulo, miembros de la Comisión de la Verdad en el Estado de Río de Janeiro han confirmado que la casa de Magalhães fue asaltada por tres individuos que amarraron a la esposa, asfixiaron al septuagenario y robaron sus armas de fuego antes de darse a la fuga. Al contario de lo que se podría pensar (que se trató de un ajuste de cuentas de familiares o correligionarios de las víctimas de la dictadura), las mismas fuentes apuntan a que el asesinato puede haber sido ordenado o ejecutado por personas que podrían verse salpicadas por un nuevo arranque de sinceridad de Malhães. O peor aun: que esas personas pretendan mandar un mensaje a todos los citados a declarar ante la Comisión de la Verdad.
“Fue un agente importante de la represión de la dictadura y manejaba muchas informaciones sobre hechos que sucedieron en los bastidores. Es necesario que las investigaciones de su muerte sean hechas con mucho rigor porque todo lleva a pensar que fue asesinado”, declaró el presidente de la Comisión Estatal de la Verdad, Wadih Damous.
En la denominada “casa de la muerte” los agentes tenían la misión de interrogar a disidentes de la dictadura. Los medios para obtener información eran múltiples, e incluían la tortura e incluso el asesinato. Se calcula que unas 20 personas fueron ejecutadas en el centro de detención. Según el exmilitar, el objetivo último de los dramáticos interrogatorios era convertir a los opositores en informantes del régimen. La intervención de Malhães ante la Comisión de la Verdad resulta estremecedora por la naturalidad con la que narra algunos episodios. A saber:
Pregunta: ¿A cuántas personas mató?
Respuesta: A cuantas fueron necesarias.
P: ¿No se arrepiente de ninguna de esas muertes?
R: No.
P: ¿Como hacía para impedir la identificación de los cuerpos?
R: Retirando la arcada dental y las digitales (…). Les rompíamos los dientes y les cortábamos de aquí para arriba (señala la última falange de un dedo).

Filme do Dia: Respiro (2002), Emanuele Crialese

Respiro (Respiro, Itália/França, 2002). Direção e Rot. Original: Emanuele Crialese. Fotografia: Fabio Zamarion. Música: John Surman. Montagem: Didier Ranz. Dir. de arte: Beatrice Scarpato. Figurinos: Eva Coen. Com: Valeria Golino, Vincenzo Amato, Francesco Casisa, Verônica D´Agostino, Filippo Pucillo, Muzzi Loffredo, Elio Germano, Avy Marciano.
Na pobre ilha italiana de Lampedusa, próximo à Tunísia, Grazia (Golino), é hostilizada pela população local, cansada de suas excentricidades e desejosa que ela seja internada em Milão para tratamento. Seu marido, Pietro (Amato), inicialmente contrário à ideia, convence-se. O filho Pasquale (Casisa), no entanto, decide esconder a mãe numa caverna.
Refugiando-se num tema subliminarmente memorialesco que remete à erotização dispersiva e carregada da adolescência que possui ecos do Fellini de Amarcord em tons realistas, o filme busca os resquícios de uma “Itália profunda e autêntica” no tom de crônica provinciana que acompanha a vida da família da protagonista. Para tal construção faz uso tanto de uma faixa etária quanto de uma classe social menos favorecida – pescadores – que privilegiam uma maximização do “espontâneo”. Porém tanto seu realismo estético provavelmente não é um eco da realidade social dos ilhéus quanto sua narrativa deixa do lado de fora de sua moldura qualquer relação que vá além do universo social retratado. Um elemento fundamental para que tal proposta seja alcançada é o bom desempenho do elenco como um todo, com destaque para Golino. Sutilmente, o filme acaba inserindo relação e/ou homenagens à história do cinema italiano ou mundial. Nessa perspectiva, a tresloucada Grazia reflete o quão opressivo pode ser um vilarejo para pessoas que não se adequam ao perfil médio, tal como a figura vivida por Ingrid Bergman em Stromboli. Por outro lado, a seqüência final na qual Pietro volta a encontrar Grazia procura se espelhar na poética de L´Atalante (1934), de Vigo, ainda que a solução visual mais original do filme se encontre um pouco adiante, no último plano do filme, que faz uso de uma criatividade que infelizmente não se encontra no que lhe antecede. Eurimages/Fandango/Les Films des Tournelles/Meduza Produzione/Roissy Films/Rouse Films/TPS Cinéma/Telepiú. 95 minutos. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

‘Better a good cinéma de salarie than a bad cinéma d’auteur.’

Pierre Kast, a respeito do declínio de nomes respeitados de Hollywood após a derrocada do sistema de estúdios.

(citado por David Bordwell, Classical Hollywood Cinema)

Marchinha do Grande Galo - Almirante (Carnaval de 1936)

Meu Caro Diário, 16/08/2005

16/08/05 – terça. Dia meio catatônico, após a troca de mensagens que aparentemente resultou no meu rompimento de amizade com ela. Sem ela e Firmino voltar para Fortaleza parece um projeto ainda mais desanimador. Mas não posso retroceder se não quiser ferir a mim mesmo. Tenho que ser menos dependente das pessoas, ao final das contas. (...)

Filme do Dia: A Casa Assassinada (1971), Paulo César Sarraceni

A Casa Assassinada (Brasil, 1971). Direção: Paulo César Sarraceni. Rot. Adaptado: Paulo César Sarraceni, baseado em romance de Lúcio Cardoso. Fotografia e Montagem: Mário Carneiro. Música: Antônio Carlos Jobim.  Dir. de arte e Figurinos: Fredy Carneiro. Com: Rubens Araújo, Norma Bengell, Nélson Dantas, Joseph Guerreiro, Leina Krespi, Carlos Kroeber, Tetê Medina, Nuno Veloso.
Após casar com Valdo, Nina (Benguell), mulher atraente e de modos liberais, passa a morar na provinciana mansão dos Menezes, no interior de Minas, decadente família que já não possui sequer rendas para mantê-la. Enreda-se na complexa teia familiar que envolve a hostilidade do irmão mais velho Demétrio (Dantas), sua reprimida mulher Ana (Medina), o delírio do irmão rejeitado homossexual Timóteo (Kroeber) e o desejo de Nina pelo jardineiro da casa (Veloso). Os boatos de seu envolvimento com o jardineiro acabam provocando uma tentativa frustrada de suicídio do marido. O jardineiro, no entanto, é quem se suicida.  Nina parte para o Rio, retornando somente 17 anos após. Seu retorno provoca uma relação incestuosa com o próprio filho, André (Veloso), que inicialmente não sabe que ela é sua mãe. Progressivamente enferma, Nina sucumbe. Ana revela ao padre local que, no entanto, André era fruto de sua relação extra-conjugal com o jardineiro.
Terceiro filme da trilogia de adaptações que Sarraceni empreendeu a partir de obras de Lúcio Cardoso iniciada com Porto das Caixas (1962) e finalizada com O Viajante (1999). Trata-se juntamente com  A Culpa (1972) de Domingos de Oliveira e Toda Nudez Será Castigada (1972), de Arnaldo Jabor, entre muitos outros, com temas como incesto, paixões reprimidas e morbidez, de mais um retrato da decadência da família patriarcal sem temer os excessos e no caso em questão, ainda que irregular, bastante expressivo. Mesmo com momentos toscos e interpretações nem sempre convincentes, destacam-se Norma Bengell, vivendo uma figura bastante semelhante a Geni vivida por Darlene Glória no filme de Jabor, enquanto elemento pertubardor da moral burguesa capenga e hipócrita com sua liberalidade que acaba sendo destroçada pela mesma e Kroeber, como o travestido que cria seu próprio mundo entre as quatro paredes do quarto (que também possui um paralelo com um personagem não menos patético em O Casamento de Jabor), que ganharia os mais importantes prêmios nacionais do ano. O filme, um dos que mais explicitamente retratam o incesto na história do cinema, ainda que posteriormente tal efeito seja arrefecido com a confissão de Ana, também explora a semelhança entre o jardineiro e Carlos, vividos pelo mesmo ator, que também se torna evidente com a confissão final de Ana, ambiguidade que ainda é mais realçada por conta de uma montagem não linear que inicia com os funerais de Nina. Planiscope Filmes. 103 minutos.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Canned Heat - On The Road Again [HQ]

Cesaria Evora - Crepuscular Solidao (audio)

Mas aqui os homens tem olhos turvos e caras intratáveis, ainda, e Kim tem afeição por esses homens, por esse resgate que se move neles. Aquele menino do destacamento do Esperto, como se chama? Pin? Com aquele tormento de raiva em rosto sardento, mesmo quando ri...Dizem que é irmão de uma prostituta. Por que luta? Não sabe que luta para não ser mais irmão de uma prostituta. E aqueles quatro cunhados "sulistas" combatem para não serem mais "sulistas", pobres emigrantes do pobre Sul, vistos como estranhos. E aquele policial combate para não se sentir mais policial, um tira no encalço de seus semelhantes. Depois Primo, o gigantesco, bom e desapiedado Primo...dizem que quer se vingar de uma mulher que o traiu...Todos temos uma ferida secreta por cuja redenção lutamos.

(Ítalo Calvino, A Trilha dos Ninhos de Aranha, pp.143-4, grifo meu)

Filme do Dia: Valsa com Bashir (2008), Ari Folman

Valsa com Bashir (Valms im Bashir, Israel/França/Alemanha/EUA/Finlândia/Suiça/Bélgica/Austrália, 2008). Direção e Rot. Original: Ari Folman. Música: Max Richter. Montagem: Feller Nili. Dir. de arte:  David Polonsky.
Uma noite em um bar um amigo conta ao diretor Folman sobre o pesadelo recorrente no qual é perseguido por 26 cachorros. O episódio está vinculado a uma experiência sua na primeira guerra do Líbano, quando teve que assassinar a mesma quantidade de cachorros. Sua narrativa faz com que Folman se volte para os seus próprios fantasmas de guerra, assim como seus bloqueios e interdições, que aos poucos procura recuperar, tais como um episódio em uma praia e o massacre nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em 1982.
Folman realizou uma corajosa animação em longa-metragem não apenas por conta de seu espinhoso tema, sobretudo no que diz respeito a episódios relativamente tabus na história política israelense recente, como por sua dimensão explicitamente autobiográfica, e por sua própria proposta estética, na qual o tema adulto não faz concessões igualmente em termos gráficos (quando comparado, por exemplo, a outra animação recente que lida com a história política de outro país do Oriente Médio, o Irã, que é Persepolis) e cujo extremo realismo  quase documental dos traços é pontualmente contrabalançado pelos delírios de seu dois personagens principais. Eventualmente interrompido por evocações líricas (ao som de Bach), sendo uma delas evocativa de um filme como Além da Linha Vermelha por sua dimensão quase mística, na qual as belezas naturais, ressaltadas por uma “luminosidade” no qual as fontes de luz solar surgem pelos galhos das árvores como halos  que iluminam o  cenário para o massacre de uma criança que brincava próxima. Outros momentos visualmente inspirados são a corrida da matilha de cães que surge na seqüência inicial dos créditos, a recorrente cena na qual soldados desnudos saem do mar e observam sinalizadores caindo próximo de onde se encontram e a seqüência na qual o protagonista se depara com uma cidade libanesa aparentemente intacta quando chega no aeroporto, apenas para perceber que são apenas destroços de uma cidade sitiada e quase fantasma, na qual lojas de conveniência se encontram desertas e os aviões de companhias internacionais não passam de carcaças pairando sobre a pista do mesmo.  Encerra com imagens reais do massacre de Sabra e Shatila. A dupla ousadia de mesclar história política polêmica através do recorte da memória individual, evidente metáfora para o próprio recalque da memória coletiva de uma nação com um veículo aparentemente tão pouco propício para tanto como a animação, não se escusando em apresentar seqüências de morte e sexo explícito, assim como um ritmo bastante próprio, tem o ônus de limitar esse filme a platéias bastante restritas. A mistura original e pouco explorada entre gêneros aparentemente contrapostos como animação e documentário – sendo o cineasta um documentarista com trabalhos para a televisão – se faz presente na base que dá corpo ao filme, a da entrevistas com pessoais reais, que tem seus créditos apresentados tal e qual em um documentário de ação ao vivo. 90 minutos.