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sábado, 27 de junho de 2015

Filme do Dia: Dogville (2003), Lars Von Trier

Dogville (Dinamarca/Suécia/França/Noruega/Holanda/Finlândia/Alemanha/Itália, Japão/EUA/Reino Unido, 2003). Direção e Rot. Original: Lars Von Trier. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Montagem: Molly Marlene Stensgard. Dir. de arte: Peter Grant. Cenografia: Simone Grau. Figurinos: Manon Rasmussen. Com: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown, James Caan, Patricia Clarkson, Jeremy Davies, Ben Gazarra, Philip Baker Hall, Siobhan Fallon, Udo Kier, Miles Purinton, Bill Raymond, Chloë Sevigny, Stellan Skarsgard, Zeljko Ivanek.
       Na famélica, isolada e minúscula Dogville, à época da Grande Depressão, a chegada da jovem foragida Grace (Kidman), provoca uma reviravolta. Interessado e compadecido da forasteira, o jovem Tom Edison (Bettany) convoca todos os moradores para um plesbicito e aceita sua permanência por duas semanas. Nessas duas semanas, Grace conqusita todos os moradores, escutando histórias do cego Jack McKay (Gazarra), cuidando dos arbustos de Ma Ginger (Bacall), tomando conta dos filhos do casal Henson, procurando contornar a hipocondria do pai de Tom (Hall) e ajudando nas lições de piano de Martha (Fallon). Aos poucos, ela consegue conquistar até mesmo o ranzinza Chuck (Skarsgard) e em duas semanas é aceita por unanimidade na comunidade. Seus dias passam a ser maravilhosos e os habitantes de Dogville são mais simpáticos com ela do que jamais o haviam sido. A lua-de-mel com a comunidade começa a se desfazer após as crescentes investidas da polícia local, quando Tom Edison lhe propõe trabalhar dobrado e ganhar menos do que antes. Grace concorda, mas quanto mais se desdobra, mais os moradores demonstram descontentamento. Uma crescente hostilidade passa a cerca-la, apoiada em pequenas intrigas. Vera (Clarkson) a acusa de ter espancado seu filho Jason (Purinton). Chuck a assedia até o ponto de estupra-la. Jack se aproveita de suas idas a sua casa para por sua mão na sua perna. Indignada com o nível de exploração em que vive e atormentada psicologicamente com a possibilidade de ser entregue às autoridades, Tom articula um plano para a fuga de Grace, no caminhão do verdureiro Ben (Ivanek), pagando com dez dólares que  colheu nos cofres do pai. Porém, não só ela não consegue fugir, como é estuprada por Ben e acusada de ter roubado o pai de Tom. Presa a um mecanismo criado especialmente para controlar seus movimentos, Grace não só continua sua árdua labuta diária como ainda é objeto sexual de todos os homens da vila. Grace pede socorro a Tom Edison, o único que parece compreende-la e esse realiza uma nova reunião, em que Grace exporá toda sua verdade sobre o que vivenciou em Dogville. Os moradores não parecem sensibilizados com o exposto por Grace e propõem sua expulsão. Tom, seu único aliado, passa a evita-la após Grace ter lhe apresentado uma faceta  de sua personalidade que preferia manter encoberta. Lembra então do contato que o gangster lhe oferecera caso ele tivesse notícia de Grace. Os gangsters aparecem na cidade e o chefe deles (Caan) é nada menos que o pai de Grace, com quem essa havia entrado em atrito. Após pensar, Grace acredita que o mundo se encontrará melhor sem Dogville e ordena que os capangas do pai assassinem todos os moradores e queimem a cidade.
       Esse que é o primeiro de uma pretensa trilogia de Von Trier intitulada “EUA – Terra de Oportunidades”, apresenta um fascinante ensaio sobre as relações de poder, em que o irônico retrato que esboça do Sonho Americano, que melhor poderia ser denominado de Pesadelo Americano, pode servir como uma metáfora para a situação contemporânea da exploração do trabalho de estrangeiros. Porém, mais fascinante que sua alusão ao fascismo das relações cotidianas, encoberto inicialmente na idealização da protagonista de um povo provinciano e de bom coração e que demonstra ser tão ou mais selvagem que o gangsterismo de onde  proveio, numa visão excessivamente pessimista em relação à condição humana, é o seu próprio senso de construção dramática. Filmado em um estúdio em que uns poucos adereços cenográficos tornam-se o solo para a realização de toda sua envolvente saga, o filme vem a ser uma comovente elegia a nossa capacidade de abstração do que não é essencial – nesse caso, não é nem um pouco fundamental a capacidade de mimetização do mundo que pode ser proporcionada pelo cinema – para a construção de uma dramaturgia de forte impacto. Para tanto, cumpre salientar a importância da afinadíssima interpretação do talentoso elenco internacional, ao que se soma à narração  permeada por uma seriedade jocosa de John Hurt. Dedicado à memória de Katrin Cartlidge, que abandonou a produção pelos problemas de saúde que a levariam à morte em curto tempo. 4 1/2/Alan Young Pictures/Canal +/Det Danske Filminstitutet/Edith Film Oy/Film I Väst/Hachette Première/Isabella Films/J&M Ent./KC Medien AG/Kushner-Locke Co./Kuzui Ent./Liberator Prod./MDP Worldwide/Memfis Film&Television/Pain Unlimited GmbH/Q&Q Medien GmbH/Sigma Films Lmtd/Slot Machine/Something Else/Summit Ent./SVT/Trollhättan Film AB/Trust Films Svenka/What Else?/Zentropa Ent./Zoma Lmtd. 177 minutos.


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