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sexta-feira, 26 de junho de 2015

The Film Handbook#29: Elia Kazan


Elia Kazan
Nascimento: 7/09/1909, Constantinople, Império Otomano (hoje Istambul, Turquia)
Morte: 28/09/2003, Nova York, EUA
Carreira (como realizador): 1937-76

Co-fundador, em 1948, do Actor's Studio, Elia Kazan (forma abreviada de Kazanjoglou) será lembrado como diretor de algumas das mais eletrizantes performances dos anos 50. Sua obra, no entanto, é variável, indo do lirismo modesto até o melodrama histérico, da embaraçosa auto-justificativa do ingênuo até o comentário social didático.

Chegando a América aos 4 anos, Kazan posteriormente se tornaria um dos melhores diretores de teatro de sua geração, trabalhando com o New York Group Theatre nos anos 30 e ganhando prestígio na década seguinte com a produção de peças de Thornton Wilder, Arthur Miller e Tennessee Williams. Expandindo seu talento para o cinema, realizaria dois curtas antes de sua estreia no longa-metragem com Laços Humanos/A Three Grows in Brooklyn, um dos diversos de seus primeiros filmes aplaudidos pelo naturalismo de suas performances. A Luz é para Todos/Gentleman's Agreement e O Que a Carne Herda/Pinky confrontaram o anti-semitismo e o racismo, porém ambos com roteiros óbvios e controversos; O Justiceiro/Boomerang e Pânico nas Ruas/Panic in the Streets>1 foram tensos filmes de suspense, o último filmado em locações em Nova Orleans e acompanhando a perseguição policial a dois gangsteres menores que podem se encontrar infectados com uma peste. Porém foi com a adaptação de Williams de Um Bonde Chamado Desejo/A Streetcar Named Desire>2, que introduziu o estilo de interpretação do "Método" para as telas e apresentava a estética de Kazan por completo: filmagem em estúdio e atmosfera erótica, optando por extravasar todo o emocionalismo, com o resmungão suado Kowalski de Brando importado intacto da anterior produção teatral: a maneirista Blanche de Vivien Leigh, por contraste, é decorrente de uma acentuação mais pedante e clássica na técnica. O choque é dissonante mas frequentemente fascinante.

Em Viva Zapata, o Método foi aplicado a tese de Steinbeck de que o poder inevitavelmente corrompe, com Brando novamente carismático como o condenado revolucionário mexicano. Porém, em 1952, a carreira de Kazan sofreu uma crise: como uma testemunha "amigável" perante a Comissão de Atividades Anti-Americanas, confessou o seu passado como membro do Partido Comunista; menos interessante, para um artista considerado radical, ele entregou nomes. Curiosamente seu filme seguinte, Sindicato de Ladrões/On the Waterfront>3, pode ser visto como um ato de auto-justificação por parte de Kazan e do roteirista Budd Schulberg (que também havia cooperado com os inimigos dos comunistas; um estivador, persuadido por um padre a delatar seus antigos companheiros (líderes sindicais mafiosos responsáveis pela morte de seu irmão), torna-se ao final melodramático do filme um mártir no estilo de Cristo, salvador dos estivadores e defensor do direito ao trabalho. Ainda que didático e mesmo demasiado vistoso, o filme permanece memorável por suas cenas prévias, mais pacíficas, entre Brando, Steiger e Eve Marie Saint, conseguindo autenticidade por suas locações fotográficas cinzentas e repletas de aço no cais e telhados de Nova York.

Vidas Amargas/East of Eden>4 também dependeu das performances para dar vida a uma mais suave história de Caim e Abel, extraída de Steinbeck, sobre a rivalidade entre dois irmãos pelo amor paterno. Embora o local e o período (Califórnia às vésperas da I Guerra Mundial) sejam bem evocados, a câmera frequentemente inclinada de Kazan torna uma história potencialmente sutil em um melodrama rasgado; por outro lado, embora  James Dean (em seu primeiro papel principal) e Raymond Massey estejam magníficos como filhos sedentos de amor e pai repressor, respectivamente, os maneirismos tensos de um são contrastantes de maneira produtiva. Menos portentoso, o humor negro derivado de Boneca de Carne/Baby Doll, de Williams, observa o diretor relaxando com cenas de virtuosas interpretações em tomadas longas, reveladoras, mas Um Rosto na Multidão/A Face in the Crowd foi uma mais ingênua sátira sobre a cultura televisiva roteirizada por Schulberg, com um caipira ascendendo ao estrelato graças à banalidade de sua simplória filosofia. Rio Violento/Wild River>5, foi o melhor filme de Kazan. Um magistralmente filmado drama ambientado nos anos 30, a respeito das tentativas de um engenheiro de comprar terras para uma barragem de uma velha resolvida a resistir. Como habitual, a interpretação foi soberba e uma vez mais é explorado o tema do choque entre a integridade individual e os desejos prevalecentes da sociedade, mas o tom é mais moderado; o sentido é construído mais pelos cenários e personagens que pela retórica teatral pesada. Porém Clamor do Sexo/Splendor on the Grass (sobre o amor adolescente durante o final dos anos 20, frustrado pela pressão paterna e terminando em  auto-sacrifício, separação e insanidade) produz tolo simbolismo, tornando-se um irregular e ocasionalmente comovente tributo a sexualidade natural.

Desde então, Kazan dirigiu menos frequentemente, voltando-se crescentemente à escrita. Seus filmes subsequentes, e os livros nos quais foram baseados, foram  semi-autobiográficos: Terra do Sonho Distante/America, America>6, refletia sobre sua própria carreira e sua vida familiar na Turquia, reconhecendo os compromissos que um rapaz deve fazer para realizar seu sonho de conquistar a América; épico, intimista e realista se move para longe das estruturas dramáticas sofisticadas e atuações do Método de seus primeiros filmes. Menos bem sucedido, Movidos pelo Ódio/The Arrangement sobre um rico e envelhecido publicitário que sai da rotina para se encontrar transformou-se em extravagantes clichês de novela. Por fim o estrelado elenco  - De Niro, Nicholson, Mitchum, Milland, Moreau et al - reunido para um filme a partir de O Último Magnata/The Last Tycoon, de Scott Fitzgerald fez pouco para aliviar a tediosa responsabilidade da direção pedante de Kazan e o roteiro pesado de Harold Pinter.

A aposentadoria de Kazan do cinema, se de fato ocorreu, praticamente não foi percebida; ele estava bem distante de seu auge. Embora seja impossível negar seu talento por descobrir e orientar atores, em retrospectiva muito de sua obra parece manipulativa e controversa. Ele foi, em última instância, o diretor de cenas memoráveis mais que de filmes plenamente realizados: o custo de se focar em performances em detrimento de tudo o mais.

Cronologia
Influenciado por Stanislavski, Lee Strasberg e Harold Clurman no teatro, Kazan pode, em alguma medida, ser comparado ao Neo-Realismo Italiano, Nicholas Ray, Aldrich e Polonsky. Sua influência sobre a interpretação para o cinema é enorme: Penn, Cassavetes, Lumet, Scorsese, Paul Newman e Ulu Grosbard são dignos sucessores. A ex-esposa de Kazan, Barbara Loden levou o naturalismo ao limite com Wanda.

Leituras Futuras
Kazan on Kazan (Londres, 1973), de Michel Ciment é uma entrevista. Elia Kazan: A Life (Londres, 1988) é uma autobiografia exaustiva.

Destaques
1. Pânico nas Ruas, EUA, 1950 c/Richard Widmark, Jack Palance, Zero Mostel

2. Um Bonde Chamado Desejo, EUA, 1952 c/Marlon Brando, Vivien Leigh, Kim Hunter

3.Sindicato de Ladrões, EUA, 1954 c/Marlon Brando, Eva Marie Saint, Karl Malden

4. Vidas Amargas, EUA, 1955 c/James Dean, Raymond Massey, Julie Harris

5. Rio Violento, EUA, 1960 c/Montgomery Clift, Jo Van Fleet, Lee Remick

6. Terra do Sonho Distante, EUA, 1963 c/Stathis Giallelis, Frank Wolff, Harry Davis

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook, Londres: Longman, 1989, pp.144-46.

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