CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

The Film Handbook#36: Robert Aldrich



Robert Aldrich
Nascimento: 09/08/1918, Cranston, Rhode Island, EUA
Morte: 05/12/1983, Los Angeles, Califórnia, EUA
Carreira (como realizador): 1953-81

Embora seja comumente considerado que Robert Aldrich foi primordialmente um diretor de filmes de ação, um comerciante cínico da violência masculina cujos filmes diminuíram de valor com seu envelhecimento, sua carreira, como seus filmes, é marcada por contradições; de fato, a impressão duradoura ganha com uma visão panorâmica de sua obra é a de inconsistência.

Após uma série de funções na RKO, Aldrich foi assistente de Renoir, Ophüls, Chaplin, Losey, Polonsky e Lewis Milestone. Em 1953 ele estreou como diretor com The Big Leaguer, porém foi somente com seu terceiro filme, O Último Bravo/Apache>1, que seu assegurado domínio dos gêneros e sensibilidades liberais vieram à tona num retrato simpático, mas nunca sentimental da alienação de um índio tanto da América branca quanto de seu próprio gênero. Porém foi  A Morte num Beijo>2 que primeiro apresentou o estilo desenvolvido de Aldrich. Em meio a uma virtuosa ostentação de efeitos de iluminação expressionistas, o detetive particular Mickey Spillane foi desglamorizado ao se tornar um rufião motivado por auto-interesse material e violência sádica: uma brutal encarnação da paranoia da Guerra Fria e da perseguição do McCarthismo. As imagens explosivas de seu clímax levam a alegoria fascista ainda mais longe: quando a investigação de Hammer leva a uma moderna Caixa de Pandora, o cinema noir adentra a Era Nuclear.

A combinação característica de imagens agitadas e protagonistas polarizados continuou através de uma variedade de gêneros. A Grande Chantagem/The Big Knife apresentou uma furiosa estrela de cinema desonrada contra um chefão de estúdio tirânico (baseado, aparentemente, em Harry Cohn da Columbia) numa poderosa adaptação em cenário único da peça de Clifford Odets; a escolha de Aldrich do tratamento do material revelou seu desgosto com o establishment de Hollywood. Morte sem Glória/Attack >3, apresentou menos interesse na guerra dos Estados Unidos contra a Alemanha que no conflito fatal entre um tenente idealista e amargurado e seu superior covarde; já O Que Aconteceu com Baby Jane?/Whatever Happened to Baby Jane?>4 moveu a batalha para a arena feminina, com um aleijada obrigada a fazer uso de cadeira de rodas aterrorizada por sua vingativa irmã em uma atmosfera vaporosa de melodrama louco e horror gótico, Apesar desses filmes fascinantes e, em sua maior parte, inteligentes, Aldrich também realizou diversos e nada distintos fracassos, sendo o mais deprimente de todos o extravagante épico Sodoma e Gomorra/Sodom and Gomorrah.

Com o progredir de sua carreira, sua obra se torna crescentemente errática, alternando entre a confusa incoerência (A Lenda de Lylah Clare/The Legend of Lilah Clare, Crime e Paixão/Hustle) e uma descrição rigorosa, frequentemente inquietante, dos excessos da humanidade (Golpe Baixo/The Longest Yard). Em Os Doze Condenados/The Dirty Dozen>5, ele parecia dividido em zombar do heroísmo americano (um grupo de psicopatas e condenados a pena de morte conduz uma missão suicida por trás das linhas nazistas) ou o indulgente entusiasmo com a celebração da violência; enquanto seu triângulo de amor lésbico e paródia das novelas de TV de Triângulo Feminino/The Killing of Sister Georgie se abstrai fatalmente da realidade. Do mesmo modo, Resgate de uma Vida/The Grisson Gang (um inventivo thriller de sequestro, subvertendo o romance de James Hadley Chase com tocante efeito) e A Vingança de Ulzana/Ulzana's Raid>6, proporcionam tensas e radicais reavaliações de estereótipos dos gêneros. No último, um escoteiro envelhecido ajuda  relutantemente a treinar os oficiais de cavalaria de West Point na perseguição auto-destrutiva de índios renegados; paralelos com a Guerra do Vietnã são lúcidos e ressonantes, as atrocidades cometidas por ambos os lados nunca ignoradas.

Em seus anos finais, somente o politicamente cínico O Último Brilho do Crepúsculo/Twilight Last Gleaming>7 - uma assustadora conspiração militar em que um general aposentado e rebelde chantageia o presidente com ameça de guerra atômica - apresentou Aldrich em sua melhor forma, enquanto tanto The Choir Boys quanto O Rabino e o Pistoleiro/The Frisco Kid, sofreram com a excessiva obviedade cômica. No entanto, seu último filme, Garotas Duras na Queda/...All the Marbles tratou o desastroso tema da luta entre mulheres com momentos de inesperada vivacidade e perspicácia.

No seu melhor, Aldrich empregou perversa ironia, ação muscular e composições vibrantes e sofisticadas para evocar um mundo dividido pelo auto-interesse e sempre à beira da violenta anarquia. Ao mesmo tempo esses ingredientes, quando aplicados a um roteiro pouco focado, levaram-no  ao exagero e a vulgaridade. De toda forma, sua assinatura é quase sempre discernível, ainda que somente pelo uso repetido de certos atores principais - mais notadamente Jack Palance e Burt Lancaster - e do soberbo câmera Joseph Biroc.

Cronologia
Aldrich foi um dos muitos diretores (Losey, Ray, Fuller e Siegel inclusos) que no final dos anos 40 e anos 50 fizeram uso de gêneros violentos e menores para realizarem considerações sociais sobre a América. Ele pode ser visto como um precursor de Peckinpah, Penn, Hopper e Scorsese

Leituras Futuras
Robert Aldrich (Londres, 1978), de Richard Combs

Destaques
1. O Último Bravo, EUA, 1954 c/Burt Lancaster, Jean Peters, John McIntire

2. A Morte num Beijo. EUA, 1955, c/Ralph Meeker, Albert Dekker, Paul Stewart

3. Morte sem Glória, EUA, 1956 c/Jack Palance, Eddie Albert, Lee Marvin

4. O Que Aconteceu com Baby Jane?, EUA, 1962 c/Bette Davis, Joan Crawford, Victor Buono

5. Os Doze Condenados, EUA/Reino Unido, 1967 c/Lee Marvin, John Cassavetes, Ernest Borgnine

6. A Vingança de Ulzana, EUA, 1972, c/Burt Lancaster, Bruce Davison, Richard Jaeckel

7. O Último Brilho do Crepúsculo, EUA, 1977 c/Burt Lancaster, Richard Widmark, Charles Durning

Texto; Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, pp.8-9.



Nenhum comentário:

Postar um comentário