CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Discurso Aluna Ana Júlia na Tribuna da Assembléia (aluna secundarista)

Filme do Dia: Alguma Coisa Assim (2006), Esmir Filho




Alguma Coisa Assim (Brasil, 2006). Direção: Esmir Filho.

Curta-metragem com ritmo de videoclip e imagem granulada que descreve a ida a uma boate de um casal de namorados adolescentes, Caio e Mari, que provoca sérias dúvidas no primeiro, após ser beijado por outro homem enquanto a namorada fora ao banheiro. A tentativa relativamente bem sucedida (talvez um pouco atrapalhada pela interpretação irregular dos atores) de traduzir um universo de dúvidas usualmente associado somente com a adolescência é o que despertou a atenção da crítica para essa produção, que levou o prêmio de Melhor Roteiro em Curta-Metragem na Semana da Crítica do Festival de Cannes. 15 minutos.

domingo, 30 de outubro de 2016

Filme do Dia: Book Bargain (1937), Norman McLaren


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Book Bargain (Reino Unido, 1937). Direção: Norman McLaren.

Antes de se tornar reconhecido internacionalmente por sua originalidade como animador no Canadá, McLaren realizou documentários mais convencionais como este, que retrata minuciosamente o processo de fabricação em massa de livros. Mesmo num contexto tão avesso à experimentação e que requer tanta objetividade na descrição, endossada por sua grave narração em tom monocórdio como o que este curta foi produzido, McLaren encontra espaço para deixar sua marca. Aqui, sobretudo, no elegante uso da câmera lenta, que tanto contribui para auxiliar o que a narração comenta – deixando evidenciado processos tecnológicos  que a olho nu passam demasiado rápido – quanto provocam uma suspensão temporária em um filme de ritmo quase tão autômato quanto os processos aos quais descreve. E nessa breve suspensão, a imagem parece se tornar bela por si mesma. Provavelmente deve ter influenciado  a seqüência semelhante de descrição da produção de um jornal em Wakefield Express (1952), de Lindsay Anderson. Co-produzido pelo próprio McLaren e por Alberto Cavalcanti. GPO Film Unit. 8 minutos e 11 segundos.

sábado, 29 de outubro de 2016

Filme do Dia: Irreversível (2002), Gaspar Noé



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Irreversível (Irréversible, França, 2002). Direção e Rot. Original: Gaspar Noé. Fotografia: Benoît Debie & Gaspar Noé. Música: Thomas Bangalter. Montagem: Gaspar Noé. Dir. de arte: Alain Juteau. Figurinos: Laure Culkovic. Com: Monica Bellucci, Vincent Cassel, Albert Dupontel, Jo Prestia, Philippe Nahon, Stéphane Drout, Jean-Louis Costes, Mourad Khima.
               Marcus (Cassel) e seu amigo Pierre (Dupontel), procuram no submundo do sexo e da violência em Paris um homem conhecido como Tenia (Prestia), responsável pelo estupro de sua namorada, Alex (Bellucci), grávida dele. A investigação o  leva ao clube de sado-masoquismo gay Rectum.

               Essa incursão ao mundo do crime é um compósito do que há de pior no cinema contemporâneo: um vazio absoluto de idéias é secundarizado por efeitos moderninhos como uma montagem quase que integralmente de trás para frente e por uma violência presa de seu próprio exibicionismo voyeurista em seu tom mais sensacionalista -  como na abominável seqüência em que um homem tem sua cabeça massacrada por um extintor de incêndio ou que a protagonista é estuprada por um desconhecido em um túnel. Ou ainda uma cansativa seqüência inicial em que se percebe muito pouco da ação do protagonista na boate, glamorizando redundantemente um universo por demais já glamorizado nas telas e que poderia ter sido exibido sem qualquer outro efeito, provocando aí sim um choque pelo que apresenta de patético e banal. Para piorar tudo, procura dar um verniz intelectual recorrendo a uma citação sobre a destruição de tudo pelo tempo, que seria o mote para sua ação às avessas e fazendo inúmeras referências a Kubrick, como na utilização de sétima sinfonia de Beethoven. Porém, se em Laranja Mecânica, a violência não se encontrava dissociada da reflexão e em Pulp Fiction a violência era atrelada com um humor e inovações narrativas, aqui nem reflexão crítica ou sensibilidade narrativa, apenas a exibição de cacoetes que procuram reforçar o gratuito incômodo que pretende provocar como a seqüência final, que se utiliza do mesmo efeito de flicagem sobre a tela branca, prática usual da vanguarda do New American Cinema, na década de 1960. Uma dos elementos que se ressaltou na divulgação do filme foi o caráter de improvisação de muitas cenas e praticamente a inexistência de um roteiro – como, por exemplo, no que pretensamente foi um erro de filmagem e não uma private joke quando Vincent Cassel responde que se chama Vincent e não o nome do personagem – o que, por si só não significa nada. Godard, por exemplo, embora igualmente trabalhe sem roteiros formais, sempre deixou bem claro que já possuía uma série de idéias que eram reelaboradas a partir do momento da filmagem, o que não parece ser o caso aqui. 120 Films/Eskwad/Grandpierre/Les Cinémas de La Zone/Nord-Ouest Productions/Rossignon/Studio Canal. 95 minutos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

The Film Handbook #99: Grigori Kozintsev

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Grigori Kozintsev
Nascimeto: 22/03/1905, Kiev, Rússia
Morte: 11/05/1973, Leningrado, URSS
Carreira (como diretor): 1924-1971

Juntamente com o colaborador regular Leonid Trauberg, Grigori Kozintsev foi um dos mais criativamente versáteis dos realizadores revolucionários soviéticos. Some-se a isso a sua obra posterior, sem Trauberg, revelou-o como um mestre inigualável das adaptações da literatura.

Arrastado pela energia da Revolução de 1917, o jovem Kozintsev se envolveu com o teatro experimental, fundando com Trauberg a Fábrica do Ator Excêntrico. A dupla realizaria sua estreia no cinema em 1924 com The Advemtures of Oktyabrina/Pokhozhdeniya Oktyabrini (hoje perdido), no qual slogans propagandísticos e uma montagem elíptica supostamente narrava uma história dinâmica e fragmentada da luta determinada e triunfante de uma garota contra o capitalismo. Indicativo de seus métodos é o sobrevivente The Devil's Wheel/Chyortovo Koleso>1, que elabora sua mensagem moral - um chamado para a remoção de uma área de cortiços em Leningrado - dentro do andamento das aventuras de um marinheiro que, perdendo seu barco após se apaixonar por uma garota em uma feira, encontra-se imerso em um submundo sombrio de tipos criminosos grotescos. As caracterizações ágeis e vibrantes do filme e seu deleite em virtuosos efeitos especiais retornam em The Cloak/Shinel (baseado em dois contos de Gogol) e The New Babylon/Novvy Vavilon>2, uma narrativa da queda da Comuna de Paris em 1870, observada pelos olhos militantes de uma vendedora em uma loja de departamentos. O último, claramente inspirado pela revolução de 1905, mescla engenhosidade sardônica com drama heróico, e observa a dupla no auge de suas forças, trabalhando com uma equipe grandemente simpática: o câmera Andrei Moskvin, o cenógrafo Yevgeni Yenei e o brilhante compositor jovem Dimitri Shostakovich, que continuaria a trabalhar com Kozintsev até o final de sua carreira.

Em 1931 Kozintsev e Trauberg realizaram seu primeiro filme sonoro, Alone/Odna, sobre uma professora aprendendo a admirar uma nova vida em uma província enevoada. Seus melhores filmes sonoros, no entanto, foram os que compõem a Trilogia de Maximo>3 (The Youth of Maxim/Yuonost Maksima, The Return of Maxim/Vozvrashchenie Maksima e The Vyborg Side/Vyborgskaya Storona), que delinearam, em detalhes humorísticos pouco comuns, a gradual gênese do herói revolucionário de 1910 a 1918. Apesar de sua dimensão épica, o que mais impressiona é sua concepção pouco romântica de um decididamente comum Maximo (tornado político por acaso), uma refrescante alternativa não didática às ideologias  manipulativas e ortodoxas do realismo socialista.

Após um último filme juntos, Plain People/Prostye Lyudi uma história da fuga da guerra dos trabalhadores de uma fábrica, banido até 1956, quando foi remontado em uma versão que Kozintsev renegou, Trauberg e Kozintsev seguiram trajetórias distintas, no caso do último para uma bem sucedida carreira individual. Após duas biografias de Stálin tidas como sóbrias, ele embarcou rumo a três adaptações literárias, exemplares por sua reinterpretação sutil e sensível de textos conhecidamente difíceis. Dom Quixote/Don Kikhot é uma maravilhosa façanha de condensação, um tocante retrato da ingenuidade e idealismo do cavaleiro de Cervantes trazido à vida pela interpretação respeitável de Nikolai Cherkassov e o magistral trabalho de câmera em tela larga; Hamlet/Gamlet teve como sua fonte de inspiração a noção da Dinamarca enquanto prisão e, através da tradução poética de Pasternak, oferece um hipnótico retrato de um inconformista destruído por um mundo rígido e hostil; enquanto King Lear/Karol Lir.4, torna-se uma tragédia universal mais que pessoal, assim como uma narrativa de redenção: em sua loucura, o uma vez arrogante monarca finalmente assume sua posição certeira dentre as vítimas mutiladas e imperfeitas de uma sociedade feudal cruel. Lear é uma leitura marxista e profundamente humana da obra-prima de Shakespeare. Num estilo visual criativo e poderoso do texto poético, sua atmosfera meditativa é facilmente transposta por seu trabalho de câmera acinzentado que captura as sombrias charnecas varridas pelo vento e inóspitas planícies rochosas.

Até o final, Kozintsev permaneceu um artista de rara energia e invenção, raramente permitindo que propósitos ideológicos ditassem a forma ou o conteúdo de suas obras. Se muitos de seus filmes abordam temas políticos, isso não o faz negar seu fascínio por personagens vibrantes e críveis, nem seu senso de humor ou desejo de fazer uso das qualidades visuais do meio escolhido em sua completude.

Cronologia
Influenciado por Maiakovski, Meyerhold e Eisenstein, Kozintsev e Trauberg podem ser vistos como parte de um movimento excêntrico russo que incluía Lev Kulechov e Boris Barnet. Entre os colegas dos primeiros anos também se encontravam Sergei Yutkevich e Sergei Gerasimov.

Leituras Futuras
Kino (Londres, 1960), de Jay Leyda.

Destaques
1. The Devil's Wheel, URSS, 1926 c/Pyotr Sobolevsky, Lyudmila Semyenova, Gerasimov

2. The New Babylon, URSS, 1929 c/Yelena Kuzmina, Pyotr Sobolenski, Gerasimov

3. A Trilogia de Maximo, URSS, 1935/37/39 c/Boris Chirkov, Valentina Kibardina

4. King Lear, URSS, 1971 c/Yuri Yarvet, Oleg Dal, Elsa Radzinya

Texto. Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 151-2

Filme do Dia: Guerra de Canudos (1997), Sérgio Rezende


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Guerra de Canudos (Brasil, 1997). Direção: Sérgio Rezende. Rot.Original: Paulo Halm&Sérgio Rezende. Fotografia: Antônio Luiz Mendes. Música: Edu Lobo. Montagem: Isabelle Rathery. Com: Cláudia Abreu, Selton Mello, Paulo Betti, Marieta Severo, José de Abreu, José Wilker, Tonico Pereira, Dandara Ohana Guerra.
             A Jovem Luíza (Abreu) abandona sua família quando esta decide seguir o grupo de Antônio Conselheiro (Wilker), que vai fundar uma comunidade regida por seu domínio carismático. Vai parar em uma cidade, onde torna-se prostituta e desperta a paixão de um militar da primeira das expedições fracassadas a Canudos e que vai viver próximo a região. Refugiando-se da humilhante segunda batalha, um grupo de soldados quase chega a assassinar o casal, sendo impedidos por um tenente idealista (Mello), que o recruta para a terceira expedição, que será liderada por um famoso militar, General Arthur Oscar (Abreu), que tem fama de sanguinário e cortador de cabeças. Incorpora-se a expedição um jornalista de guerra, que nos momentos de paz faz às vezes de fotógrafo. O marido de Luiza morrerá em ato de bravura, enquanto a jovem volta às práticas da prostituição, ainda que o tenente tenha procurado dissimulá-la com sua paixão. Entre a cruz e a espada, a jovem retorna a Canudos e encontra sua família em situação de penúria extrema e sabe da morte do irmão em combate. Revolta-se contra seu pai (Betti) por não querer abandonar a cidade. Após muitas batalhas, e a morte de Conselheiro, os oficiais destroem a comunidade e assassinam sua mãe à sangue-frio, matando seu pai no último conflito. Resta a Luiza refazer a vida com a irmã Teresa (Guerra), a quem prometera não abandonar.
Superprodução que tem como pontos positivos um contato saudável com o grande público e um bem cuidado trabalho de cenografia e fotografia, e alguns belos close-ups, além de momentos isolados em que consegue desenvolver os conflitos dramáticos e de outros em que surge uma inesperada veia cômica, como quando o tenente descobre da pior forma possível que o coronel (Pereira) que lidera a primeira invasão, sofre de epilepsia. Como pontos negativos uma mal acabada trilha sonora, fraca e desigual direção de atores e, pior, desestimulante e esquemático roteiro, que muitas vezes se concede um maniqueísmo fácil através de personagens “historicamente corretas” como a do jornalista ou ainda quando tenta se libertar dos clichês sobre Canudos, como dos monarquistas contra a República - como no momento de dúvida do mesmo jornalista que já se encontra há três anos na região -e apenas os reafirma como uma exceção. Entre as interpretações sofríveis e não menos esquemáticas se encontram a do líder do exército da última expedição vivido por Abreu e a do próprio Conselheiro. Buscando o meio termo entre o mero entretenimento e a preocupação em apresentar fatos históricos, o filme não atinge o que seus congêneres apresentam, seja a coreografia da violência mais bem acabada dos filmes americanos ou a presença de espírito e o sofisticado trabalho de direção de atores dos filmes europeus que também mesclam temática histórica à entretenimento como Caindo no Rídiculo e Rainha Margot. Sua maior fraqueza: a falta de autenticidade e de aprofundamento nos conflitos, como a que se consegue captar em certos momentos de filmes como  Sertão das Memórias, que é tomada aqui como mera busca da verossimilhança e do realismo no seu sentido mais chão, já que a própria esquematicidade do roteiro - como no exemplo-mor da garota que abandona à família e no seu primeiro contato na cidade já dá de cara com a dona de um bordel - compromete até mesmo esta. De qualquer forma, uma tentativa que não deve ser desprezada de todo. Morena Filmes/Sony Corporation of América/Columbia Pictures Television Trading/Riofilme/Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/Secretaria Municipal da Cultura. 170 minutos.


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Filme do Dia: Um Estranho na Escuridão (1946), Frank Launder


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Um Estranho na Escuridão (I See a Dark Stranger, Reino Unido, 1946). Direção: Frank Launder. Rot. Original: Sidney Gilliat, Wolfgang Wilhelm, Liam Redmond & Frank Launder, sob argumento do ultimo. Fotografia: Wilikie Cooper. Música: William Alwyn. Montagem: Thelma Connel. Dir. de arte: David Rawnsley & Norman G. Arnold. Figurinos: Joy Ricardo. Com: Deborah Kerr, Trevor Howard, Raymond Huntley, Michael Howard, Norman Shelley, Liam Redmond, Brefni O´Rorke, James Harcourt.
1944. Bridie Quilty (Kerr) é uma jovem irlandesa que, bastante influenciada pelas fantasias românticas do pai já falecido, no aniversário de seus 21 anos, pretende se unir ao Exército Republicano Irlandês. Desencorajada por um veterano, ela vai trabalhar em um pub onde se vê envolvida com um espião alemão, J. Miller (Huntley). Em sua ingenuidade, Bridie acredita que suas ações secretas afetam apenas a Inglaterra. Um oficial britânico, David Baynes (Howard), no entanto, apaixona-se perdidamente por ela e passa a seguir seus passos. Cada vez mais nervosa, Bridie testemunha a morte de J. Miller e tem que se desfazer do cadáver e fazer os contatos necessários que atrapalharão o plano do desembarque na Normandia das forças aliadas. Ao tomar consciência de seus erros, Bridie se rende aos encantos de Baynes.

Filme que faz uso de muitos dos recursos do cinema noir americano (fotografia bastante contrastada em preto & branco destacando as sombras, enredo rocambolesco) com fins de se tornar veículo para um tom de propaganda política bastante evidente, reminiscente dos anos de guerra recém-findos. Nesse sentido, todas as querelas internas que envolvem os países do Reino Unido, notadamente a animosidade entre os irlandeses católicos e os protestantes ingleses são motivo de condescendente humor que não vai além de pichações contra a estátua de Cromwell, um cortejo fúnebre em que o caixão não passa de camuflagem para as bombas terroristas do IRA ou uma lua-de-mel interrompida bruscamente. O conflito que ganha proporções sério-dramáticas de verdadeiro antagonismo é contra os alemães, ainda que não seja feita nenhuma referência direta ao nazismo (ao contrário, por exemplo, do contemporâneo O Estranho, de Welles). A paz entre a Irlanda e a Inglaterra é selada explicitamente ao final quando Bridie supera boa parte de seus preconceitos contra os ingleses se unindo a Baynes. É notável alguns saltos bruscos dentro da narrativa, bastante incomuns no cinema contemporâneo, como o momento que apresenta Bridie já inserida na realidade de trabalhadora de um pub. Kerr, recente estrela do cinema britânico, ganhará ainda maior notoriedade com sua participação no bem mais interessante Narciso Negro, filme que realizou logo a seguir  e imediatamente depois partindo para carreira nos Estados Unidos. Launder fora roteirista para Carol Reed, portanto não se trata de coincidência a similaridade com alguns enredos dos filmes dirigidos por Reed.  Individual Pictures para GFD. 112 minutos.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Menino Bonito - Rita Lee

Filme do Dia: Raymundo (2003), Ernesto Ardito & Virna Molina


Raymundo: The Revolutionary Filmmaker's Struggle

Raymundo (Argentina, 2003). Direção,  Rot. Original e Montagem: Ernesto Ardito & Virna Molina. Fotografia: Ernesto Ardito, Virna Molina & Sebastián Díaz.

Documentário que apresenta a trajetória pessoal e, sobretudo, profissional de Raymundo Gleyzer, cineasta radical que se tornará desaparecido político do regime ditatorial argentino em 1976. Talvez poucas personagens do cinema se confundam tanto com os eventos políticos vividos não somente por seu país, quanto da própria América Latina em uma década de efervescência quanto Gleyzer. Igualmente na Argentina é um dos câmeras do clássico La hora de Los Hornos. Das virgens de imagens argentinas Malvinas, ou melhor, Falklands, de domínio britânico à Cuba pós-Fidel que recebe um jornalista argentino (Gleyzer) pela primeira vez em três anos. Para não falar do Brasil, onde Gleyzer praticamente inicia sua carreira com filme que é interrompido com o golpe militar de 1964 ou o Chile de Allende, assim como do México da Revolução dos idos do século XX, tema de um dos filmes de Gleyzer. Algo como um Che Guevara do documentário, Gleyzer consegue o improvável, a partir de seu carisma, como flagrar cenas do cotidiano de um casal britânico nas Malvinas. O documentário de Ardito & Molina faz uso de generosos trechos seja de filmes do realizador, de filmes semelhantes produzidos na Argentina, cinejornais do período ou filmagens de bastidores. O áudio  dos relativamente poucos depoentes muitas vezes são flagrados a partir de tais imagens. Por vezes tais interferências sonoras demonstram ser um desserviço para com a própria obra do homenageado. Trata-se, exemplo mais clamoroso, de uma longa sequência, em Nuestras Islas Malvinas, que flagra o cotidiano da comunidade britânica, ao qual os documentaristas sobrepõem na banda sonora Piggies, dos Beatles, numa ausência de sutileza que se contrapõe ao talento de Gleyzer, cujas imagens, dada a sua ambiguidade, podem ser lidas tanto enquanto mera crônica de uma realidade quanto irônicas, mas sem nunca afetar ou agredir individualmente seus fotografados, como aqui posto, inclusive no mau gosto de associar as imagens das crianças com as dos “porquinhos” aos quais faz referência a canção. Uma coisa é que tal sugestão brote da própria sequência de imagens. Outra bem diversa é já propor antecipadamente de bandeja como tais imagens “devem ser lidas”, reduzindo-as à mera ilustração de uma idéia de dominação que associa referências que vão além da música (A Revolução dos Bichos, de Orwell, por exemplo). A narração que faz as vezes do próprio cineasta, a partir de anotações suas, é feita por seu filho Diego. E acompanha o contexto político argentino com a mesma ou maior atenção, sobretudo da metade ao final, que a trajetória do próprio Gleyzer.  O retorno de Peron à Argentina, inicialmente saudado como o fim da repressão, logo demonstra ser uma continuidade/conivência com a repressão e logo após sua morte, o governo de Isabelita é destituído e o país vivencia o verdadeiro caos. Raymundo é sequestrado e morto então, ao sair de uma entidade associada aos realizadores cinematográficos. Ao final, o filme inevitavelmente se torna demasiado emocional, com discursos emocionados como o da norte-americana filha do homem que abrigou a mulher de Gleyzer e seu filho no exílio nova-iorquino. 127 minutos.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Filme do Dia: Harvie Krumpet (2003), Adam Eliott





Harvie Krumpet (Austrália, 2003). Direção, Rot. Original e Fotografia: Adam Elliot. Montagem: Bill Murphy.
                 Harvie é um imigrante polonês (nascido em 1922) na Austrália, após a morte dos pais e destituído de qualquer habilidade especial. Seu retardamento não o impede de se apaixonar pela enfermeira que o tratou no hospital, após a retirada de um de seus testículos. Infértil, a decisão é de adotar  uma menina, que se forma advogada e vai morar nos Estados Unidos. Quando preparava o aniversário de 16 anos da filha, a esposa de Harvie falece. Sozinho no mundo, ele passa a viver em um asilo e decide pelo suicídio. Porém, novidades o aguardam.
Fundamental para o sucesso dessa animação em massinha vencedora do Oscar em sua categoria é o modo irônico e distanciado, mas nem por isso desapaixonado, com o qual narra a melancólica trajetória de vida de seu protagonista, através da voz off (do ator Geoffrey Rush), assim como o senso de detalhe que se atêm  as excentricidades do personagem mas igualmente a curiosidades sem qualquer relevância maior para o que é narrado – como o fato de Harvie admirar os filmes de Busby Berkeley. Apesar de todos os detalhes pouco agradáveis da trajetória pessoal de Harvie ao qual temos acesso em nenhum momento o realizador apela para um sentimentalismo ou paternalismo fáceis, ao contrário, por exemplo, do filme protagonizado por Rush que provavelmente o levou a ser convidado a ser narrador aqui, Shine (1996), demonstrando, portanto, um maior senso de dignidade para com seu personagem. Eliott aprimora aqui o estilo que já havia demonstrado na sua trilogia, a exemplo de Cousin (1998).Melodrama Pictures. 23 minutos.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Filme do Dia: A Grande Esperança (1954), Dulio Coletti


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A Grande Esperança (La Grande Speranza, Itália, 1954). Direção: Duilio Coletti. Rot. Adaptado: Oreste Biancoli, Marc-Antonio Bragadin, Duilio Coletti & Ennio De Concini, baseado no livro de Marc-Antonio Brigadin. Fotografia: Leonida Barboni. Música: Nino Rota. Montagem: Giuliana Attenni. Com: Renato Baldini, Lois Maxwell, Carlo Bellini, Aldo Bufi Landi, Carlo Delle Piane, Edward Fleming, Earl Cameron, Folco Lulli, Henri Vidon.
Submarino na Segunda Guerra Mundial auxilia no ataque e recolhe as eventuais vítimas de seus ataques. Após terem recebido um grupo menor, do qual faz parte a tenente britânica Lily Donald (Maxwell), que inclui o saudoso negro americano Johnny Brown (Cameron), o divertido italiano Nostromo (Lulli), membro da tripulação e o escritor Robert Steiner (Vidon), que Donald havia lido um romance seu, assim como seu compassivo comandante (Baldini). Logo após, o submarino fica lotado com o resgate de 24 holandeses. Seu objetivo é levá-los ao porto neutro de Santa Maria, em Açores.
Se o tema da confraternização entre membros de nacionalidades distintas gerou momentos memoráveis no clássico A Grande Ilusão, de Renoir, habitualmente, no dia-a-dia da produção mediana gerou muito mais equívocos sentimentais como é o caso desse filme particularmente. O filme patina em sua própria inocuidade das cartelas iniciais, que buscam capitalizar de forma oportunista com a própria história, através de uma dedicatória do filme aos mais de 90 submarinos italianos que combateram na Segunda Guerra (detalhe: o filme é dedicado aos submarinos e não aos homens que neles combateram, o que não deixa de ser contraditório com a proposta aparentemente humanista do filme) até o momento final. Com sua trilha igualmente melosa, composta pelo mesmo Rota que fará seu nome com Fellini, apóia-se na “lógica dos sentimentos”, única possível, por exemplo, para explicar o porquê dos 24 recém-salvos prisioneiros de guerra não se rebelarem para dividir um espaço mais digno dentro do submarino e se contentarem passivamente em rezar mesmo sob a iminência de morrerem afogados com a imersão do mesmo. Ou ainda a patética cena de confraternização natalina, cuja densidade é tão frágil quanto a própria árvore de natal jogada ao chão, logo quando o primeiro chamado para o retorno as operações militares se sucede, demonstrando igualmente o quanto tudo se encontra servil apenas a sua lógica narrativa, por sinal bastante fraca. Deve-se ter em conta que mesmo com toda as sofríveis interpretações e enredo, o filme foi uma produção certamente acima do padrão convencional do cinema italiano do período, algo perceptível até pelo uso das cores, algo considerado como luxo então.  Prêmio OCIC no Festival de Berlim. Excelsa Film. 90 minutos.


domingo, 23 de outubro de 2016

Filme do Dia: A Invasão Secreta (1964), Roger Corman

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A Invasão Secreta (The Secret Invasion, EUA, 1964). Direção: Roger Corman. Rot. Original: R. Wright Campbell. Fotografia: Arthur E. Arling. Música: Hugo Friedhofer. Montagem: Ronald Sinclair. Dir. de arte: John Murray. Cenografia: Ian Love. Com: Stewart Granger, Raf Vallone, Mickey Rooney, Edd Byrnes, Henry Silva, Mia Massini, William Campbell, Enzo Fiermonte.
           Na Segunda Guerra, o Major britânico Richard Mace (Granger) reúne um grupo de presidiários com o intuito de uma missão suicida: libertar o líder da resistência italiana Jacop Quadri das mãos dos alemães na fortaleza iuguslava de Dubrovnik. Após tomarem um navio alemão, eles conseguem chegar à Iuguslávia, onde fazem contatos com a resistência. Alia-se ao grupo a jovem nativa Mila (Massini), que perde o filho recém-nascido, quando um dos homens da expedição, John Durell (Silva) acidentalmente o sufoca para que ele não chore e alerte os soldados nazistas. Acuados no cemitério onde cavavam um túnel que daria acesso à fortaleza, eles se rendem. Torturados, ainda assim não revelam a intenção do plano, conseguindo fugir e libertando igualmente o General Quadri (Fiermonte). Porém, depois de algumas baixas, entre elas a de Mace que, moribundo, passa a liderança a Rocca e de retornarem ao vilarejo, descobrem que o verdadeiro Quadri foi morto pelos nazistas. Tentam utilizar o alemão travestido de Quadri como o próprio líder, mas esse é assassinado por Durell, que se faz passar por nazista e é morto pela multidão.

           Realizado entre seus mais famosos filmes de terror em que adaptava a literatura de Allan Poe, Corman em mais uma de suas modestas produções e, ao contrário de sua produção de terror, sem quaisquer méritos. Do roteiro inverossímil às atuações canhestras, passando por tentativas de dramatização que redundam em um humor involuntário – seja na cena da morte da criança ou na que Mace afirma que essa missão é para lavar a honra do irmão morto e todos afirmam que agora essa missão é coletiva – tudo soa demasiado ingênuo e superficial para ser minimamente convincente. Principalmente a lealdade dos aventureiros que nunca, mesmo sob a iminente morte, questionam o papel em uma missão que para eles não possui nenhum significado moral maior. Para piorar tudo, o senso de ritmo do filme se perde completo nas arrastadas sequências finais que, a exceção dos planos finais em que inúmeros cadáveres rondam o personagem de um abatido Rocca como em um comentário subliminar sobre o absurdo da guerra, são grandemente dispensáveis. O cerne do argumento será igualmente o tema do mais bem sucedido Os Doze Condenados (1967), de Aldrich. American International Pictures/San Carlos Productions, distribuído pela United Artists. 98 minutos.

sábado, 22 de outubro de 2016

Filme do Dia: Preso na Escuridão (1997), Alejandro Amenábar


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Preso na Escuridão (Abre los Ojos, Espanha/França/Itália, 1997). Direção: Alejandro Amenábar. Rot. Original: Alejandro Amenábar & Mateo Gil. Fotografia: Hans Burman. Música: Alejandro Amenábar & Mariano Marin. Montagem: Maria Elena Sáinz de Rosas. Dir. de arte: Wolfgang Burmann. Cenografia: Carola Angulo & Ramón Moya. Figurinos: Concha Solera. Com: Eduardo Noriega, Pénelope Cruz, Chete Lera, Féle Martínez, Najwa Ninri, Gérard Barray, Jorge de Juan, Miguel Palenzuela.
César (Noriega) é um rapaz atraente e vaidoso que se vangloria de nunca repetir uma mesma garota na cama. Certa noite, no entanto, apaixona-se perdidamente por Sofia (Cruz), que seu melhor amigo, Pelayo (Martínez), traz a uma festa. Uma garota, Nuria (Nimri), que esteve com ele recentemente o persegue de forma obsessiva e quando ele sai do apartamento de Sofia, convida-o a entrar em seu carro e provoca um acidente que lhe transfigura o rosto. César, no entanto, encontra-se em um manicômio judiciário por ter assassinado uma garota, de nome Sofia, mas que ele reconhece como Nuria e é constantemente interrogado por um psiquiatra, Antonio (Lera), que pretende desvendar o enigma. Para César, tudo não passa de uma armação de uma companhia que cria mundos imaginários a partir dos sonhos de seus clientes.
O filme de Amenábar, um dos pioneiros e mais bem sucedidos exemplos de filmes cujos narrativas são construídas a partir de “jogos mentais”, não evidencia ao final a possibilidade exata que pode ser compreendida por seu espectador (elaborações de um paciente com transtornos esquizofrênicos? Meros pesadelos? Implicações de uma conspiração mais ampla como pensada por seu protagonista?). Apesar de sua virtuosidade narrativa, dois elementos depõem contra um resultado final mais satisfatório. Primeiro, existe um hiato entre o universo atmosférico criado para representar a subjetividade (objetividade?) vivida por seu protagonista e as situações bem mais prosaicas, senão mesmo clichês apresentadas de forma não mais que regular por seu elenco (o que poderia aproximá-lo talvez de um filme como A Mosca). Depois, o filme pretende engajar o espectador em seu universo labiríntico entre o que seria objetivo ou subjetivo distorcido por uma mente com problemas, a partir sobretudo de sua montagem, sobrando muito pouco para qualquer tipo de engajamento mais efetivo do espectador para com as situações vivenciadas por seu personagem principal. Além das evidentes alusões a clássicos como O Fantasma da Ópera, o filme também remete a outras produções com os quais tem sido menos associado, como Esse Obscuro Objeto do Desejo, a partir de seu uso peculiar de duas atrizes bem diferentes aparentemente vivendo um mesmo personagem. Sua evidente originalidade deve ser contextualizada dentro de uma perspectiva que vem apontar traços de novidade ao panorama do cinema industrial instituído, e que acabará se comprovando como produtivo nos anos subsequentes tanto para produções de maior apelo comercial (Clube da Luta, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, etc.) como para uma certe vertente da produção autoral sobretudo asiática, pode ser evocativa, talvez, do ciclo de filmes psicanalíticos que surgiu em Hollywood em meados dos anos 1940. Cruz reviveria a mesma personagem na versão americana do filme, Vanilla Sky. Canal + España/Les Produccions del Escorpión/Les Films Alain Sarde/Lucky Red/Sogetel para Sogepaque Distribución. 117 minutos.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

The Film Handbook#98: Richard Attenborough

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Richard Attenborough
Nascimento: 29/08/1923, Cambridge, Inglaterra
Carreira (como diretor): 1969-

Existe um ar hipócrita para os filmes de Sir Richard Samuel Attenborough: o desejo mais honesto é que sejam vistos por terem sido feitos. A despeito da publicidade dada aos vinte anos que levou para realizar Gandhi, obra pela qual foi sagrado cavaleiro em 1976 pode, como um todo, ser observada como inexistindo um genuíno compromisso.

Como foi que, aos quarenta anos, o ator treinado na Academia Real de Arte Dramática (ARAD), cuja carreira prévia destacava tantos soldados corajosos realizaria sua estreia na direção com Oh! Que Bela Guerra>1? Sua adaptação da peça musical de Joan Littlewood foi incoerente e repleta de pontas de atores teatrais britânicos. De fato, é tentador observar Attenborough como algo de oportunista; como poderia ter seguido o pretenso filme radical com o patriotismo de As Garras do Leão/Young Winston - uma pesada fotografia em sépia repleto de psicologia folhetinesca, localizando a grandeza de Churchill numa infância infeliz - e os heróis rotineiros de Uma Ponte Longe Demais/A Bridge Too Far?

Um thriller maçante e nada original sobre o poder mortal de jogos entre um ventríloquo e seu boneco, Um Passe de Mágica/Magic  foi menos auto-conscientemente épico que seus filmes anteriores, mas Gandhi>2 foi qualificado como um tour de force. Embora as montanhas intermináveis de extras comprovem a sua habilidade em dirigir multidões, o filme foi estranhamente raso, uma mentirosa e reverente hagiografia com pouca visão tanto da sublime mente serena do herói quanto da complexa realidade da história e política indianas. Então, após o lastimável e digno de esquecimento Chorus Line - Em Busca da Fama/A Chorus Line, ele realizaria uma futura tentativa mal sucedida de realização política com Um Grito de Liberdade/Cry Freedon>3. Perversamente focando menos no ativista negro sul-africano Steve Biko que na perseguição do jornalista branco Donald Woods (o próprio porta-voz substituto do realizador para a causa anti-apartheid), ele mais uma vez volta às costa à análise ideológica por sermões respeitáveis e cenários visualmente espetaculares tais como o do Massacre de Soweto.

Como diretor, Attenborough, parece excessivamente ambicioso; seus planos de realizar um filme sobre Chaplin parecem peculiarmente apropriados. Ele parece inclinado a ressaltar sua sinceridade se dirigindo a Grandes Temas, mas parece igualmente não possuir o rigor intelectual e seriedade artística para produzir nada mais que painéis simplórios de exaltação de heróis. De fato, suas melhores criações não são seus épicos indiano e sul-africano, mas dois admiravelmente plausíveis retratos da maldade; suas performances como o chefe da gangue Pinkie de  Graham Greene em O Pior dos Pecados/Brighton Rock de John Boulting, assim como o assassino serial-sexual Reginald John Christie em O Estrangulador de Rillington Place/10 Rillington Place de Richard Fleischer.

Cronologia
Attenborough é produto de uma corrente de realismo social britânico que se leva demasiado a sério. Tanto David Lean quanto Byron Forbes (frequente colaborador de Attenborough) podem tê-lo influenciado.

Leituras Futuras
Richard Attenborouogh (Londres, 1984), de David Castle

Destaques
1. Oh! Que Bela Guerra, Reino Unido, 1969 c/Laurence Olivier, John Mills, John Guielgud

2. Gandhi, Reino Unido, 1982 c/Ben Kingsley, Martin Sheen, Candice Bergen

3. Um Grito de Liberdade, Reino Unido, 1987 c/Kevin Kline, Denzel Washington, Penelope Wilton

Fonte: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 19.

Filme do Dia: A Noite Tem Mil Olhos (1948), John Farrow


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A Noite Tem Mil Olhos (Night Has a Thousand Eyes, EUA, 1948). Direção: John Farrow. Rot. Adaptado: Barré Lyndon &  Jonathan Latimer, baseado no romance de   Cornell Woolrich. Fotografia: John F. Seitz. Música: Victor Young. Dir. de arte: Franz Bachelin & Hans Dreier. Figurinos: Edith Head. Com: Edward G. Robinson, Gail Russell, John Lund, Virginia Bruce, William Demarest
             John Triton (Robinson) é um pretidigitador em espetáculos menores até o momento em que descobre que possui realmente poderes premonitórios. Assustado e infeliz com a maioria de suas visões, em que prevê da morte de um garoto jornaleiro (Nokes) a morte da própria noiva de parto, Jenny (Bruce), afasta-se do mundo social. Jenny casa-se com o melhor amigo de ambos, Whitney Courtland (Cowan), que havia enriquecido a partir das previsões de Triton. Depois de mais de 15 anos afastado de todos, Triton procura reencontrar Whitney em sua mansão, porém sabe por sua filha Jean (Russell), que ele se encontra prestes a empreender uma viagem de avião transatlântica. Prevendo a morte do amigo, Triton deixa Jean assustada e seu noivo Peter (Webb) intrigado. Whitney realmente morre e, para piorar tudo, Jean adivinha que Triton prevera a morte dela própria para menos de uma semana, as 11 da noite, onde ele também percebia as pegadas de um leão, uma flor machucada e vidro quebrado. Anteriormente ele previra seu suicídio, sendo ela salva no último momento pelo noivo. Todos os elementos secundários da visão de Triton se concretizam. Porém Triton se encontra preso na polícia, suspeito de ter praticado os crimes que previa, afirmando ser o único que possui condições de salvar a vida de Jean. Um leão foragido é dado como circulando pelo bairro e todos na casa permanecem em alvoroço. Porém o leão é capturado e a promessa não se concretiza as 11, já que um ex-funcionário da família, interessado na morte de Jean, atrasa o relógio da sala. Livre da tensão, Jean se dirige sozinha ao jardim. Quando se encontra em vias de ser morta com um leão de pedra do jardim, Triton, que havia conseguido convencer os policiais de ir até a residência dos Courtlands aparece e a salva, não conseguindo escapar da própria morte como também previra.

Essa boa adaptação de Woolrich, fonte inesgotável para o cinema com sua literatura policial (presente tanto no cinema clássico americano como em adaptações para o universo autoral de cineastas tão diversos quanto Claude Chabrol, Fassbinder, Truffaut e Almodóvar), consegue unir ao tradicional suspense do gênero noir um certo tom barroco e derramado no seu enfoque do sobrenatural, que nada fica há dever ao universo de um H.P.Lovercraft. Quem pretender compreendê-lo pela via do realismo certamente ficará desapontado com a infalibilidade das visões do protagonista, assim como sua riqueza de detalhes. Quem, no entanto, compactuar com sua trama como acompanha um bom conto fantástico, não ficará decepcionado. Um dos trunfos da narrativa, sem dúvida alguma, é a ironia de fazer com que justamente um prestidigitador fracassado, que nunca levara a sério sua profissão, descubra a si próprio como um autêntico visionário. Paramount Pictures.  80 minutos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Filme do Dia: O Ladrão de Bagdá (1940), de Michael Powell, Ludwig Berger & Tim Whelan


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O Ladrão de Bagdá (The Thief of Bagdad, Reino Unido, 1940). Direção: Michael Powell, Ludwig Berger & Tim Whelan. Rot. Original: Lajos Biró & Miles Malleson, a partir do argument de MIklós Rózsa. Fotografia: George Perinal. Música: Miklós Rózsa. Montagem: Charles Crichton. Dir. de arte: Vincent Korda. Figurinos: John Armstrong, Oliver Messel & Marcel Vertès. Com: John Justin, June Duprez, Sabu, Conrad Veidt, Rex Ingram, Miles Malleson, Morton Selten, Mary Morris.
Tendo sido expulso de Bagdá, pelo malévolo Jaffar (Veidt), o Rei Ahmad (Justin), agora cego, conta suas aventuras de quando havia encantado  a bela Princesa (Duprez), provocando a ira de Jaffar. No calabouço, juntamente com Abu (Sabu), que havia sido preso roubando no mercado, eles unem suas forças, conseguem fugir e viver uma série de aventuras que envolvem um gênio numa garrafa, um cavalo alado, um templo secreto onde Abu terá notícias de onde anda Ahmad. Após encontrá-lo em meio ao deserto, com a ajuda do gênio voador, por descuido, Abu deseja que Ahmad estivesse em Bagdá  e esse é o último de seus três desejos, ficando o gênio liberto. Ahmad, em Bagdá, surpreende Jaffar, que havia conseguido extrair a memória da Princesa. Desesperado em meio ao deserto, Abu quebra a pedra mágica que consegue visualizar o que se deseja e sua destruição o leva a um reino mágico, uma comunidade de velhos, liderada por um Velho Rei (Selten), que somente retornariam à vida com a chegada de um jovem, no caso Abu, considerado como sucessor do reino.

Essa produção, curiosa em termos de se tratar de um grande investimento em um gênero – fantasia – considerado quase sempre, com raras exceções como O Mágico de Oz (1939), menor em Hollywood, transforma-se numa extravagante e ao mesmo inteligente incursão pelo universo associado a mítica Bagdá de Ali Babá e os 40 Ladrões. Para tanto conta com sua bela e estilizada cenografia, efeitos especiais e visuais bem razoáveis para a época, uma fotografia deslumbrantemente irreal e um universo de conto de fadas, narrado de forma sagaz, incorporando deixas do próprio roteiro – a pedra mágica que se visualiza quem muito se quer ver, por exemplo – para fazer com que a narrativa avance, mudando espacialmente igualmente o âmbito da mesma. A cenografia é um caso à parte, tornando crível o ambiente apresentado justamente por ser tão fantasiosa. Existem achados talvez menos interessantes ou mais fáceis para situações aparentemente sem solução, como a súbita aparição de um reino mágico que salva a situação calamitosa do companheiro do herói, Abu - vivido pelo menino-prodígio Sabu, descoberto por Flaherty 3 anos antes, vivendo então o auge de sua merecida e relativamente meteórica fama -  mas numa licença narrativa nada incomum no gênero. Mais importante é o modo em que entrelaça o próprio ato de narrar de forma incomumente inteligente e faz-nos refletir sobre as relações tênues entre realidade e fantasia, ou melhor dizendo, da força da fantasia como também parte do real ao ponto de nos perdermos entre o que está sendo narrado e sua história-moldura e sobre o que vem antes ou depois numa história que parece apontar para uma dimensão um tanto cíclica, algo evocativo da própria As 1001 Noites. E também seus engenhosos e algumas vezes poéticos diálogos, demonstrando uma força que prescinde de cenas de lutas excessivas, sendo que somente em um determinado momento se observa Sabu desferindo um corte sobre o rosto de um nativo devidamente produzido como negro. Numa das sequencias iniciais, por exemplo, em que é perseguido no mercado por um batalhão de pessoas, extrai-se um efeito muito mais humorístico que propriamente de violência da agilidade do ator.  Há uma carga de fascínio e erotismo implícita igualmente, algo nada incomum na filmografia de Powell, aqui ainda sem a companhia de seu duradouro parceiro Emeric Pressburger. Paralelos evidentes podem ser traçados com a produção de mais de sete décadas após As Aventuras de Pi, ambas mega-produções de aventuras, repletas de efeitos visuais-especiais e evocando de forma inteligente o próprio ato de narrar. Os irmãos Alexander e Zoltan Korda, assim como William Cameron Menzies também dirigiram sequencias, ainda que não tenha sido créditos no final. London Film Prod. para United Artists. 106 minutos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Filme do Dia: The Invaders (1912), Thomas H. Ince & Francis Ford

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The Invaders (EUA, 1912). Direção: Thomas H. Ince & Francis Ford. Rot. Original: C. Gardner Sullivan. Fotografia: Ray C. Smallwood.  Com: Francis Ford, Ethel Grandin, William Eagle Shirt, Ann Little, Ray Myers, Art Acord.
A chegada de um grupo de geógrafos que estudam o terreno onde será construída uma ferrovia invade o território indígena e provoca o rompimento do acordo de paz assinado entre estes e o exército americano. Quando houve a decisão de massacrar os brancos, Sky Star (Little), índia simpatizante dos brancos, e filha do chefe Sioux (Smith) decide ir avisá-los. Ela se acidenta no caminho e chega bastante ferida ao forte, sendo cuidada pela filha (Grandin) do Coronel James Bryson (Ford). Pegos de surpresa, os homens do exército americano não possuem efetivo que possa fazer frente aos índios. Enquanto resistem sem muitas chances no Forte, o Tenente White (Myers) decide ir buscar reforços na próxima guarnição. Quando tudo parecia perdido, os reforços chegam e salvam o forte da ameaça indígena.
Filme seminal para a construção da representação do “Velho Oeste” pelo cinema. Quase três vezes mais longo que os filmes contemporâneos dirigidos por Griffith na Biograph, apresenta muitos de seus recursos formais, como a utilização da montagem paralela como reforço às situações de suspense e uma visão do ponto de vista do indígena, ainda que breve e pouco articulado, quase sempre negado na produção clássica posterior (notadamente Ford). Há uma personagem que se tornará recorrente em produções do gênero, assim como também nos filmes de aventura, que se solidariza com os brancos, ainda que faça parte do grupo oposto. Aqui se trata da filha do chefe, que se rende aos encantos de um dos geógrafos, depois do primeiro trivial contato que tiveram e que evidentemente se tornará mártir – literalmente índio bom (ao menos para a causa dos interesses americanos) é índio morto, como demonstrará o tributo da filha do coronel diante da índia morta, algo que o pai, embaraçado, não saberá como expressar.  Sua narrativa é bastante fluente e faz uso de uma decupagem bem mais sofisticada que produções europeias mesmo posteriores, como Cabíria (1914), de Pastrone. Ince, ainda que bem menos conhecido que Griffith, é tido por vezes, juntamente com De Mille, como um realizador mais próximo do que viria a se tornar o cinema clássico do que o próprio Griffith. Nenhum membro da equipe técnica  ou do elenco (inclusive os diretores) foi creditado. Francis Ford, de longeva carreira no gênero western, chegou a ser dirigido por Méliès, e seu irmão Gaston, em westerns, já no final da carreira dos dois últimos. Destaque para o quanto os entretítulos aqui antecipam muito do que será apresentado do enredo, algo que Griffith conseguia atenuar. Kay-Bee Pictures para Mutual Film Corps. 41 minutos.


terça-feira, 18 de outubro de 2016

Filme do Dia: Maioria Absoluta (1964), Leon Hirszman




Maioria Absoluta (Brasil, 1964). Direção e Rot. Original: Leon Hirszman. Fotografia: Luís Carlos Saldanha. Música: Radamés Gnatalli.  Montagem: Nélson Pereira dos Santos.

Esse primoroso curta-metragem de Hirszman discute o problema do analfabetismo e, no sentido mais amplo, da falta de valorização social dos trabalhadores menos qualificados. Iniciando com uma narração off (de Ferreira Gullar) que por vezes soa quase tão redutora quanto seu avesso ideológico, produzido contemporaneamente, os filmes de Jean Manzon, o filme faz uso desse habitual recurso até certo momento, quando decide, numa surpreendente reviravolta, dar voz aos próprios analfabetos. A partir desse momento, muitos despossuídos, em sua maioria agricultores, queixam-se das difíceis condições de sobrevivência, seja fazendo referência somente a sua própria experiência de vida seja argumentando em termos mais amplos e propondo soluções. O filme, portanto, é renovador tanto em termos tecnológicos, sendo um dos primeiros a fazer uso do som direto no Brasil, quanto – em boa parte, aliás,  graças a essa inovação tecnológica –  em termos formais, não só dando voz  a alguns daqueles que fazem parte da realidade que aborda, como o próprio narrador se distanciando por vezes da tediosa seriedade pretensamente equiparável ao grau de confiabilidade do narrado (como no caso dos filmes de Manzon). Assim, intervém diretamente na construção do filme elaborando, por exemplo, a pergunta final, onde após ressaltar o tanto que tais trabalhadores nos – subentende-se o público espectador de classe média – proporcionam, indaga o que nós proporcionamos a eles. A referência subliminar à classe média, no entanto, perde um pouco de seu efeito, porque é realizada sobre imagens do Congresso Nacional, como se esse “nós” fossem os políticos e não a classe média como um todo. 16 minutos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Billie Holiday - Loveless Love (1940)

Filme do Dia: Quando o Coração Floresce (1955), David Lean


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Quando o Coração Floresce (Summertime, EUA, 1955). Direção: David Lean. Rot.Adaptado: H.E.Bates, David Lean & Donald Ogden Stewart baseado na peça de Arthur Laurents The Time of the Cuckoo. Fotografia: Jack Hildyard. Música: Alessandro Cicognini. Montagem: Peter Taylor. Com: Katharine Hepburn, Rossano Brazzi, Isa Miranda, Darren McGavin,  Jane Rose,   MacDonald Parke,  Jeremy Spenser, Gaitano Andiero.
               Jane Hudson (Hepburn), solteirona de meia-idade viaja à Veneza com economias guardadas de longo tempo, com o intuito subliminar de viver seu primeiro amor. Logo faz amizade com um casal de turistas tipicamente americano, os McIlhenny (Parke/Rose), que também se encontram na pousada Fiorina, comandada pela senhora de mesmo nome (Miranda). Um casal já se encontra hospedado por lá, o artista Eddie (McGavin) e sua namorada. Embora procure forjar laços de amizade, Hudson fica sozinha após a saída da dona da pensão e sua recusa para um passeio com Eddie, que disse que iria sair com um outro casal de amigos. Hudson vai à Praça de São Marcos, após ser importunada pelo garoto Mauro (Andiero), por quem acabará se afeiçoando. Na Praça é admirada longamente por Renato di Rossi (Brazzi), retirando-se incomodada e posteriormente reencontrando-o na loja de antiguidades, que pertence a Renato,  em que compra uma taça. Sentindo-se apaixonada, não resiste e volta no dia seguinte a Praça de São Marcos, onde Renato se aproxima mais e afasta-se pensando que ela se encontra acompanhada, ou pelo menos dando a entender que assim pensara. Angustiada, Hudson pede o auxílio de Mauro para retornar à loja de Renato, porém ele não se encontra. Ela cai no canal. Abatida na pensão, recebe a visita de Renato, que procura explicitar seus sentimentos para uma confusa Hudson, embora sejam interrompidos  pelo casal McIlhenny, em que a mulher mostra umas taças idênticas a que Hudson comprara na loja de Renato. Indignada, ela no entanto, finda por acreditar em Renato, que confirmara a sua peça como sendo do século XVIII. Ambos vão assistir uma apresentação de peças de Rossini. Porém o clima de idílio romântico termina na noite seguinte, quando descobre que o garoto que trabalha na loja de Renato, Vito (Spenser), é na verdade seu filho. Ela presencia aterrorizada a partida da mulher de Renato com um homem em uma gôndola. Renato a encontra e, enquanto ela lhe critica suas mentiras, ele desaprova seu comportamento imaturo, afirmando que seu casamento não mais existe, e que sua esposa leva a vida que ela quer. Enfim, quando percebe que a resistência a Renato parte mais de sua insegurança pessoal que pelo fato de ser casado, Jane cede. No dia seguinte parte de Veneza de trem. Renato aparece no último momento na estação.

              Provavelmente poucas vezes Veneza recebeu um tratamento visual tão elegante quanto nessa obra de Lean. Porém todo o virtuosismo acadêmico de seu elaborado trabalho de câmera e esmerada fotografia e direção de arte vão de encontro a uma intriga extremamente estéril, por vezes beirando o ridículo involuntário. Ainda assim, no meio da pasmaceira dos conflitos sentimentais da senhora Hudson, podem se encontrar alguns traços sutis de modernidade, seja em alusões veladas de Renato ao sexo no escurinho dos canais, seja pela alusão mais explícita da fobia dos americanos por sexo, quanto - e principalmente - pelo desenlace descomprometido do final, assim como a recusa em buscar investigar os motivos que levam Renato e sua esposa a viverem um casamento de aparências. Os personagens secundários, no entanto, possuem uma definição confusa, que os qualifica como não mais que óbvios instrumentos para o desenvolvimento da intriga principal (como no momento em que o casal americano reaparece apenas para criar o conflito com relação às taças), sendo a apresentação do casal de turistas americanos representando todos os clichês possíveis da situação particularmente não interessante. Alguns momentos desse auto-centramento tanto da personagem de Hudson quanto da própria intriga principal com relação aos personagens secundários chega a ser involuntariamente cômica:  a senhora Hudson, a todo custo, procura afastar o garoto Mauro de suas lentes, para que possa fotografar a loja de Renato. Por outro lado, o próprio interesse súbito de Renato por Jane soa grandemente inverossímil. London Film/Lopert Productions/United Artists. 100 minutos.           

domingo, 16 de outubro de 2016

Filme do Dia: O Medo (1954), Roberto Rossellini


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O Medo (La Paura, Al.Ocidental/ Itália, 1954). Direção: Roberto Rossellini. Rot. Adaptado: Sergio Amidei, Roberto Rossellini & Franz Von Treuberg, baseado no romance Angst, de Stefan Zweig. Fotografia: Carlo Carllini & Heinz Schnackertz. Música: Renzo Rossellini. Montagem: Jolanda Benvenuti & Walter Boos. Com: Ingrid Bergman, Mathias Wieman, Renate Mannhardt, Kurt Kreuger, Elise Aulinger, Steffie Struck, Elise Aulinger, Annelore Wied.
Irene (Bergman), mulher do bem sucedido cientista Albert (Wieman) vive uma culpada relação amorosa extra-conjugal com Erich (Kreuger). A situação se complica quando ela, disposta a abandonar a relação, é chantageada por uma mulher que diz ter sido abandonada por Erich, Schultze (Mannhardt). Irene passa a viver em constante tensão e desconfia da integridade de seu amante, pois a mulher sempre sabe onde ela se encontra. Sua crescente dispersão suscita indagações de Albert, negadas terminantemente por Irene. Schultze revela, no entanto, que fora orientada pelo próprio Albert para chantageá-la. Confusa, Irene pensa em suicídio, mas muda de decisão e vai de encontro aos filhos.
Constrangedor testemunho do quanto Rossellini não conseguia se adequar a modelos dramáticos mais convencionais. Praticamente nada aqui funciona. Das interpretações maneiristas, em que o patético se sobrepõe a qualquer pretensão trágica na figura pretensamente dividida de sua protagonista aos momentos de mais pura obviedade, quando Irene reflete no castigo imposto por Albert à filha, a sua própria culpa. À figura feminina, aliás, cabe ao final não mais que o redirecionamento de seu “amor perverso” para a sacralidade da família, ou seja, para a própria negação do desejo e purgação de sua culpa. Certamente extraindo material da própria relação que vivenciava então com Bergman, seja em termos de tema mais amplo, que parece quase reproduzir o escândalo vivenciado por Bergman ao se unir ao cineasta, abandonando o seu marido ou mesmo de frases isoladas, como quando a atriz relembra dos banhos de sua Suécia natal, técnica comumente utilizada por Rossellini. O filme patina em soluções desconcertantemente canhestras desde a voz over com o qual inicia e a abordagem de Irene pela chantageadora logo ao início. Destaque para os longos planos de diálogos vivenciados no interior de veículos – com evidendentes matte shots ao fundo simulando movimento como era de costume nos filmes hollywoodianos, mas algo incomum na cinematografia do realizador. Klaus Kinski surge numa ponta, apresentando-se em um cabaré. Aniene Film/Ariston Film GmbH para Minerva Film. 75 minutos.


sábado, 15 de outubro de 2016

Filme do Dia: A Hash House Fraud (1915), Charley Chase



A Hash House Fraud (EUA, 1915). Direção: Charley Chase. Com: Hugh Fay, Louise Fazenda, Fritz Schade, Harry Bernard, Billy Brockwell, Chester Conklin, Josh Binney, Fred Hubbard.
Atabalhoado e intempestivo dono de restaurante (Fay) perde vários clientes. Ele briga até com o cozinheiro (Schade) e possui uma caixa coquete (Fazenda). Consegue convencer um grupo de trabalhadores a fazer refeição no restaurante. Enquanto isso chega o homem que se tornará o novo proprietário do restaurante (Bernard) com sua esposa (Brockwell). O novo proprietário flerta com a caixa, para a ira de sua esposa que se auto-emprega enquanto caixa. Quando a confusão arrisca ganhar grandes proporções a polícia é chamada. O ex-proprietário rouba um carro que se encontra estacionado diante do restaurante e é perseguido pela polícia e algumas pessoas que se encontravam no restaurante. Em meio as estripulias da perseguição, o dono do restaurante e sua caixa caem no mar. A garota é capturada, mas não o homem. Quando fica sabendo que o homem se encontra desaparecido, a garota não tem muito tempo para sentir pesar, pois imediatamente se torna o foco das atenções do garçom, que se declara a ela.

Aos dias de hoje salta aos olhos, mais que tudo, é a montagem frenética  dessa comédia rotineira demarcando a distância dos mais talentosos que serão associados à comédia muda. A excessiva caricaturização dos personagens, sobretudo o dono do restaurante e as cenas de perseguição traem sua herança das comédias de perseguição do Primeiro Cinema. Longe de efetivamente hilário a exceção de uma única cena, na qual o cozinheiro surrupia sorrateiramente uma das cédulas que o novo proprietário paga ao antigo, sem que nenhum dos dois percebam. Talvez parta de algumas situações triviais dessas comédias não lapidadas, como a da dificuldade de um dos clientes em comer um bife que Chaplin elaborará uma de suas cenas mais célebres, a da dança improvisada em Em Busca doOuro (1925). Produzido por Mack Sennett, que também lançaria Chaplin no cinema. Keystone. 16 minutos e 15 segundos

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

The Film Handbook#97: Frank Capra

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Frank Capra

Nascimento: 18/05/1897, Palermo, Sicília, Itália
Carreira (como diretor): 1922-1961

Como Chaplin, Frank Capra iniciou sua carreira no cinema como um talento cômico simples e efetivo e progrediu aos "filmes de mensagem". E, como Chaplin, o populismo de seus filmes posteriores demonstraram tanto um declínio no humor quanto preocupantes ambiguidades políticas.

Após emigrar aos Estados Unidos aos seis anos,o jovem Capra passou por uma diversidade de empregos antes de se tornar cenógrafo, posteriormente montador e escritor de gags para os produtores Hal Roach e Mack Sennett. Dirigindo o cara de bebê Harry Langdon tanto em O Homem Forte/The Strong Man quanto em Pinto Calçudo/Long Pants - no qual um inocente estúpido triunfa sobre corruptos sofisticados - que estabeleceu a si próprio como um diretor promissor. A despeito do sucesso de seus filmes, no entanto, Capra foi demitido por Langdom, e a assinou contrato com a Columbia, um pequeno estúdio que ele iria transformar em grande quase sozinho.

Seus filmes no início dos anos 30 foram agradáveis aventuras e comédias, notáveis por sua elegância, ritmo e diversidade. A Mulher Miraculosa/The Miracle Woman - uma divulgadora da evangelização, inspirado em Aimee Simple Macpherson - e o engenhoso Loura e Sedutora/Platinum Blonde foram brilhantes veículos para Barbara Stanwyck e Jean Harlow respectivamente, mas foi seu O Último Chá do General Yen/The Bitter Tea of General Yen>1, que permanece o melhor filme de Capra. Trata-se de um romance atipicamente exótico,no qual uma empertigada missionária americana de Stanwyck torna-se refém de um sinistro, mas sedutor, ditador chinês. Sua história da conversão de uma convertida é não somente erótica - uma brilhante sequencia de sonho revela a hesitante e nervosa descoberta de seus desejos físicos - mas uma investigação complexa e trágica do choque entre culturas.

Mais convencional foi a desenvolta comédia de estrada Aconteceu Naquela Noite/It Happened One Night>2 no qual um jornalista petulante e desempregado e uma herdeira em fuga viajam juntos através de uma América da Depressão, pondo à parte suas diferenças de classe e se apaixonando. O enredo previsível de Robert Riskin se tornou animado pela vitalidade pulsante de Clark Gable e Claudette Colbert, enquanto sua suava mensagem populista tocou fundo nos corações de uma nação em problemas, ganhando um punhado de Oscars e pondo a Columbia no mapa. Mas o desejo de Capra de expressar o seu amor por sua terra adotada resultou em uma série de filmes moralmente edificantes, prestando o seu tributo ao típico americano WASP. Em O Galante Mr. Deeds/Mr. Deeds Goes to Town>3, a simplicidade provinciana de Gary Cooper derrota o cinismo citadino quando seus planos para doar uma fortuna que herda aos pobres e necessitados de terra se transforma em um julgamento insano; em sua empolada fantasia alegórica Horizonte Perdido/Lost Horizon, o benevolente ditador de monges em Shangri-la é piamente devoto à paz; em Do Mundo Nada Se Leva/You Can't Take It With You um ambicioso e poderoso magnata é redimido pela excentricidade campesina de uma alegre  família; e em A Mulher Faz o Homem/Mr. Smith Goes to Washington>4 o desengonçado chefe de escoteiros do interior de James Stewart livra o Senado da corrupção através de sua coragem e fé na "gente comum". Os bem intencionados e emocionalmente manipulativas comédias-dramas de Capra, frequentemente roteirizados por Riskin, sofrem de um enfadonho sentimentalismo e de uma consideração ingênua que os males políticos e sociais podem ser resolvidos por um patriota solitário. Ele descreve a corrupção não como um fenômeno complexo e fortemente enraizado mas simplesmente como uma questão de umas poucas maças estragadas. Apresentando uma população instável que facilmente se vê seduzida por um demagogo simplório cujas banalidades exaltam as virtudes do conformismo vulgar e anti-intelectual, a visão de Capra da democracia do New Deal foi complacente e reacionária. Mas o patriotismo extremado e interpretações soberbas lhe certificaram sucesso de crítica e de público.

Após realizar a série de documentários de propaganda de guerra Why We Fight, Capra retomou sua carreira comercial com a antiquada comédia de humor negro Esse Mundo é um Hospício/Arsenic and Old Lace e outro hino à America provinciana em A Felicidade Não Se Compra/It's Wonderful Life>5. Sensivelmente interpretado por Stewart, a primeira metade do filme é um surpreendente retrato sombrio de inevitáveis compromissos auto-sacrificantes em uma vida devotada à bondade; infelizmente, a promessa não se cumpre quando o suicídio do herói é evitado por um amável demonstração de um anjo mais velho de qual pior sua família e amigos viveriam se ele nunca houvesse existido.

Após a hesitante sátira política Sua Esposa e o Mundo/State of the Union, Capra fica confuso em relação a qual rumo seguir através de uma série de projetos abortados, períodos de inatividade e fracas refilmagens. Os tempos mudaram e suas portentosas declarações sobre as maravilhas da democracia pareciam crescentemente irrelevantes. Em retrospecto, sua tão apregoada preocupação didática com a "gente comum" parecia tão condescendente quanto confusa. Heróis e vilões batalham até um controverso final feliz; seus filmes tem menos a ver com a realidade política que com os contos de fadas.

Cronologia
As sátiras sentimentais e sócio-politicas de Capra - Capracorn - são reminiscentes de Chaplin e de Clair em início de carreira. Na verdade, sua prédica simplista e vagamente liberal antecipa a de Stanley Kramer.

Leituras Futuras
Frank Capra - The Man and His Films (org. Richard Glatzer e John Reaburn, Ann Arbor, 1975), The Hollywood Professionals vol.6, de Allen Estrin e The Name Above the Title (Nova York, 1971) é a autobiografia de Frank Capra.

Destaques
1. O Último Chá do General Yen, EUA, 1933 c/Barbara Stanwyck, Nils Ashter, Walter Connolly

2. Aconteceu Naquela Noite, EUA, 1934 c/Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connolly

3. O Galante Mr. Deeds, EUA, 1936 c/Gary Cooper, Jean Arthur, George Bancroft

4. A Mulher Faz o Homem, EUA, 1939 c/James Stewart, Jean Arthur, Edward Arnold

5. A Felicidade Não Se Compra, EUA, 1946 c/James Stewart, Donna Reed, Lionel Barrymore

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp.42-4.

Filme do Dia: Cartas do Saara (2006), Vittorio De Seta

Lettere dal Sahara Poster
Cartas do Saara (Lettere dal Sahara, Itália, 2006). Direção e Rot. Original: Vittorio De Seta. Fotografia: Antonio Grambone. Música: Ismaël Lô. Montagem: Marzia Mete. Com: Djibril Kebe, Paola Ajmone Rondo, Fifi Cisse, Thierno Ndiaye.
Assane (Kebe) é um refugiado senegalês que é salvo pela polícia italiana quando, juntamente com outros imigrantes, é jogado ao mar, próximo à costa. Quando se encontra em vias de ser deportado para seu país, foge e vai  de encontro a um parente que vive em situação de extrema penúria. Abandona-o para ir encontrar a prima Salimata (Cisse), hoje modelo. Porém, apesar de bem recepcionado, o fato de viver com um homem sem ser casada provoca o inconformismo de Assane que resolve partir para Turim, onde ouviu vagamente sobre condições de trabalho. Lá é auxiliado por uma professora de italiano, Caterina (Rondo), que consegue regularizar minimamente sua situação no país e transforma um jovem senegalês em seu irmão mais jovem. Porém, a violência sofrida na saída de uma casa noturna, traumatiza o jovem que retorna para seu país e reencontra a figura paternal de um ex-professor universitário (Ndiaye), discursando para outros jovens de uma aldeia distante de Dakar sobre a confusão e até mesmo a falta de crença em Deus após tudo o que havia sofrido sem motivação.
O realismo desse drama de tinturas políticas, acentuado ainda mais pela textura digital e rasa das imagens, pungente em seu humanismo, aproxima-se, em última instância, das mesmas limitações do cinema de um Ken Loach. Ou seja, uma tendência não somente a um certo maniqueísmo quanto – e pior – até mesmo uma idealização dos africanos como despidos de conflitos e eticamente superiores aos europeus. Assim, se o núcleo dramático europeu ainda consegue ser “complexificado”, apresentando uma sociedade capaz de gerar tanto pessoas grandemente receptivas ao protagonista (representado sobretudo por Caterina) quanto o seu oposto, na África tudo parece comunhão e paz. Em termos formais, igualmente, o filme é menos interessante que as propostas de outro realizador interessado em temas políticos no cenário italiano contemporâneo, Nanni Moretti, com filmes mais auto-reflexivos e menos esquemáticos. Como Loach, De Seta pole tanto seu personagem de qualquer dimensão vulgar que o resultado torna-se tanto dignificante quanto igualmente paternalista e redutor de uma representação mais ampla e verdadeiramente humana em seus paradoxos.  Prêmio da Cidade de Roma no Festival de Veneza. Metafilm/A.S.P. 100 minutos.


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Filme do Dia: Mauvaise Conduite (1984), Néstor Almendros & Orlando Jiménez Leal


Mauvaise Conduite Affiche Originale 120 X160 (1984) - Nestor Almendros - Cuba


Mauvaise Conduite (França, 1984). Direção: Néstor Almendros & Orlando Jiménez Leal.

Esse documentário compila, de forma quase exaustiva, uma série de depoimentos a respeito da perseguição aos homossexuais no regime cubano, inclusive com a criação de campos específicos de prisioneiros. Ao ficar restrito sobretudo aos depoimentos, complementados ocasionalmente com uma voz over, tem-se menos um retrato mais conciso e didático desse aspecto da repressão na sociedade cubana, em si pouco explorado ainda que conhecido, do que relatos parciais que parecem ter como função básica a de denúncia testemunhal. Esses se tornam um pouco mais enfraquecidos quando não poucos dentre os depoentes levantam críticas contra elementos considerados negativos ao regime que fogem do foco em si selecionado. Dentre os aspectos curiosos se encontra o posto por um dos depoentes de que o regime perseguia sobretudo os homossexuais efeminados, sendo que os mais masculinizados ou as lésbicas sofriam menos perseguições, pois no primeiro caso menos visíveis enquanto “desvio” ou “má conduta” frente aos valores sociais considerados dignos (herdados de um puritanismo bastante comum nos dogmatismos de esquerda do período como ressalta Susan Sontag) e no segundo mais palatáveis ao imaginário erótico masculino, como posto por Cabrera Infante. Dentre outros depoimentos marcantes está o do escritor Reynaldo Arenas, que posteriormente se tornaria tema de uma cinebiografia (Antes do Anoitecer). Há uma forte militância anti-castrista em um círculo de depoentes que, exilados ou desafetos que haviam anteriormente colaborado proximamente do próprio Fidel e de altos escalões do regime, não movem um centímetro evidentemente em sua visão sem qualquer concessão ao regime, por mais que uma depoente fale que não guarde mágoas das condições inumanas que passou quando detida ou que outro, que encerra o filme, afirme que a ojeriza aos homossexuais era bem anterior ao regime, que somente a potencializou. E é justamente com a falta de palavras para descrever o inexprimível com relação a situação, no silêncio desse último depoente, que o filme se encerra. O documentário espanhol Seres Extravagantes, de vinte anos após, faz uso de outras estratégias estilísticas e recorte sobre o mesmo tema, tendo como cerne a figura de Arenas.  Antenne 2/Les Films du Losange para Cinevista. 112 minutos.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Filme do Dia: La Muerte de Pinochet (2011). Iván Osnovikoff & Bettina Perut

La muerte de Pinochet

La Muerte de Pinochet (EUA, 2011). Direção e Rot.Original: Iván Osnovikoff & Bettina Perut. Fotografia: Pablo Valdés.

Documentário que parte de alguns “personagens”, observados em filmagens durante o momento imediatamente posterior a morte de Pinochet, vários anos antes. Nesse momento posterior, eles efetuam uma tentativa de racionalização e ou comentário a respeito de suas reações. O filme se detém em apresentar seus depoimentos. A maior parte dos depoentes é de simpatizantes irrestritos a “Mi General”, como é conhecido popularmente Pinochet. O entrevistador não questiona em nenhum momento as posições sejam dos simpatizantes ou dos detratores. Ao mesmo tempo que tal opção se aproxima de uma ética contemporânea, que prefere não efetuar julgamentos sobre aqueles aos quais se relaciona, existe um evidente comodismo de apenas se “apresentar” uma realidade, sem ter a necessidade de qualquer elaboração posterior. Nesse sentido, os parcos comentários over vão apenas ajudar a situar o contexto e a proposta do documentário. Acompanha-se, inclusive, uma sociedade que possui como maior objetivo a preservação da memória de Pinochet, comandada por um dos entrevistados. Num de seus momentos mais significativos, uma das depoentes faz uma comparação estapafúrdia com ela, como dona de casa, que não sabe que sua empregada passa açúcar para outra empregada sem que ela se dê conta; tal analogia serviria para desculpar Pinochet por não se encontrar consciente do que seus subordinados faziam de equivocado. 75 minutos.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Filme do Dia: O Jardim Secreto (1994), Dave Edwards


The Secret Garden
O Jardim Secreto (The Secret Garden, EUA/Reino Unido/Irlanda, 1994). Direção: Dave Edwards. Rot. Adaptado: a partir da telepeça de Libby Hinson e do romance de Frances Hodgson Burnett. Música: Misha Segal. Montagem: Rick Hinson.
Mary Lennox vive na Índia até saber, determinado dia, que se tornou órfã. Viaja então para a Inglaterra onde vai viver numa mansão vitoriana e assustadora de 100 quartos, sendo tutelada pela governanta má, a Sra. Medlock. Aos poucos passa a conhecer o garoto Dickon, de origem humilde e também seu primo Collin, que vive trancafiado em um quarto e impossibilitado de ter acesso ao mundo exterior. O tio de Mary, Archibald partiu para a Escócia. Sua distância do filho está associada a morte da mulher que amara, mãe do garoto. Mary se apaixona pelo Jardim Secreto, ao qual fica sabendo se tratar do local onde sua tia morrera. Juntos, ela e Dicon levam Collin para passear no mesmo e quando observam que o garoto apresenta sensível melhora, e seu parceiro, o médico, irá fechar o cerco aos garotos,  esses contam com o apoio dos animais dos quais se tornaram próximos, como a gata Darjeeling.

Produção rotineira para a televisão norte-americana que se ampara em texto clássico infantil já adaptado inúmeras vezes para o cinema tanto como animação como filmes de ação ao vivo. Seu estilo algo conto de fatos, algo romance gótico, não é exatamente bem aproveitado pelos traços burocráticos e apresentação de narrativa não menos insípida. Amparado por uma lógica melodramática herdeira de Dickens, o filme chega inicialmente a potencialmente acenar para a possibilidade de uma “triangulação” entre os personagens principais, mas os indícios de afeto e sexualidade não chegam a serem enfrentado pela narrativa senão de forma muito oblíqua, quando Dicon passeia inicialmente com Mary no Jardim ou ainda quando Collin demonstra seu desejo que Mary não volte mais a encontrar Dicon – logo o trio terá que se unir para enfrentar as “forças do mal”. Mike Young Prod./Greengrass Prod. para ABC. 69 minutos.