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sexta-feira, 17 de julho de 2015

The Film Handbook#32: Nicholas Ray

Vida familiar: Jim Backus, James Dean e Ann Doran no seminal drama de fúria adolescente  Juventude Transviada.

Nicholas Ray
Nascimento: 07/08/1911, La Crosse, Wisconsin, EUA
Morte: 16/06/1979, Nova York, EUA
Carreira (como realizador): 1948-79

Um dos melhores diretores dos anos 50, originalmente batizado como Raymond Nicholas Kienzle, Nicholas Ray transcendeu as limitações de gênero para criar filmes de uma natureza altamente pessoal. Imbuído de um pessimismo intenso e romântico e fotografados com um raro sentimento para a ressonância emocional da cor e do espaço, os filmes de Ray se distinguem por uma identificação apaixonada com os à margem da sociedade, suas simpatias possivelmente surgindo de sua própria relação problemática com o establishment da indústria.

Antes de adentrar o mundo do cinema como assistente de Kazan em Laços Humanos/A Tree Grows in Brooklyn, Ray estudou arquitetura sob os auspícios de Frank Lloyd Wright e trabalhou profusamente no teatro e no rádio. Em 1948, ele realizaria sua estreia na direção para o produtor John Houseman, com Amarga Esperança/They Live By Night>1, um filme de ação  rural de gangster notável pela ternura  demonstrada para com seus  amantes fugitivos jovens, inocentes e condenados, assim como pela segurança das composições visuais, presente já na sequencia dos créditos iniciais do carro dos fugitivos guiado à toda velocidade a partir de um dramático plano de helicóptero. Bem menos sucedido, ainda que realizado com evidente perícia, foi o melodrama A Vida Íntima de uma Mulher/A Woman's Secret, o primeiro de diversas obrigações para o estúdio RKO (Alma sem Pudor/Born to be Bad, Horizonte de Glórias/Flying Leathernecks) e O Crime não Compensa/Knock on Any Door, uma vigorosa, ainda que previsível, narrativa liberal sobre delinquência juvenil. Ao mesmo tempo, no entanto, o talento especial de Ray para minar convenções de gênero pode ser observada em No Silêncio da Noite/In a Lonely Place>2 (o temperamento violento de um cínico roteirista de Hollywood leva-o a ser suspeito de assassinato e da eventual destruição de um frágil caso amoroso), Cinzas Que Queimam/On Dangerous Ground (sobre um policial psicoticamente brutal refugiado no norte do estado, aonde a natureza e o amor de uma mulher cega levam-no a uma regeneração espiritual), e Paixão de Bravo/The Lusty Men>3 (um melancólico épico-rodeio que explora a insensatez do orgulho e da obstinação masculinas). Em todos os três, a habilidade de Ray para criar intensidade emocional através de personagens tanto vulneráveis quanto talentosos, e através de vívidos planos de paisagens e interiores, utilizados para retratar um universo de alienados sonhadores solitários incapazes de se adequar ao ethos destrutivamente competitivo do Sonho Americano.

Um western bizarro, barroco e alegórico no qual duas mulheres armadas batalham até a morte por homens e terra, Johnny Guitar>4, foi também o primeiro filme de Ray em cores, que ele utiliza com efeito poético e simbólico para intensificar o drama, emprestando a seus personagens uma dimensão quase mítica. Dois westerns subsequentes (Fora das Grades/Run for CoverQuem Foi Jesse James/The True Story of Jesse James) retratavam os foras-da-lei/heróis como idealistas amargurados pelas injustiças sociais, mas foi Juventude Transviada/Rebel Without a Cause>5 que falava pela desilusão maciça de uma geração inteira. Em James Dean, interpretando um adolescente de classe média, destruído por suas presumíveis obrigações à família, amigos e ao mundo adulto em geral, Ray encontrou a perfeita corporificação de uma juventude neurótica e confusa; porém foi o  magistral, virtualmente expressionista, manuseio de composições, cores e movimentos de câmera que emprestam ao filme sua força crua e urgência. De fato, nenhum diretor fez tanto do alargamento da moldura em Scope: as emoções intensas emergem em violentas linhas diagonais (escadas, especialmente, significam momentos de crises e transições) e os conflitos entre personagens transmitidos por cores berrantes. Delírio de Loucura/Bigger Than Life>6, realizado logo após a corajosamente extravagante saga Sangue Ardente/Hot Blood, pode assim ser visto como a obra-prima de Ray, seus vívidos tons vermelhos e criação de sombras e um senso imaculado de ornamentação evocam exatamente o pesadelo da transformação de um pacato professor suburbano induzido pela cortisona a  transformar-se em um megalomaníaco assassino que chega a acreditar que ao prevenir Abraão de matar Isaac, "Deus estava errado!". Raramente as frustrações, conformismos e pequenas ambições da vida familiar americana foram objeto de tão devastadora crítica.

No final dos anos 50, a insatisfação de Ray com as convenções de gêneros se tornaram aparentemente maiores: Amargo Triunfo/Bitter Victory ignora os habituais heróis de guerra para focar na rivalidade ácida entre entre um covarde oficial de comando e um capitão idealista, cuja percepção do absurdo da guerra leva a morte fútil; Jornada Tétrica/Wind Across the Everglades>7, ambientado numa Miami da virada do século, traça um jogo entre a rivalidade de matadores de pássaros misturando a indiferença do estilo do western com temas ecológicos e etnológicos para pintar um retrato, poético mas brutal, de mortais orgulhosamente atirando na face de Deus. E o extravagante filme de ação de gangster A Bela do Bas-Fond/Party Girl>8, ameça repetidamente se tornar um estilizado musical, embora faça uso da história de submundo do crime como pano de fundo para um romance entre dois emocionalmente inválidos e repletos de auto-aversão à margem da sociedade. Ainda mais ambicioso foi Sangue Sobre a Neve/Savage Innocents, no qual as batalhas de um esquimó para sobreviver à natureza chegam a um trágico fim, quando ele ganha a força adicional da Civilização, personificada pelo Cristianismo, capitalismo e rock&roll. Uma problemática co-produção internacional, o filme é grandemente inteligente, frequentemente assombroso em termos visuais, mas irregular - qualidades também encontradas em Rei dos Reis/King of Kings>9, o primeiro dos dois épicos que Ray dirigiria para o produtor Samuel Bronston, que destaca Barrabás na história de Cristo como motivo para explorar as forças gêmeas da revolta judaica (tanto pacifista quanto violenta) contra a opressão romana. Por fim, 55 Dias em Pequim/55 Days at Peking mesclava uma espetacular recriação da revolta Boxer com cenas mais íntimas que questionavam o valor do heroísmo e do orgulho; Ray, aliás, frequentemente doente e desmotivado pela indústria do cinema como um todo, abandonou o filme, nunca mais voltando a trabalhar no cinema comercial outra vez.

Sua carreira, no entanto, não estava terminada; como professor de cinema, realizou com seus estudantes We Can't Go Home Again, um vanguardista mosaico de imagens que evocam as inquietações políticas, sexuais e espirituais da América nos primórdios dos anos 70 em tela dividida. Ainda mais agonizante ele colaborou com Wenders no documentário O Filme de Nick/Lightining Over Water (Nick's Movie) no qual seus último esforços, bravios mas frequentemente confusos, de permanecer criativo, a despeito dos avanços do câncer são evidenciados com uma honestidade que beira o voyeurismo mórbido.

A obra de Ray foi grandemente devotada a explorar os meios cinematográficos de expressar as tormentas interiores de indivíduos solitários esperançosos por encontrarem uma forma de se integrarem dentro de uma sociedade que pouco liga para os fracos e diferentes; o resultado foi, com frequência, extraordinariamente comovente em sua descrição cúmplice do conflito, dor e desespero. A importância de Ray reside em sua compreensão inata do cinema: seu talento foi tanto visual quanto literário, com cores, composições, gestos e movimentos repetidamente se combinando para revelar pensamentos e emoções.

Cronologia
Da mesma geração de diretores socialmente conscientes como Fuller, Losey, Kazan, Polonsky e Aldrich, Ray se tornou herói dos realizadores da Nouvelle Vague francesa, particularmente Godard. Sua influência pode ser observada na obra de Hopper (que aparece em Juventude Transviada) e Wenders (Ray surge numa ponta em O Amigo Americano/The American Friend). Jarmusch foi aluno e assistente de Ray na New York University.

Leituras Futuras
Nicholas Ray (Boston, 1977), de John Kriedl

Destaques
1. Amarga Esperança, EUA, 1948, c/Farley Granger, Cathy O'Donnel, Howard Da Silva

2. No Silêncio da Noite, EUA, 1950 c/Humphrey Bogard, Gloria Grahame, Frank Lovejoy

3. Paixão de Bravo, EUA, 1952 c/Robert Mitchum, Susan Hayward, Arthur Kennedy

4. Johnny Guitar, EUA, 1953 c/Joan Crawford, Mercedes McCambridge, Sterling Hayden

5. Juventude Transviada, EUA, 1955 c/James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo

6. Delírio de Loucura, EUA, 1956, James Mason, Barbara Rush, Walter Matthau

7. Jornada Tétrica, EUA, 1958,  Christopher Plummer, Burl Ives, Gypsy Rose Lee

8. A Bela do Bas-Fond, EUA, 1958, Robert Taylor, Cyd Charisse, Lee J. Cobb

9. Rei dos Reis, EUA, 1961, c/Jeffrey Hunter, Robert Ryan, Siobhan McKenna

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 230-2.

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