CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Que país é esse?...

...em que a maior rede de televisão prefere passar receitas de ovo cozido do que à transmitir ao vivo o pronunciamento histórico de defesa da presidente da república eleita pelo voto democrático? Enquanto não tivermos uma mídia minimamente equilibrada em suas colorações políticas não se conquistará nem um arremedo de democracia. Por enquanto, a grande mídia apenas representa os que moram na Vieira Souto, Av. Atlântica, Av. Paulista, todos os nichos da elite citados sintomaticamente pelo jurista Miguel Reale Jr.

a ainda tem idiotas, como os do blog "JornalismoLivre" ou algo do tipo, com milhares de aspas possíveis que não creem ver nenhuma relação digna de nota entre uma coisa e outra e chama de psicodélica a defesa de uma senadora que citou "a Globo do nada" no episódio na tribuna do Senado.

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o ideal seria um ovo cozido ao centro não? será que alguém já fez o meme?

Filme do Dia: La Cifra Impar (1962), Manuel Antin

La cifra impar Poster

La Cifra Impar (Argentina, 1962). Direção: Manuel Antin. Rot. Adaptado: Manuel Antin & Antonio Ripoli, baseado no conto Cartas de Mamá, de Júlio Cortazar. Fotografia: Ignacio Souto. Música: Virtú Maragno. Montagem: Antonio Ripoli. Dir. de arte: Ponchi Morpurgo & Federico Padilla. Com: Lautaro Murúa, María Rosa Gallo, Sergio Renán, Milagros de la Vega, Maurice Jouvet, José María Fra.
Triângulo amoroso entre os irmãos, Luis (Murúa), Nico (Renán) e Laura (Gallo), acaba provocando a morte do elo mais frágil da corrente, Nico. Mudando-se de Buenos Aires para Paris, Luis e Laura não conseguem, no entanto, exorcizar o fantasma de Nico, que volta a ser evocado nas cartas da mãe senil (Vega).
Antin consegue um resultado bem interessante, entre os arroubos do melodrama e a frieza distanciada do cinema moderno, sobretudo francês, que lhe deve ter igualmente inspirado, o que traduz, de certa maneira, à época em que o filme foi produzido. Os diálogos por vezes se tornam por demais literários, assim como as interpretações – principalmente de Gallo – demasiado teatrais, porém essa estrutura dramática visivelmente herdeira de uma forte presença de elementos teatrais e literários se torna passível de apropriação pela própria narrativa, que exige um senso de claustrofobia e ausência de horizonte que reproduz no espaço físico o emaranhado psíquico dos personagens. A cenografia, principalmente no que se refere a casa da família dos irmãos, talvez seja representada de forma excessivamente gótica e sombria, na linha de Rebecca (1940), de Hitchcock, porém serve para contrapor o universo da mãe e um sentido de família tradicional em oposição ao aspecto clean do casal moderno que vive em Paris. Renán está bem como o tímido e cruel Nico, que tem plena consciência do que provocará com sua morte iminente, aproximando-se ligeiramente do Norman Bates de Psicose, porém sem ser tão excessivo quanto Perkins e o mesmo se dá com Murúa que vive um Luis de extrema conteção emocional. O próprio filme reproduz essa contenção, com a balança pendendo portanto para as apropriações do cinema moderno que o cineasta faz uso, como a trilha sonora, que apenas surge em determinados intervalos e que, se inicialmente aparente ser aliada do melodrama clássico, finda por soar igualmente estranha e inquietante, com seus acordes pouco melodiosos. Ou ainda a constante mistura entre presente e passado, que na maior parte das vezes ocorre sem a menor sinalização. Filme de estréia de Antin, também romancista, e o primeiro de uma trilogia de adaptações da obra de Cortazar, que inclui ainda Circe (1964) e Intimidad de los Parques (1965). Trata-se também da primeira de mais de uma dezena de adaptações cinematográficas da obra de Cortázar para o cinema. Harding-Shon. 85 minutos.


terça-feira, 30 de agosto de 2016

Filme do Dia: Eureka (1983), Nicolas Roeg





Eureka (Reino Unido/EUA, 1983). Direção: Nicolas Roeg. Rot. Adaptado: Paul Mayersberg, baseado no livro Who Killed Sir Harry Oakes. Fotografia: Alex Thomson. Música: Stanley Myers & Hans Zimmer. Montagem: Tony Lawson. Dir. de arte: Michael Seymour & John Beard. Cenografia: Michael Seirton. Figurinos: Marit Allen. Com: Gene Hackman, Theresa Russell, Rutger Hauer, Jane Lapotaire, Mickey Rourke, Ed Lauter, Joe Pesci, Helena Kallianiotes.
                Jack McCann (Hackman) é um obstinado garimpeiro que, após quinze anos de incursões infrutíferas pelo inóspito frio canadense, consegue encontrar sua fortuna em 1925. Porém a fortuna lhe trará a inimizade mortal de seu sócio, Charles Perkins (Lauter) e do ganancioso advogado Aurelio (Rourke). Por outro lado, sentir-se-á traído pela própria filha, Tracy (Russell), quando esta decide viver com o sedutor Claude (Hauer), que ele acredita estar interessado apenas na fortuna da família. Os embates entre Jack e Claude se tornam um bom álibi para o assassinato cruel de Jack, perpetrado por Aurelio e seu grupo. Depois de sua morte, todos os depoimentos parecem apontar a culpa de Claude que, no entanto, consegue ser absolvido, desde que parta imediatamente do país.
Esse denso filme de ação psicológico que faz uso do talento de Roeg para mesclar temporalidades distintas em uma dimensão próxima da onírica, consegue acentuar o caráter humano de, conscientemente ou não, se repetir infinitamente, como muitos dos diálogos dos personagens, que acabam voltando a boca dos mesmos com o espaço de muitos anos, como uma teia que não conseguem se desvencilhar com suficiente habilidade. Com várias referências a Cidadão Kane, já a partir do título, sendo Eureka, tal como Xanadu, o refúgio do magnata vivido por Hackman, assim como a pedra que carrega como amuleto e o já desgastado clichê do homem que não consegue encontrar a si próprio. Em seus piores momentos, graças em boa parte as interpretações irregulares, o cineasta parece se aproximar do estilo excessivamente pretensioso de alguns filmes influenciados por seu trabalho anterior, como Uma Estranha Passagem em Veneza (1990), de Paul Schrader. JF Productions/RPC/Sunley Productions. 130 minutos.


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Filme do Dia: Alice Gets in Dutch (1924), Walt Disney



Alice Gets in Dutch (EUA, 1924). Direção: Walt Disney. Com: Virginia Davis, Mrs. Hunt, David F. Hollander, Marjorie Sewell, Spec O’Donnell.
Alice e seus colegas de sala resolvem se vingar da inflexível e ríspida professora, a Sra. Hunt, enchendo o interior de um balão de tinta. Quando a professora percebe o balão e com olhar sádico, afirma que eles sabem qual será o destino do mesmo, os alunos imediatamente também sabe qual será o destino dela após o balão: ficar com o rosto e parte das vestes completamente sujas de tinta. Alice vai para o canto de castigo e com chapéu de burro. Lá, sonha com um mundo no qual interage pacificamente com os animais até ser perseguida pela Sra. Hunt e seus asseclas, livros. Quando se encontra numa situação difícil, sendo molestada pela Sra.Hunt, é acordada pela própria.
Se em termos de técnica a mescla entre animação e ação ao vivo se encontra a anos-luz de distância da qualidade e tampouco se direciona para a inteligente auto-reflexividade posta em vários dos filmes contemporâneos dos Irmãos Fleischer, ao menos aqui Disney consegue ser mais criativo que em outros filmes da mesma série (a exemplo de Alice The Whaler). Inicialmente se imagina que sua utilização da animação se encontraria restrita a alguns efeitos secundários, como o momento em que o balão cheio de tinta estoura, porém o sonho de Alice acena para situações de fantasia mais delirantes, ao mesmo tempo que sem deixar de fazer referência a lógica dos sonhos, como é o caso do espelhamento entre Alice sendo importunada pela Sra.Hunt no sonho e ela ser acordada justamente numa situação semelhante pela mesma. Faz parte de um momento da carreira de Disney que seria posteriormente renegado de sua história oficial, que preferia evocar que tudo havia começado com o camundongo Mickey. Destaque para as atuações e cenografia um tanto amadoras, dignas, guardadas as devidas proporções, do Primeiro Cinema e para a caricatura convencional da figura da professora como uma velha senhora amarga e provavelmente solteirona. Walt Disney Prod. para Margaret J. Winkler. 9 minutos e 51 segundos.

domingo, 28 de agosto de 2016

O Mestre Perguntador morre desencantado com o jornalismo

Por Luiz Cláudio Cunha

O jornalismo brasileiro ficou mais obtuso, medíocre, raso, frio, casmurro e sem respostas nesta segunda-feira, 22 do agosto sempre aziago. Perdemos o Geneton.
Geneton Moraes Neto morreu no Rio de Janeiro aos 60 anos, vencido pelas complicações de um aneurisma na aorta sofrido três meses antes. Na autoapresentação de seu blog, criado em 2004, ele já avisava: “Nasci numa sexta-feira 13, num beco sem saída, numa cidade pobre da América do Sul: Recife. Tinha tudo para fracassar. Fracassei”.
Bela mentira. Em quatro décadas de jornalismo, o Geneton do beco e da sexta-feira 13 tornou-se, para sorte de todos nós, um exemplo de sucesso e uma referência para todos os repórteres que tentam ser fiéis ao compromisso irrevogável de uma imprensa dedicada à verdade, à memória, à história e ao dever de consolar os aflitos e afligir os consolados.
Geneton Moraes Neto
Geneton Moraes Neto
Ele começou como repórter em sua terra, noDiário de Pernambuco e na sucursal local de O Estado de S.Paulo¸ nos duros anos do Governo Geisel, em plena ditadura. Foi estudar no exterior. Em Paris, trabalhou como camareiro do Hotel Mônaco e motorista de uma família rica enquanto estudava Cinema na Sorbonne.
Voltou ao jornalismo, e ao Brasil, para trabalhar no Grupo Globo a partir de 1985. Ali, o repórter que se dizia fracassado foi chefe e mestre nos principais postos de jornalismo da casa: editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional, correspondente em Londres daGloboNews e do jornal O Globo, repórter e editor-chefe do Fantástico.
Nenhuma mesa poderosa da burocracia da redação, porém, deslumbrou o ex-fracassado do beco: “Não troco por nada o exercício da reportagem — a única função realmente importante no jornalismo”, definia Geneton no seu blog. E foi na função seminal de repórter, não como executivo de redação, que Geneton imprimiu sua marca indelével na imprensa brasileira. As provas estão guardadas para sempre no seu blog, geneton.com.br, que devia ser tombado como patrimônio cultural e leitura obrigatória para estudantes, repórteres, jornalistas e todos aqueles que respeitam a inteligência e o conhecimento. Ali, Geneton passeia sua intimidade, seu talento e seu ofício de repórter exemplar e humilde diante da notícia e de gente que, como ele, fez História. Presidentes e ex-governantes, generais e guerrilheiros, escritores e cineastas, atletas e poetas, astronautas e políticos, cantores e compositores, jornalistas e repórteres, grandes repórteres como ele, passaram pelo crivo de sua inteligência e argúcia.
Os bastardos
As duas sobreviventes do Titanic, o copiloto da bomba de Hiroshima, o assassino de Martin Luther King, o produtor dos Beatles, o promotor britânico do tribunal de Nuremberg, o agente secreto que tentou matar Hitler, os três astronautas que pisaram na Lula, o confessor de Bin Laden nas montanhas de Bora-Bora, o professor do líder dos terroristas do 11 de Setembro, o homem que encarou o ‘Setembro Negro’ nas Olimpíadas de Munique, o filho do carrasco nazista de Auschwitz que ataca o próprio pai, o guerrilheiro brasileiro que recrutou a mãe para a luta armada, o repórter de Watergate que derrubou o presidente da Casa Branca, o relato dos 11 jogadores brasileiros da derrota na final da Copa de 1950 num Maracanã estufado com 10% da população do Rio de Janeiro na época, mais de 200 mil torcedores.
Todos fazem parte deste universo mágico que Geneton esquadrinhou e trouxe para perto de nós, para nos recontar, com detalhes inéditos, a saga da espécie humana, nos seus bons e maus momentos. “Que se faça a louvação da reportagem. O papel de todo repórter é produzir informação a curto prazo. E memória, a longo prazo – de preferência, nas páginas de um livro, hoje transformado em espaço nobre a reportagem no Brasil”, escreveu Geneton na orelha do penúltimo de seus onze livros, Dossiê História (2007).
Ali, Geneton se define modestamente como um “pequeno tarefeiro da memória porque, em última instância, a memória é a grande matéria-prima do jornalismo”. Nessa tarefa, ele seguia com devoção o mandamento de um velho jornalista do inglês The Times, que ensinava:  Toda vez que estiver entrevistando alguém, anônimo ou famoso, rico ou pobre, o repórter deve sempre fazer a si mesmo, intimamente, a seguinte pergunta:
‘Por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?’
O blog de Geneton se define como ‘jornal de um repórter’ e tem até uma padroeira, uma tal de ‘Nossa Senhora do Perpétuo Espanto’. Ele explicava: Para que possam contribuir com esse ‘mundo real’, os jornalistas têm que ter uma atitude de permanente espanto. Precisam ser ‘levantadores’, não ‘derrubadores’ de matéria.
É aí que entra em cena, gloriosamente, a Nossa Senhora do Perpétuo Espanto. Quando criou esta ‘entidade’, Kurt Vonnegut [1922-2007, escritor, EUA] não estava se referindo ao jornalismo, mas essa ‘santa’ deveria ser proclamada padroeira plenipotenciária da nossa profissão.
O jornalista precisa manter, em algum ponto de suas florestas interiores, aquela chama, aquela faísca, aquele espanto que se vê no brilho dos olhos de um estagiário – ou de uma criança.
Quando você se guia pelo entusiasmo das pessoas que estão fora da redação, o resultado do trabalho é melhor do que se você se guiasse pelo tédio dos que estão dentro.
Geneton ensinava que o mundo real é mais interessante do que o mundo dos jornalistas: “Cansei de ver, ouvir e encontrar leitores e telespectadores mais interessados pelos fatos do que jornalistas. Não estou falando de algo abstrato, mas de uma situação real, palpável, comprovável no dia a dia dos jornais. Cansei de ver em redações um clima de tédio total entre os jornalistas. Se você atravessar a rua, for à padaria e comentar que entrevistou uma velhinha que foi passageira doTitanic, provavelmente os ‘ouvintes’ farão perguntas e se interessarão pelo assunto, enquanto muitos jornalistas dirão, com os olhos semicerrados de tédio: ‘Ah, mas já faz 100 anos que oTitanic afundou…’.”
Esse diagnóstico levou Geneton à descoberta de uma terrível doença que ataca as principais redações brasileiras: a SFG, a ‘Síndrome da Frigidez Editorial’, que ele batizou e, com ar divertido, ameaçava registrar na Organização Mundial da Saúde. Definição da síndrome, segundo Geneton: “É a doença do jornalista que, depois de anos de profissão, perde a capacidade de se espantar diante da realidade. Se perde esse fogo, o jornalista deve mudar de profissão”. E jornalista que não se espanta, é claro, nem pergunta mais.
O crédito do general
Perguntar é o que Geneton sabia fazer como ninguém na imprensa brasileira. Como já se disse1, “o jornalismo é a atividade humana que depende essencialmente da pergunta, não da resposta. O bom jornalismo se faz e se constrói com boas perguntas”.
Inimigo juramentado do terno e gravata, fiel ao seu negro blusão de gola rolê que fazia contraste com o branco da barba branca e dos cabelos desgrenhados e cada vez mais ralos no alto da cabeça, Geneton não se intimidava diante das luzes e câmeras da GloboNews, muito menos diante de seus entrevistados. Preocupado menos com a forma, o penteado ou o traje, ele não descuidava nunca do conteúdo, a partir da pauta que ele mesmo escrevinhava, em letras grandes, em folhas de papel almaço que brandia e consultava sem constrangimentos em suas entrevistas. Com sua fala mansa e firme, no doce sotaque recifense que preservou até o fim, Geneton encarava as respostas enganosas com mais perguntas — rápidas, incisivas, cirúrgicas —, repelindo as mentiras com outras perguntas que conduziam à verdade.
Quando o notório Paulo Maluf negou ser sua a assinatura de uma conta no exterior, mesmo diante do documento exibido pelo entrevistador, Geneton disparou:
— O sr. nega então que este Paulo Maluf, aqui, seja o senhor?
— Nego.
— Mesmo com a assinatura de Paulo Maluf?
— Nego.
— Então, existe outro Paulo Maluf?
O Maluf à sua frente ficou em silêncio.
Como todo bom repórter, Geneton era teimoso. Tentou uma, duas, três vezes, até convencer o general Leônidas Pires Gonçalves (1921-2015), ministro do Exército do Governo Sarney, a lhe dar uma histórica entrevista em 2010. Nos créditos da telinha, surpreendentemente, o general não aparece identificado como o primeiro ministro militar da democracia, mas como o chefe da repressão da finada ditadura, a quem Leônidas serviu com espartana e rígida fidelidade. Por isso, na entrevista da GloboNews, o general é creditado apenas como ‘chefe do DOI-CODI, 1974-1977’.
O general falou com uma fluência inédita e uma sinceridade desconcertante, levantando temas que beiravam a fantasia, a leviandade e a arrogância.  Ironizou as denúncias (“Hoje todo mundo diz que foi torturado para receber a bolsa-ditadura”) e duvidou até do assassinato do jornalista Vladimir Herzog sob torturas no DOI-CODI de São Paulo, em 1975: “Eu não tenho convicção de que Herzog tenha sido morto… Um homem não preparado e assustado faz qualquer coisa. Até se mata”.
Leônidas desafiou qualquer um a dizer que foi torturado no DOI-CODI do I Exército, no Rio de Janeiro, que ele comandou como chefe do Estado-Maior durante quase três anos, na fase mais turbulenta do governo Geisel. ‘Não houve tortura na minha área’, garantiu Leônidas.
Devia ser uma bolha milagrosa, porque ali mesmo no I Exército, comandado pelo general Sylvio Frota entre julho de 1972 e março de 1974, o DOI-CODI carioca era um centro de morte, conforme apurou O Globo. Naquele espaço de 21 meses, contou o jornal, morreram 29 presos nas masmorras da afamada rua Barão de Mesquita, onde funcionava o centro de torturas do Exército, comandado pelo notório major Adyr Fiúza de Castro, um dos radicais mais temidos da ditadura. Bastou chegar ali e assumir o DOI-CODI carioca, fantasiava o general Leônidas, e a paz dos anjos se instalou.
Sem arrogância, Geneton enfrentou o general Leônidas com perguntas precisas, enxutas, minimalistas, que iluminaram a história e conseguiram arrancar o melhor (e o pior) do chefe da repressão política que se orgulhava de seu trabalho na ditadura. Preocupado com a edição do programa na TV, Leônidas se apressou em ensinar jornalismo a Geneton:
— Que minhas ideias não sejam suprimidas na edição. Se houver um corte, você me deixa mal — avisou o general, esquecido de que o regime de força que ele defendeu se esmerava em cortes sistemáticos pela censura burra que suprimia ideias e fatos que sempre deixam mal as ditaduras. Geneton não cortou, e ainda assim o general Leônidas ficou muito mal pelas ideias que exprimiu, livremente.
Sempre educado, mas incorrigivelmente firme, Geneton questionou a exótica versão do general de que líderes do regime deposto – como Arraes, Brizola, Jango, Prestes – saíram do Brasil, a partir de 1964, ‘porque quiseram’. Leônidas mirou no ex-governador Miguel Arraes, conterrâneo de Geneton, pregando:
– Ele [Arraes] podia ter ficado em casa…
– Deposto – emendou Geneton.
– E qual é o problema? – admirou-se o general.
– Todo – encerrou Geneton, com a sintética sabedoria que o general, já nos seus 90 anos, ainda não apreendera. – Não havia condições de exercer a política no Brasil, naquela época, general.
O ex-chefe do DOI-CODI desdenhou toda uma fase de arbítrio e violência, dizendo que o país não teve exilados pelo golpe de 1964, mas apenas ‘fugitivos’.
– Eles que ficassem aqui e enfrentassem a justiça – pregou Leônidas.
– General, num regime de exceção, a justiça não é confiável – replicou o repórter, com a altivez e a dignidade devidas.
Eu destaquei esse luminoso desempenho de Geneton x Leônidas num texto — A arte de perguntar—, publicado pelo site Observatório da Imprensa em 7 de abril de 2010, quatro dias após a exibição do programa pela GloboNews, num sábado. Geneton, o mestre e amigo a quem eu tratava nos e-mails pelo carinhoso título de Master Asker (Mestre Perguntador), me agradeceu pelo texto com o bom humor de sempre:
Olá. Com um cabo eleitoral como você aí, considero-me eleito para o Comitê Central do PPB, Partido dos Perguntadores do Brasil. Obrigado!
No dia seguinte, ainda mais feliz, Geneton me repassou uma mensagem do diretor da GloboNews,César Seabra, que redistribuiu pelo correio interno o meu texto do Observatório a toda a equipe da TV, com a seguinte determinação:
Caros,
o texto do link abaixo faz elogios merecidíssimos ao nosso Geneton. Mas também nos faz um alerta precioso, sobre como conduzir uma entrevista. É leitura obrigatória para todos – apresentadores, repórteres, editores, produtores, chefes… Aproveitem. Beijo e bom dia, César
Bolt da garotada
O incansável Geneton não desistiu do general, que ficou satisfeito com o que viu no ar, com todas as suas ideias bizarras respeitadas, como cabe numa democracia. “Devo ter recebido uns 400 telefonemas…”, disse o eufórico Leônidas a Geneton, num encontro casual num final de manhã de junho de 2014 num shopping do Leblon. Em março de 2015 Geneton pensava num lance mais ousado. Colocar o general da repressão no estúdio diante de um guerrilheiro da luta armada. O general piscou. Perguntou quem seria seu oponente. Geneton pensava no ex-guerrilheiro Cid Benjamin, um dos integrantes do grupo que sequestrou o embaixador americano Burke Elbrick em 1969. “Vou dizer uma coisa que você não sabe: o Cid foi prisioneiro meu”. O encontro épico sonhado por Geneton nunca aconteceu: Leônidas morreu três meses depois, aos 94 anos, exatamente um ano depois do encontro dos dois no shopping.
Geneton esmerou-se na arte das perguntas por que esta é a missão central do repórter: “Não faça jornalismo para jornalista. Faça para o público”, repetia ele ao público, embevecido como eu, nas duas vezes em que nos encontramos, em 2011 e 2014, no tradicional SET Universitário promovido pela Famecos (Comunicação Social) da PUC de Porto Alegre. É o mais longevo (29 anos em 2016) evento de comunicação do sul do país, atraindo gente da Argentina, Uruguai e outros países. Geneton era o Usain Bolt da garotada, que ele conquistava com a rapidez e o brilho de um raio.
Mesmo diante da crise econômica que vive a indústria da comunicação e da crise existencial que abate os jornalistas atropelados pelo desafio da tecnologia, Geneton nunca abdicou de seus princípios. Fidelidade absoluta à reportagem e ao seu ídolo maior, Joel Silveira (1918-2007), “o maior repórter brasileiro”, um sergipano autodidata que Geneton frequentava todo dia, até a sua morte, com a reverência de um fã.
Joel foi correspondente de guerra na campanha da FEB na II Guerra Mundial, escalado para cobrir o conflito em 1944 pelo dono dos Diários Associados. Assis Chateaubriand lhe deu a ordem final:
— O senhor vai para a guerra! E vou lhe pedir um favor, senhor Silveira: não me morra! Repórter não é para morrer, repórter é para mandar notícia!
Joel embarcou e voltou. Mas, contrariando as ordens de Chateaubriand, morreu um pouco.
— Fui para a Itália com 27 anos, passei dez meses e voltei com 40 anos. A guerra me tirou 13 anos — confessou o ídolo Joel ao fã Geneton, que a partir desses 20 anos de convivência e confidências, juntando fitas K7 e imagens amadoras, acabaria produzindo um documentário fundamental de 90 minutos sobre o maior repórter brasileiro: Garrafas ao mar — A víbora manda lembranças, exibido pela GloboNews em 2013.
Geneton se divertia contando as relações de seu ídolo com os magnatas da mídia. De Chateaubriand, Joel ganhou o apelido de ‘víbora’. De Adolpho Bloch, dono da revista Manchete,onde Joel publicou suas últimas reportagens, ele ganhou um bilhete. Bloch aproveitou uma viagem de seu repórter a Jerusalém e lhe pediu que colocasse o bilhete, como manda a tradição judaica, numa das frestas do Muro das Lamentações, acompanhado de um pedido. Joel cumpriu a pauta do patrão, que lhe perguntou na volta:
— E aí, Joel, fez o pedido?
— Fiz, Adolpho. Pedi para você me dar um aumento de salário…
Porta estandarte
Um dos mantras preferidos do sergipano Joel Silveira — “Jornalismo é ver a banda passar, não é fazer parte da banda” — reproduz bem a visão que seu fã pernambucano tinha de boa parte da mídia atual, em que o jornalismo cede espaço ao partidarismo, a razão é acuada pela paixão, a isenção é atropelada pela facção. Geneton também deplorava o engajamento até de jornalistas experientes em uma ou em outra banda partidária, no calor de uma luta político-eleitoral cada vez mais acesa que rebaixou parcela da imprensa ao jogo abrutalhado de um Fla-Flu de caneladas e mútuo xingamento, tão estridente que nem dava para ouvir a banda passar.
Geneton, com a serenidade que nunca lhe permitiu desfilar nessas bandas, definia:
— Fazer jornalismo é não praticar nunca, jamais, sob hipótese alguma, a patrulha ideológica.
Geneton via em Joel o seu ideal cada vez mais romântico do repórter que sobreviveu à ‘ditadura da objetividade’, imposta para combater pragas como subliteratura, beletrismo e academicismo, e sucumbiu à maldição dos tempos atuais, com textos áridos, chatos, anêmicos, soporíferos, iguais. “Lástima, lástima, lástima”, lamentava Geneton.
Geneton sonhava com alguém pichando os muros da cidade, proclamando: “Chega de objetividade! As notícias eu já vi na internet e na TV! Quero vivacidade, imaginação, arrebatamento, ousadia!”. No seu devaneio, Geneton achava que Joel poderia ser o porta-estandarte do resgate desse tipo de jornalismo, segundo ele exilado para a Sibéria.
— A luta por um jornalismo mais vívido, mais atraente, mais iluminado faz parte da luta por um Brasil menos medíocre. Por que não? — perguntava-se Geneton, mais uma vez.
Para sustentar sua teoria, ele usava a prática inigualável de Joel, dando como exemplo este texto em que o velho sergipano descrevia um menino morto no Bogotazo, uma revolta popular na Colômbia de 1948 que se seguiu ao assassinato de um candidato liberal da oposição, Jorge Gaitán, abatido na rua com três tiros. Os protestos, desordens e a repressão desatada em Bogotá, num único dia, deixaram um saldo de 500 mortos só na capital. Trecho do texto de Joel:
Estive no Cemitério Central de Bogotá, em afazer de repórter, para ter uma ideia aproximada do saldo de mortos deixado pela explosão popular. Nunca, em toda minha vida, nem mesmo nos meses de guerra, estive diante de mortos tão mortos. Somente aquele menino – não mais de oito anos – morrera cândido, de olhos abertos, um começo de sorriso nos lábios. Os olhos vazios fixavam o céu de chumbo. As mãos de unhas sujas e compridas pendiam sobre a laje dura – como os remos inertes de um pequeno barco. Um funcionário qualquer se aproximou, olhou por alguns segundos o menino morto, procurou sem achar alguma coisa que ele deveria trazer nos bolsos. Tentou em seguida fechar com os dedos os olhos abertos, mas não conseguiu. Abertos e limpos, os olhos do menino morto pareciam maravilhados com o que somente eles viam, com o que queriam ver para sempre.
Geneton fez a pergunta, que insinuava a resposta:
— Os jornais de hoje publicariam textos assim? O grande poeta Ferreira Gullar fez uma vez, num verso, uma pergunta que a gente bem que poderia repetir, contra o cinzento da mesmice: ‘Onde escondeste o verde clarão dos dias?’. Ah, Jornalismo: onde escondeste o clarão?
Geneton, sempre amigo e solidário, acompanhou solitário o final de vida dos últimos 20 anos da víbora da reportagem. Ninguém mais frequentava aquele apartamento deserto no sexto andar de um prédio da rua Francisco Sá, em Copacabana, habitado apenas por livros, lembranças, história e Joel Silveira.
— Estou morrendo, Geneton, estou morrendo! — suspirava o velho repórter, que já não saía de casa e já não tinha amigos. Só Geneton. Joel desprezou o tratamento de um câncer na próstata para morrer em casa em 2007, na amarga mansidão de seus 88 anos. Na companhia fiel de seu último amigo.
Um dissidente
O fim melancólico de Joel Silveira, que Geneton definia como precursor do New Journalism que fez a fama de profissionais festejados como Gay Talese e Truman Capote, explica um pouco a visão cada vez mais pessimista que Geneton tinha do próprio jornalismo na atualidade.
Geneton criava, produzia, executava, editava e apresentava suas próprias reportagens naGloboNews, com a doída convicção de que, como Joel, ele se tornava uma avis rara do jornalismo, um exemplar de dinossauro condenado à extinção imposta pelo cometa brilhante da inevitável modernidade tecnológica. Geneton parecia, agora, uma víbora que já não confiava nem na peçonha de suas perguntas, por mais venenosas que fossem.
Aqui e ali, sem alarde, Geneton deixava fluir aos poucos sua melancolia, fazia vazar sua desilusão.
Na véspera do réveillon de 2010, ele publicou em seu blog uma nota sem destaque, quase escondida, sugerindo um ‘Teste para Seleção de Jornalistas’. Era uma azeda reflexão sobre o jornalismo:
“Uma sugestão aos responsáveis pelos departamentos de pessoal das empresas jornalísticas: depois de pesquisas que se arrastaram por meses, os especialistas conseguiram montar um teste infalível para seleção de candidatos a vagas nas redações. O candidato ao emprego deve ficar imóvel durante três minutos, diante de um fiscal da empresa. Se, ao final deste prazo, o candidato não latir nem relinchar deve ser sumariamente eliminado, porque não serve para a profissão jornalística. Se, no entanto, o candidato emitir latidos e relinchos terá provado que é jornalista legítimo. Deve ser imediatamente contratado. Porque mostrou estar preparado para ingressar nas redações brasileiras e produzir os jornais, revistas e programas de TV mais chatos do mundo”.
Cinco anos depois, em 24 de agosto de 2015, inspirado numa definição de Winston Churchill para a União Soviética de Stálin (“É uma charada envolvida num mistério dentro de um enigma”), Geneton voltou a filosofar com amargura em seu blog, numa nota impiedosa sob o título ‘Entrevista de Emprego’, que seria cômica, se não fosse trágica:
Se eu fosse enfrentar hoje uma entrevista de emprego e se me pedissem para dizer em trinta segundos o que penso do jornalismo, eu diria, com toda sinceridade:
“Depois de décadas na estrada, tenho a nítida, nitidíssima sensação de que, no fim das contas, como escolha profissional, o jornalismo foi um equívoco envolvido num engano dentro de um grande erro. Mas agora é tarde para voltar atrás. Bola pra frente, então! Faz de conta que é a melhor profissão do mundo! E é – para os que se descobrem tecnicamente incapazes de fazer alguma coisa que seja de fato útil ao avanço da humanidade! Nem preciso dizer que eu seria imediatamente dispensado pelo burocrata do Departamento de Recursos Humanos encarregado de selecionar os candidatos. Eu ouviria o aviso de dispensa sumária, me levantaria, cumprimentaria o dispensador e diria: ‘Parabéns! Você nunca tomou uma decisão tão acertada”‘.
Cinco anos antes, na mesma mensagem de 8 de abril de 2010 em que me agradecia pela louvação à sua ‘arte de perguntar’, o e-mail privado de Geneton traía sua desilusão já na linha seguinte, com uma inesperada autodefinição em tom de confissão:
“Pode parecer pretensão, mas acho que realmente o jornalismo se mediocrizou. O exibicionismo toma o lugar da substância, especialmente na TV. Modestamente, considero-me um dissidente’.
O dissidente Geneton Moraes Neto, meu amigo Master Asker, nosso grande Mestre Perguntador, nos deixou de repente, envolto num manto diáfano de desencanto, deixando no ar uma última pergunta, que cabe a todos nós responder:
— Por quê?
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Luiz Cláudio Cunha é jornalista, autor de Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios
1  Todos temos que lembrar. Discurso proferido na diplomação do autor com o título de ‘Notório Saber em Jornalismo’, outorgado pela Universidade de Brasília (UnB), em 9 de maio de 2011.