CONTRA O GOLPE CIVIL EM CURSO E A FAVOR DA DEMOCRACIA

sábado, 31 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Central do Brasil (1998), Walter Salles


Resultado de imagem para central do brasil poster


Central do Brasil (Brasil, 1998) Direção:Walter Salles.  Rot.Original: Marcos Bernstein&João Emanuel Carneiro, baseado em argumento de Walter Salles. Fotografia: Walter Carvalho. Música:  Jaques Morelembaum &Antonio Pinto, Montagem: Felipe Lacerda & Isabelle Rathery . Com:Fernanda Montenegro, Marilia Pera, Vinicius de Oliveira, Soia Lira, Othon Bastos, Otávio Augusto, Stela Freitas, Matheus Nachtergaele, Caio Junqueira.
              Dora (Montenegro), possui como ganha-pão a escrita de cartas para pessoas analfabetas na estação ferroviária Central do Brasil, Rio de Janeiro. Contando com a boa fé daqueles que acreditam que ela realmente envia as mensagens, Dora na verdade as lê juntamente com sua amiga Irene (Pera), rasgando a maioria e selecionando as que acha mais importantes para ficarem na sua gaveta, para uma eventual posterior emissão. Certo dia, no entanto,  Dora se vê acusada pelo garoto Josué (Oliveira), que anteriormente estivera com sua mãe de não haver remitido a carta, na qual sua mãe apela para que o pai de Josué venha para conhecê-lo. Logo após gritar com o garoto e pedir que saia da fila, ocorre uma tragédia. Sua mãe é atropelada quase em frente da banca de Dora. Sem ter para onde ir, Josué começa a dormir na estação, onde Dora convence-o para que vá até sua casa. Irene, apesar de desconcertada com as perguntas do menino, fica encantada com a sua presença no apartamento de Dora. Esta, no entanto, afirma que vai levá-lo a uma instituição exemplar para crianças, após uma conversa com o vigia da estação Pedrão (Augusto). Porém, na verdade, a instituição exemplar não passa de um grupo de traficantes de crianças para o exterior, que lhe paga o dinheiro que necessita para comprar uma televisão último modelo. Quando assiste a tv junta a Irene de noite, esta fica profundamente irritada com Dora, percebendo tudo. Dora não consegue mais dormir sossegada. Retorna ao apartamento dos receptadores com a proposta de trazer outras crianças e foge com Josué, quase contra a força deste, ainda extremamente magoado com o que fizera. Ameaçados de morte, Dora não tem outra saída que não ir com Josué até o interior de seu pai. No ônibus, revela um passado igualmente triste, com o abandono pelo pai quando era tão jovem quanto ele. Porém, no meio do caminho muda de idéia e deixa que o ônibus parta sem ela, comprando imediatamente uma passagem de volta para o Rio. Quando percebe, no entanto, Josué também abandonou o ônibus. Desesperada, encontra na figura do caminhoneiro protestante César (Bastos), alguém que se compadece de sua situação. Quando chegam à venda de um amigo de César, no entanto, inspirada em Josué, Dora furta diversos alimentos, sendo flagrada pelo comerciante. César, no entanto, quer deixar claro que tudo não passa de um mal-entendido, acobertando Dora. Porém, depois de ouvir os comentários de Josué no mictório e a tentativa de Dora de seduzi-lo, abandona-os e parte. Dora só percebe quando sai do banheiro, onde fora se arrumar para partir para a sedução. Pegam carona em um caminhão de romeiros. A última tentativa de conseguir dinheiro, através da venda da tv sofisticada, fracassou quando Irene envia o dinheiro para uma cidade errada. Ao chegarem no suposto endereço do pai de Josué, se decepcionam porque a família que lá mora afirma que há muito tempo ele saiu de lá, dando-lhe seu novo endereço, que é um conjunto habitacional. Desesperada com a falta de dinheiro e o cansaço físico, Dora  briga e descarrega toda sua frustração em Josué. Este foge e Dora o persegue, até exaurida desmaiar em meio a uma procissão. Quando retorna aos sentidos, está sendo consolada por Josué, que lhe sugere como voltar a ganhar dinheiro: voltar a redigir cartas para  analfabetos. Com a féria do dia, possuem dinheiro suficiente para pernoitar em um pequeno hotel e seguirem o caminho até a cidade onde o pai de Josué possivelmente se encontra. Porém novamente ele não mora mais no local indicado. Isaías (Nachtergaele), no entanto,  irmão de Josué, fica sabendo que alguém anda procurando seu pai e leva-os  para sua casa, onde juntamente com o irmão Moisés (Junqueira), pede para que Dora leia a carta que seu pai lhe deixara. Ela lê, acrescentando no final uma referência a Josué. Enquanto os três garotos dormem, Dora parte de volta ao Rio. Josué acorda, mas não há tempo de ainda encontrá-la. Sobra, para ambos, a única recordação da aventura que viveram juntos: as fotografias tiradas na feira religiosa.
Interessante filme de Salles, embora em última instância, grandemente manipulativo à nivel emocional e com um roteiro e caracterização dos personagens bastante superficial para se tornar realmente envolvente. Óbvia influência do neorrealismo italiano, De Sica em especial - sentimentalismo, utilização de um ambiente proletário e fortes colorações naturalistas. Porém não parece transcender o modelo italiano e apontar para mais além ou para uma fusão com elementos outros - como no caso de Através das Oliveiras de Kiarostami. Entre os motivos de apelo fácil se encontram o da pessoa madura que se vê renovada, em termos éticos, com a companhia de uma criança (como em Kolya), o da morte da mãe da criança, personagens-clichês como o do caminhoneiro protestante, da prostituta de bom coração e algumas facilidades do roteiro como a do envio do dinheiro para um local errado etc. Interpretação de Fernanda Montenegro à altura do óbvio e das facilidades narrativas. Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim. Videofilmes/Riofilmes/MACT. 112 minutos.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

The Film Handbook#108: Arthur Penn






Resultado de imagem para arthur penn pics

Arthur Penn
Nascimento: 27/09/1922, Filadélfia, Pensilvânia, EUA
Morte:  28/09/2010, Nova York, Nova York, EUA
Carreira (como diretor): 1958-2001

Um dos diretores mais distintos e inteligentes que emergiu da televisão no final dos anos 50, Arthur Penn criou um corpo de trabalho que se centrou, em sua maior parte, no conflito violento entre autoridades e foras-da-lei: uma violência percebida como endêmica à sociedade americana. De fato, nos anos 60 e 70 ele localizou  as mudanças da América contemporânea com precisão infalível.

Nos anos 50 Penn se estabeleceu como um diretor de  ponta de dramas sérios tanto na televisão quanto no teatro. Em 1958 ele realizou sua estreia como diretor com Um De Nós Morrerá/The Left Handed Gun, uma versão da peça de Gore Vidal sobre Billy the Kid, caracterizando-o como um jovem mentalmente instável cuja sede de vingança da morte de um amigo por fim leva a provocar o homem da lei Pat Garrett (o primeiro das diversas figuras paternas ameaçadoras de Penn) à ação. Psicologicamente astuto, o filme também foi notável por suas interpretações e sua pouco comum descrição física da violência - pontos fortes que seriam ainda mais ressaltados em O Milagre de Anne Sulivan/The Miracle Worker>1, uma narrativa forte e apaixonada sobre os devastadores esforços emocionais de Anne Sullivan para ensinar a surda-muda e cega Helen Keller a reagir ao seu mundo de uma forma "civilizada". Longos planos certificam a intensidade do espírito do filme, assim como uma variedade de cortes abruptos, montagem veloz e angulações pouco comuns que servem para intensificar o ar de mistério e paranoia em Mickey One, um por vezes pretensioso thriller-filme de arte influenciado pela Nouvelle Vague francesa, no qual as ansiedades de um cômico da noite sobre uma "organização" sem face definida espelham o clima de suspeita e traição dos anos de "caça às bruxas" do McCarthismo.

Porém foi em Caçada Humana/The Chase>2 que Penn analisou as raízes da violência americana de forma mais pujante. Um melodrama sombrio, remontado pelo estúdio, empregando uma lógica cruel para traçar a gradual derrocada rumo a anarquia de um linchamento coletivo de uma comunidade aparentemente respeitável do Texas, alarmada com as notícias do retorno inesperado de um condenado foragido; ganância, ambições mesquinhas, racismo e laços familiares são instrumentais em fermentar a histeria da massa que tem seu clímax em um assassinato reminiscente ao assassinato de Lee Harvey Oswald por Jack Ruby. Igualmente desencantado com a sociedade convencional foi Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas/Bonnie and Clyde>3. Esse thriller de gangster rural altamente influente combinou humor negro, violência gráfica e um senso de tédio espiritual e confusão moral induzidos pela pobreza cultural e econômica da Depressão dos anos 30 para evocar a rebelião anti-establishment do final dos anos 60. Crucial para o filme foi a visão simpática de Penn da gangue dos Barrow não  obscurecida pelo sentimentalismo, e o tom inicialmente bem humorado vai constantemente se tornando sombrio para findar em uma carnificina caótica e sanguinolenta.

Deixem-Nos Viver/Alice's Restaurant foi uma expressão sutil da desilusão, empregando uma  forma errante de balada para descrever as tentativas mal sucedidas de hippies idealistas de formar uma sociedade alternativa a sua própria; O Pequeno Grande Homem/Little Big Man>4, no entanto, foi um feroz desmascaramento dos mitos do Western, com um homem de 121 anos (produto de uma infância dividida entre brancos e índios) lembrando a loucura da vida na fronteira em uma saga digna de cão sem dono. Proporcionou uma correção às noções tradicionais da vida indígena, enquanto contava uma história do imperialismo americano que claramente trazia ecos da Guerra do Vietnã.

Durante os anos 70, Penn - ainda ativo no teatro - trabalhou com menor regularidade no cinema. Tanto Um Lance no Escuro/Night Moves>5 e Duelo de Gigantes/The Missouri Breaks>6, no entanto, foram filmes bem dignos de nota. O primeiro um filme noir moderno tenso e elíptico no qual  o fracasso do detetive (tanto em resolver o caso quanto em dar vazão aos seus próprios impulsos voyeuristas) sugerem o clima de apatia, decepção e cinismo afetando grandemente a América pós-Watergate; o segundo um western chocante e discursivo que desconstrói de forma divertida os clichês do gênero (o personagem do tolo detetive de Brando em inúmeros disfarces absurdos e seu chefe lendo Tristam Shandy) e revela diálogos ao mesmo tempo poéticos e vividamente coloquiais. O filme, aliás, foi visivelmente negligenciado e Penn (substituído por Ken Russell em Viagens Alucinantes/Altered States) levou cinco anos a retornar à direção com o irregular, ainda que grandemente inteligente, Amigos para Sempre/Four Friends (Georgia, Georgia's Friends), um panorama da América dos anos 50 aos 70 visto através dos olhos de um jovem imigrante iugoslavo.

A obra mais recente do diretor sugere um inesperado enfraquecimento: O Alvo da Morte/Target foi um relativamente convencional thriller de espionagem, notável principalmente por seu retrato sensível de uma problemática relação pai-filho e uma divertida investigação de várias concepções de "famílias" (a CIA, a rede de espiões comunistas, os próprios ameaçadores personagens centrais); enquanto Morte no Inverno/Dead of Winter, inspirado por Trágico Álibi/My Name is Julia Ross de Lewis foi um eficiente, antiquado e, em última instância, típico thriller sobre uma mulher seduzida com propósitos sinistros. Ambos os filmes proporcionaram material pouco digno dos  talentos consideráveis de Penn; ele encontra seu melhor quando adota uma abordagem mais oblíqua e iconoclasta aos gêneros e foca sua atenção nos rebeldes à margem do sistema que iluminam, por sua própria oposição, as correntes sombrias de uma sociedade devotada ao conformismo e a repressão.

Cronologia
Apesar de sua formação encorajar uma comparação com Frankenheimer, Lumet e outros diretores provenientes da televisão, o próprio Penn tem falado de sua admiração pela Nouvelle Vague, particularmente Truffaut e Godard. Seus fascínio com os marginais e a violência americana é reminiscente de Nicholas Ray, enquanto Bonnie & Clyde foi enormemente influente para os realizadores americanos mais jovens.

Leituras Futuras
Arthur Penn (Nova York, 1969), de Robin Wood.

Destaques
1. O Milagre de Anne Sullivan, EUA, 1962 c/Anne Bancroft, Patty Duke, Victor Jory

2. Caçada Humana, EUA, 1966 c/Marlon Brando, Robert Redford, Jane Fonda, E.G.Marshall

3. Bonnie & Clyde - Uma Rajada de Balas, EUA, 1967 c/Warren Beatty, Faye Dunaway, Michael J. Pollard

4. O Pequeno Grande Homem, EUA, 1970 c/Dustin Hoffman, Faye Dunaway, Chief Dan George

5. Um Lance no Escuro, EUA, 1975 c/Gene Hackman, Susan Clark, Jennifer Warren

6. Duelo de Gigantes, EUA, 1976 c/Marlon Brando, Jack Nicholson, Kathleen Lloyd

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 217-9.


Filme do Dia: O Labirinto do Fauno (2006), Guillermo del Toro


Resultado de imagem para o labirinto do fauno poster


O Labirinto do Fauno (El Labirinto del Fauno, México/Espanha/EUA, 2006). Direção e Rot. Original: Guillermo del Toro. Fotografia: Guillermo Navarro. Música: Javier Navarrete. Montagem: Bernart Vilaplana. Dir. de arte: Eugenio Caballero. Figurinos: Lala Huete & Rocío Redondo. Com: Ivana Baquero, Sergi López, Maribel Verdú, Ariadna Gil, Doug Jones, Alex Ângulo, Roger Casamajor, César Vea.
No norte da Espanha na época da Guerra Civil, a garota Ofelia (Baquero) vai morar com sua mãe grávida, Carmen (Gil), na casa do tirano comandante fascista, Capitão Vidal (López). Desgostosa com a situação e seu padrasto, Ofelia vive também em um mundo paralelo repleto de fadas e conta com a ajuda de um Fauno (Jones). Com a morte da mãe no momento do parto e com a descoberta de que Mercedes (Verdú) e protetora de Ofelia, a cozinheira de Vidal, era informante da Resistência, a situação se torna crítica para a garota.
Extravagantemente fotografado e cenografado, o filme de del Toro ingressa na extensa filmografia que se detém sobre o universo infantil como perspectiva (O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) ou metáfora (O Tambor, Cria Cuervos) sobre regimes totalitários. O resultado final, no entanto, torna-se prejudicado  pela disjunção narrativa dos universos fantástico e realista. Enquanto a narrativa realista é enfraquecida pelo tom maniqueísta e ligeiro, próprio de um olhar infantil e do tom de fábula, que torna o vilão em um monstro sem nenhuma concessão, tanto o segmento realista quanto o fantástico são pouco verossímeis a ponto de provocar um envolvimento emocional mais profundo com o que é narrado. Verdú se destaca no elenco. Enquanto crítica política através de alegorias, os filmes realizado por Saura nos anos 1970, ainda no calor do final do regime franquista, são bem mais efetivos.  Warner Bros./Tequilla Gang/Esperanto Filmoj/Estudios Picasso/OMM/Sententia Ent./Telecinco. 112 minutos.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Hienas (1992), Djibril Diop Mambéty


Resultado de imagem para hyènes 1999 poster Djibril Diop Mambéty

Hienas (Hiènes, Senegal, 1992). Direção: Djibril Diop Mambéty. Rot. Adaptado: Djibril Diop Mambéty, a partir da peça de Friedrich Dürrenmatt. Fotografia:  Matthias Kälin. Música: Wasis Diop. Montagem: Loredana Cristelli. Figurinos: Oumou Sy. Com: Mansour Diouf, Ami Diakhate, Djibril Diop Mambéty,  Calgou Fall, Faly Gueye, Mamadou Mahourédia Gueye, Issa Ramagelissa  Samb.

Numa comunidade que outrora fora próspera mas agora passa por várias dificuldades, o retorno de uma mulher lá nascida, agora milionária, Madame Drameh (Gueye) suscita o interesse de todos. Ela promete várias dezenas de milhões para a comunidade caso eles deem um fim a um amor de sua juventude, que também provocou uma desgraça em sua vida, Draaman (Diouf), ao difama-la injustamente perante à comunidade, o que a fez partir. Aos poucos, a comunidade, inicialmente reticente a proposta de Drameh, por considerá-la injusta, cede aos encantos das facilidades de consumo que são trazidas com ela, como os automóveis e eletrodomésticos e muda de opinião, sacrificando Draaman.

Se a história em si segue surpreendentemente a da peça e igualmente sua adaptação anterior e mais famosa (A Visita da Velha Senhora), sobretudo quando se sabe que o cineasta sempre foi mais associado com uma linha de cinema mais próxima do ensaio (Badou Boy), talvez não se possa dizer o mesmo do que transcende a questão da ambientação africana e diz respeito ao próprio enquadramento por vezes excêntrico das imagens, a partir de soluções aparentemente triviais mais visualmente desconcertantes, como o ângulo inusitado que surpreende uma ação na prefeitura. De toda forma, mesmo que se siga todas as peripécias da trama original, elas aqui são observadas sobretudo a partir da perspectiva de um personagem masculino que sofre a ação e não da feminina que a pratica tal como no filme de Wicki, atenuando justamente uma das reflexões mais interessantes que aquele trazia. Por outro lado, aqui a dimensão comunitária ganha maior peso que naquele, dispostas eventualmente em tableux, efetivando sua função de coro. Uma dimensão mítica se associa fortemente a solução final encontrada, onde não existe a intervenção última da velha senhora em prol de seu antigo amante (sendo mais fiel a obra de Dürrenmatt, a quem o filme é dedicado e que havia falecido apenas dois anos do lançamento do filme?), tanto no campo das imagens, com  a presença do mar quanto dos sons. Sua morte, tampouco é elaborada através de critérios realistas. Mambéty faz uso da peça de Dürrenmatt para seus próprios propósitos, traçando uma metáfora do capitalismo predatório ocidental se sobrepondo a cultura comunitária africana. ADR Prod./Thelma A.G. 110 minutos.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Filme do Dia: O Nascimento da Glória (1999), Chen Gouxing

Resultado de imagem para Heng kong Chu Shi 1999 poster


O Nascimento da Glória (Heng kong Chu Shi, China, 1999). Direção: Chen Gouxing. Com: Li Xuejian, Gao Ming, Yu Yang, Li Youbing.
           Em meados da década de 1950, a China se prepara para produzir sua primeira bomba atômica, sob a ameaça iminente do arsenal americano posicionado na Coréia do Sul e as ameaças recentes do governo americano. Um cientista, mesmo sem muita experiência na área (Xuejian) é designado para a missão. Apesar dos conflitos iniciais que tem com o comandante militar da operação, apenas preocupado com o cronograma e com o abandono da missão soviética, que decide não mais colaborar com o projeto, assim como das inúmeras vicissitudes que acompanham o mesmo, incluindo até mesmo falta de munição, a missão é cumprida. Por parte do cientista, tais sacrifícios incluem sua própria relação conjugal e as acusações de colaboracionismo com os americanos. Em 1964, apesar de todas as adversidades, o primeiro teste nuclear chinês com uma bomba atômica é realizado.
           O filme de Guoxing, realizado para as comemorações do cinquentenário da Revolução Chinesa de 1949, torna-se integralmente contaminado pelo seu nacionalismo chauvinista. A ausência de tom autocrítico nesse relato que prefere apenas acentuar o heroísmo amador e romântico da aventura da realização da primeira bomba é tão preocupante quanto sua estrutura grandiloquente, clássica e fajuta. Nesse sentido se encontra, por exemplo, o manjado recurso do de se acentuar dramaticamente com o uso de trilha-sonora associada a imagens em câmera lenta, buscando ilustrar o momento de triunfo da comemoração dos soldados por terem encontrado água no deserto de Gobi. No sentido propriamente ideológico se encontra a descrição da virtuosidade da soldadesca e da intelectualidade, capaz de suportar com um altruísmo inverossímil a falta de mantimentos. Em nenhum momento se chega a questionar a própria corrida armamentista, apesar das imagens de Hiroxima e Nagasaki. Aliás, a pergunta mais correta é como se poderia questionar, se o filme teve entre seus financiadores a própria indústria nuclear chinesa. Seu tom amplamente descritivo e sua inserção  de uma referência ligeira à paranoia típica da Guerra Fria, no que diz respeito ao episódio da perseguição ao cientista, ainda almejam uma pretensa neutralidade. Qualquer alusão nesse sentido cai por terra com a explosão de júbilo que acompanha as imagens da primeira explosão nuclear, tão constrangedoras em sua explícita propaganda política armamentista quanto a epígrafe do velho timoneiro Deng Xiao-Ping. Curiosamente, Guoxing foi da mesma geração, quando estudante de cinema, de realizadores como Zhang Yimou e Chen Kaige, que possuem cinematografias bem mais críticas em relação a história oficial do país e incomensuravelmente mais elaboradas, em termos estéticos. 111 minutos.


terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Hooked Bear (1956), Jack Hannah



Hooked Bear (EUA, 1956). Direção: Jack Hannah. Rot. Original: David Detiege & Al Bertino. Música: Oliver Wallace.

Os créditos iniciais, padronizados para a série com o urso Colimério, parecem apontar para uma produção da Disney já bastante influenciada pela animação de traços modernos, comandada sobretudo pelo estúdios UPA, a partir do final da década anterior. O resultado final, no entanto, parece decepcionante, quando se observa o fundo cada vez mais simplificado em relação a ação que se desenvolve em primeiro plano e antes parecem apontar para  um aspecto que acompanhou a disseminação destes traços menos elaborados, uma simples queda na qualidade da animação. De todo modo, neste penúltimo curta da série, ainda resiste uma boa dose de humor, que nem isso se sustentaria no último, In the Bag, produzido no mesmo ano. Este, em grande parte, sustenta-se a partir de situações relativamente simples, nas quais Colimério perde excelentes oportunidades de se fartar de peixe, por conta da própria gula, em algumas situações podendo, inclusive, servir como uma eficiente representação involuntária para as próprias armadilhas do desejo. Walt Disney Prod. para Buena Vista. 6 minutos e 15 segundos.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Sonhos de Poeira (2006), Laurent Salgues


Resultado de imagem para Rêves de Poussière 2006 poster

Sonhos de Poeira (Rêves de Poussière, França/Canadá/Burkina Faso, 2006). Direção e Rot. Original: Laurent Salgues.  Fotografia: Crystel Fournier. Música: Jean Massicotte & Mathieu Vanasse. Montagem: Annie Jean. Dir. de arte: Bill Mamadou Traoré. Figurinos: Martine Somé. Com: Makena Diop, Adama Ouédraogo, Rasmané Ouédraogo, Souleymane Souré,  Fatou Tall-Salgues, Joseph B.Tapsoba.
 Mocktar (Diop), imigrante nigeriano que vai buscar trabalho nas minas no nordeste de Burkina Faso se depara com uma realidade brutal, em que a morte por asfixia ocorre com regularidade. Mocktar sente atração pela bela e jovem Coumba (Tall-Salgues) e retorna a mina, mesmo contra a indicação de todos, e ajuda a salvar Thiam (Ouédraogo) da morte. Encontrando uma pepita, que é dividida com o restante da equipe, mas sobretudo com o líder, Mocktar sela o caminho para, com a partida do líder, Thiam se torne o novo líder. Ele auxilia a que Coumba tenha dinheiro o suficiente para ir embora com sua filha – que pretende ver educada em Paris – enquanto Thiam também decide partir, pois não consegue lidar bem com a situação de mofa constante de seus ex-parceiros.

Único filme do realizador uma década após o seu lançamento, e contando com valores de produção superiores aos que os realizadores africanos, mesmo os mais afamados – a exceção talvez de um Rachid Bouchareb – possui, deixa a desejar, no entanto, em muitos aspectos. Ficando a meio caminho entre o aberto tom romanesco cuja chave é a de Bouchareb (Dias de Glória) e uma produção de pretensões mais autorais, inclusive fazendo uso de algumas opções associadas com esse, como o afastamento de excessos melodramáticos, recusa ao sentimentalismo, final em aberto, recusa em apostar por completo na estratégia da relação amorosa, etc. Porém, o resultado final soa emblemático de algo como um drama local de pretensões universais empacotado em um invólucro de qualidade, mas esvaziado ao não conseguir de fato decolar, faltando a singeleza que propostas menos pretensiosas e infinitamente mais interessantes (como Samba Traoré), potencialmente mais realista e deixando de fora os arquétipos de Ouedraogo. Se Diop consegue assegurar com bravura a postura melancólica e o polimento não excessivo de seu personagem em relação ao seu meio (inicialmente não bebe, usa as drogas habituais que amenizam os efeitos da pressão nas minas, possui um olhar reprovador as facilidades de acesso as mulheres por parte de alguns colegas) e o seu elenco de apoio em geral o mesmo não pode ser dito da inexpressiva interpretação e figura feminina elaborado na personagem de Coumba. Athénaise/ACPAV/Sahélis Prod. 86 minutos.


domingo, 25 de dezembro de 2016

Filme do Dia: A Época da Inocência (1993), Martin Scorsese





Resultado de imagem

A Época da Inocência (The Age of Innocence, EUA, 1993) Direção: Martin Scorsese. Rot.Adaptado: Jay Cocks&Martin Scorsese, baseado no romance de Edith Wharton. Fotografia: Michael Ballhaus. Música: Elmer Bernstein. Montagem: Thelma Schoonmaker. Com: Daniel Day-Lewis, Michelle Pffeifer, Winona Ryder, Richard E.Grant, Geraldine Chaplin, Mirian Margolyes, Robert Sean Leonard.

                    Aristocrata nova-iorquino do final do século XIX, Newland Archer (Lewis), encontra-se em vias de concretizar o casamento com a jovem e pura May Welland (Rider), quando chega da Europa uma prima de Welland, a condessa Ellen Olenska (Pfeffeir), por quem Archer se sentirá fortemente atraído. Ao contrário de todas as mulheres de seu círculo social, Olenska foge aos padrões da provinciana Nova York de então, morando sozinha, procurando se divorciar do marido e com um sofisticado gosto cultural. Archer procura, de todos os meios, fazer com que Olenska não se sinta hostilizada. Após um mal sucedido jantar oferecido por ela a quem ninguém compareceu, ele consegue que a tradicional família Beaufort a chame para uma recepção. Porém, sua situação torna-se cada vez mais complexa. Incapaz de interromper o processo de casamento com May, após surpreender uma visita de um amigo de Olenska a casa de campo onde se encontra apressa, pelo contrário, o casamento. Atormentado pelo dilema entre a rejeição da sociedade em que convive e o amor por Olenska, conforma-se ao casamento e a constituição de uma família. Por duas vezes tenta contar tudo a esposa, mas é interrompido pela própria. Após  a morte de May, fica sabendo, através do filho (Leonard), que a esposa sempre soubera de sua paixão por Olenska. O filho leva-o ao apartamento onde a condessa mora em Paris, mas ele prefere não subir, pedindo para que o filho apenas diga que ele é  um sujeito antiquado.

Com fluidez e elegância visual, Scorsese nos brinda com um retrato da elite nova-iorquina do final do século XIX. O filme é marcado sobretudo pela ritmo ponderado (tanto dos personagens como do desenvolvimento da narrativa, fugindo de qualquer efeito de apelo fácil) e por explorar os mais sutis gestos  da relação entre Archer e Olenska (sua relação culposa não poderia deixar de remeter a Anna Karenina) que pode evocar tanto Barry Lyndon (1975) de Kubrick quanto Effi Briest (1974) de Fassbinder. Porém a partir do momento que Archer escolhe seguir como um morto-vivo, deixando de lado todas suas reais aspirações e covarde e humanamente passa a se conformar com a sua situação, o espectador também pode perder qualquer sentido de vitalidade ou empatia com o próprio filme, e ainda pior, sofrer com o prolongamento da dor de nosso atormentado protagonista,  que faz com que a empreitada de Scorsese de realizar seu Leopardo não se efetive plenamente.  Até mesmo porque, em comparação com o clássico de Visconti, o filme é extremamente voyeurístico e didaticamente maçante na apresentação dos costumes da época, sofrendo uma espécie de sufocamento da chamada ditadura do preciosismo visual, da direção de arte, que lembra o efeito semelhante ocorrido com 1900 (1976), de Bertolucci. Outros recursos de gosto duvidoso são o de velhos clichês como o da identificação do protagonista com a peça que está sendo exibida no teatro (já presente desde Griffith, para se referir apenas ao cinema) ou as leituras das cartas com as atrizes falando diretamente para a câmera. De qualquer forma, bem superior as inúmeras produções do gênero que Hollywood produziu na década de 90. Bela trilha de Bernstein. Columbia. 139 min.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Cruéis Jogos Infantis (1963), Frank Perry


Resultado de imagem para ladybug, ladybug 1963 poster


Cruéis Jogos Infantis (Ladybug,Ladybug, EUA, 1963). Direção: Frank Perry. Rot. Original: Eleanor Perry, sob o argumento de Lois Dickert. Fotografia: Leonard Hirschfield. Música: Bob Cobert. Montagem: Armond Lebowitz. Dir. de arte: Albert Brenner. Figurinos: Anna Hill Johnstone. Com: Jane Connell, William Daniels, James Frawley, Richard Hamilton, Kathryn Hays, Jane Hoffman, Elena Karan, Judith Lowry, Christopher Howard
        Em uma manhã como outra qualquer em uma escola americana situada no campo, o disparo acidental de um alarme nuclear provoca reações emocionais intensas. O diretor da escola, Sr, Calkins (Daniells), não conseguindo obter qualquer informação segura de que se trata ou não de um erro, decide enviar todas as crianças para suas casas. Um grupo, por morar relativamente perto, segue à pé a professora Hayworth (Hoffman). Aos poucos, cada criança vai seguindo a trilha de suas residências. A Sra. Hayworth quase em estado de choque consegue uma carona de um caminhoneiro que não entende o motivo de seu nervosismo. Um grupo de crianças é trancafiado em um porão de uma das meninas da escola, Jill (Higgins), que passa a agir ditatorialmente com todos. O mal entendido é desfeito na escola, porém as crianças continuam sem sabe-lo. Uma delas, que não encontra a mãe em casa, vai até o abrigo das crianças e Jill não permite que entre, por conta da super-lotação. Steve (Howard), parte então a procura da amiga rejeitada, que se esconde em um freezer abandonado. Steve, por sua vez, percebe um avião que misteriosamente se aproxima...
      Explorando a paranoia americana com relação ao então recente episódio da Baía dos Porcos, auge da Guerra Fria, sob a forma de uma narrativa que busca criar uma atmosfera surreal e alucinatória, digna de um filme de horror, para o qual colabora a sua sinistra trilha sonora, o filme consegue um resultado pavorosamente amadorístico e provocador de boas doses de humor involuntário. Boa parte desse humor se deve à péssima direção de atores e diálogos completamente estapafúrdios, como o da avó que decide “fazer o jogo” de seu neto e ir com ele ao porão, da professora que permanece catatônica na escola ou da Sra. Hayworth agindo como uma perfeita idiota em seu trauma nervoso. A inexistência de noções básicas de dramaturgia faz com que boa parte do início da narrativa seja a respeito de uma confusão que um aluno fez na sala e que não possui nenhuma função no desenrolar da história – pelo contrário, tal personagem logo desaparecerá de cena. O final, com a imagem fixa de Steve aterrorizado que vai se tornando cada vez mais abstrata, vem coroar a pretensão do cineasta de tentar realizar uma metáfora dos conflitos, paranoias e solidariedades do mundo adulto através dos jogos de poder (que dão vazão ao inadequado título em português) entre crianças. Sua estupenda fotografia em p&b é testemunho de um dos períodos do cinema americano em que esse gênero específico de fotografia foi mais elaborado. A paranoia americana e suas risíveis peças de propaganda exibidas nas escolas podem ser apreciadas na compilação Café Atômico. Francis Productions/Frank Perry Films para United Artists. 82 minutos.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

The Film Handbook#107: Alex Cox

Resultado de imagem para alex cox pics on the set of repo man

Alex Cox
Nascimento: 15/12/1954, Bebington, The Wirral, Inglaterra
Carreira (como diretor): 1984-

Dada a disciplina de um robusto produtor, Alex Cox pode ter se tornado um dos mais destacados diretores britânicos. Até o momento, tem revelado uma irresistível ambição, uma imaginação agressiva e, infelizmente, uma tendência errática rumo a uma prematura auto-paródia.

Após estudar cinema em Bristol e na UCLA, Cox realizou sua estreia em longa-metragem com o anarquicamente inventivo Repo Man - A Onda Punk/Repo Man>1. A história do estranho, cômico e arriscado envolvimento de um  punk de Los Angeles no universo dos carros roubados, o filme oferece uma autenticamente puída mas igualmente surreal visão das entranhas da América de Reagan: os personagens incluem um lobotomizado pesquisador nuclear, hippies aborrecidos,clones da CIA e um ladrão de carros que rouba em tensão maníaca - tudo a bordo de um Chevrolet com uma carga letal em sua carroceria - enquanto Cox combinava à perfeição um suculento thriller e paródias engenhosas de filmes clássicos como Psicose, À Queima Roupa, E.T. e A Morte num Beijo. E, melhor que tudo, o filme exalava uma energia ardente e implacável.

Sid & Nancy/Sid and Nancy>2 foi igualmente impressionante, transformando a história real sórdida e deprimente do Sex Pistol Sid Vicious e sua amante Nancy Spungeon em um romance surpreendedoramente comovente. Perspicaz em sua cautelosa celebração da rebelião do movimento punk contra a difícil realidade da Inglaterra de Thatcher, e igualmente lúcido sobre as ciladas da fama repentina, Cox nunca glamoriza seus protagonistas viciados em drogas nem, ainda mais notavelmente, condena-os por sua odisseia idiota, anti-social e frequentemente patética rumo a auto-destruição no Chelsea Hotel, de Nova York. Infelizmente, a autenticidade tensa e emocionante da atmosfera e performances não seria repetida nem na indulgente e nada divertida paródia do western-spaghetti A Caminho do Inferno/Straight to Hell nem tampouco em Walker uma irregular e pouco perspicaz sátira ao imperialismo americano na forma de um colonialista do século XIX que se define como tirano da Nicarágua.

A inteligência e o potencial de Cox são evidentes em seus dois primeiros filmes e sua articulação em entrevistas. Porém sua ânsia de originalidade e seu gosto por trabalhar com intérpretes pouco comuns e não cinemáticos precisa ser atada a um nó mais sólido de demandas e vantagens das convenções dramáticas.

Cronologia
A iconoclastia excêntrica de Cox e seu ethos punk o vincula, algo frouxamente, com outros jovens dissidentes como Julien Temple e Penelope Spheeris.

Destaques
1. Repo Man - A Onda Punk, EUA, 1984 c/Emilio Estevez, Harry Dean Stanton, Tracey Walter

2. Sid & Nancy, Reino Unido, 1986 c/Gary Oldman, Chloe Webb, David Hayman

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 64-5

Filme do Dia: Inocência Desprotegida (1968), Dusan Makavejev


Resultado de imagem para Nevinost bez Zastite poster 1968


Inocência Desprotegida (Nevinost bez Zastite, Iuguslávia, 1968). Direção: Dusan Makavejev. Rot. Original: Dusan Makavejev & Bruno Vucicevic. Fotografia: Stevan Miskovic & Branko Perak. Música: Vojislav Kotic. Montagem: Ivanka Vukasovic.

Esse documentário, realizado pelo iconoclasta Makavejev, no período mais fértil e criativo de sua carreira, consegue ser mais interessando que o mais famoso W.R. – Mistérios do Organismo (1971). Ao abordar uma produção que é tida como o primeiro filme sonoro da Iuguslávia, de mesmo nome, realizado em um país ocupado pelos alemães, em 1942, Makavejev consegue efetuar uma colagem em que convivem imagens do filme original (um melodrama tão amador que mais parece uma sátira produzida pelo próprio Makavejev a princípio), imagens originais (filmadas pela própria produção com parte do elenco – inclusive o já idoso Dragoljub Aleksic, celebridade nacional como acrobata que dirigiu o filme e foi seu protagonista, mostrando todos os seus talento na tela) e imagens de uma Iugoslávia ocupada. Ainda que em mais de um momento Makavejev contraponha imagens documentais de uma Belgrado arrasada que se chocam com o trivial, escapista e ingênuo filme de Aleksic, ele não pretende demonizar o mesmo, antes pelo contrário. Aleksic surge tão simpático e cativantemente ingênuo quanto na produção original e Makavejev (fazendo um paralelo consigo próprio que, tendo vivenciado inúmeros problemas com o governo iugoslavo, acabará por se refugiar em Paris após W.R.) não deixa de enfatizar os problemas que ele terá depois com as autoridades comunistas para demonstrar que não teve nenhum envolvimento com o governo de ocupação durante o qual sua produção foi realizada. Talvez a manutenção do título original guardará esse segundo sentido, sendo a “inocência desprotegida” agora menos a da órfã protagonista do primeiro filme que a do próprio realizador-acrobata,  que verá seu prestígio reduzido as cinzas após sua associação com os alemães e, por extensão, implicitamente, o próprio Makavejev, em significativas representações de artistas em tempos sombrios.  Num de suas melhores momentos, através do falso raccord sonoro do som de um motor de avião do filme original se tem acesso, através de um virtuoso plano-seqüência, ao porão da casa de Dragoljub, onde ele encena algo semelhante à cena do filme vista pouco antes. Talvez o mais fundamental para o seu sucesso seja o modo irônico, porém nunca cínico, que Makavejev explora sem qualquer didatismo as conexões entre memória pessoal, imagem cinematográfica e a história da Iugoslávia. Enquanto documentário que igualmente se apossa do título do filme ao qual faz referência, aproxima-se menos da tentativa de reconstituição tal e qual do original, como É Tudo Verdade (1983), que de uma tentativa auto-reflexiva e complexa em que os agenciamentos da memória e da história serão fundamentais para traçarem um paralelo entre dois momentos históricos distintos como em Cabra Marcado para Morrer (1984). Paralelo esse que aqui, mais ainda que no filme de Coutinho, é regido por uma forte dose de distanciamento emocional. De modo semelhante ao que fará posteriormente em W.R., o filme também inicia através de um modo que lembra um documentário convencional, com as entrevistas dos participantes da produção anterior, para logo depois desconstruir qualquer expectativa maior nesse sentido.  Destaque para a canção-tema, que faz menção aos feitos heroicos de Dragoljub, provavelmente tema do filme original por si só uma pérola de ironia, do modo como foi ressignificada por Makavejev. Prêmio FIPRESCI e Urso de Prata no Festival de  Berlim. Avala Film.  75 minutos. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Jaguar (1954/1969), Jean Rouch


Resultado de imagem


Jaguar (França, 1954/1969). Direção: Jean Rouch.
         Três jovens nigerianos, Lam, Illo e Damore, decidem partir em uma viagem pela Costa do Ouro, futura Gana. No caminho se deparam com os Somba, que choca-os por viverem todos nus e por serem considerados feiticeiros. Um dos jovens, Damore, afirma que é errado gracejaram dos costumes dos Somba, pois eles parecem um povo pacífico. Os amigos encontram pela primeira vez o mar e se assustam com sua força. Após terem recusadas a entrada deles na fronteira da Costa do Ouro, os três jovens passam pelas costas da aduana e se separam. A câmera segue Damore, que parte  para Accra a pé e de carona. Ele se torna um trabalhador bem sucedido em Accra, onde existe uma gigantesca feira, e passa a considerar a si próprio como um Jaguar, um homem elegante, belo e que impõe admiração a todos. Ocasionalmente os amigos se encontram em sua própria banca de feira e desmontam o negócio para retornarem para a Nigéria como homens experientes que vivenciaram realidades que a sua comunidade não vivenciou.

           Nesse filme, Rouch utiliza pela primeira vez sua técnica de cruzar documentário e ficção e faz da voz off (na maior parte das vezes de Damore, algumas vezes do próprio Rouch) e da pós-sincronização de comentários sobre a imagem, características que voltariam a se fazer presentes, no mais impactante e esteticamente elaborado Eu, um Negro. Aqui, de qualquer modo, Rouch deixa patente sua fenomenal ruptura com o filme e a antropologia etnográfica clássica, que filma ou estuda esse “outro” apenas enquanto uma curiosidade científica. Mais que isso, já que consegue espelhar esse espanto pelo exótico não no foco central do filme – os três jovens -  como era de se esperar, mas no que os próprios três jovens observam, tribos que lhe parecem grotescamente primitivas, em um primeiro momento. A partir desse movimento oposto da etnografia clássica, o cineasta consegue expressar a subliminar mensagem de que todo ato bárbaro é o efetivado por uma outra cultura que não a nossa, ao mesmo tempo que o critério de racionalidade para julgá-lo não é outro que o de nossa própria sociedade. Filmado em 16 mm.  Les Films de La Plêiade. 110 minutos.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Nise: O Coração da Loucura (2015), Roberto Berliner

Nise-O-coração-da-loucura-poster


Nise: O Coração da Loucura (Brasil, 2015). Direção: Roberto Berliner. Rot. Original: Flávia Castro, Maurício Lissovski, Maria Camargo, Chris Alcazar, Patrícia Andrade, Leonardo Rocha & Roberto Berliner. Fotografia: André Horta. Música: Jaques Morelenbaum. Montagem: Pedro Bronz & Leonardo Domingues. Dir. de arte: Daniel Flaksman. Com: Glória Pires, Felipe Rocha, Fernando Eiras, Cláudio Jaborandy, Zécarlos Machado, Augusto Madeira, Bernardo Marinho, Flávio Bauraqui, Charles Fricks, Georgiana Góes, Simone Mazzer, Roney Villela, Fabrício Boliveira.
Hospital psiquiátrico de Engenho do Dentro, Rio de Janeiro, 1944. A Dra. Nise da Silveira (Pires) retorna ao hospital após uma temporada afastada e fica chocada com as más condições em que se encontram os pacientes e com o tratamento desumano, sob a prerrogativa científica, que lhe são aplicados por seus colegas de profissão. Incapaz de se aliar ao grupo, ela assume o setor destinado a terapia ocupacional, comandado por dois enfermeiros, Lima (Madeira) e Ivone (Rodrigues), que não prestam a menor atenção aos pacientes. A Dra. Nise não apenas reformula o espaço, antes repleto de destroços como também o modo como os enfermeiros devem tratar o que ela pede que sejam chamados de clientes. Almir (Rocha), outro funcionário do hospital, dá-lhe a ideia de trabalharem com material de pintura. Em relativamente pouco tempo uma diversidade de talentos emerge. Dentre os pacientes que começam a se destacar em suas obras se encontram o até então incomunicável Emygdio (Jaborandy), Fernando Diniz (Boliveira), Otávio Inácio (Bauraqui), o introspectivo Raphael (Marinho) e Adelina Gomes (Mazzer). Uma estudiosa de artes plásticas vai trabalhar com a equipe, Marta (Góes), que Nise designa para acompanhar exclusivamente Raphael. Numa pequena exposição montada na própria instituição, as obras despertam o interesse do mais renomado crítico de arte brasileiro da época, Mário Pedrosa (Fricks), que estimula Nise a tentar driblar as barreiras institucionais e apresentar os trabalhos em outros ambientes, como forma igualmente de lutar contra os setores conservadores da instituição, tais como o Dr. Nélson  (Machado).
Que não se espere nada muito além de um recorte bastante convencional, em sua abordagem, dessa cinebiografia da psiquiatra Nise da Silveira e seu trabalho pioneiro de terapia através da arte e igualmente estimulado pelas teorias do inconsciente de Jung, com quem chega a se comunicar, tal como presente a determinado trecho. A obra de Silveira havia sido tema do documentário muito comentado e pouco visto, de 3 horas e meia de duração, Imagens do Inconsciente (1987), último filme de Leon Hirzsman, que morreria no mesmo ano e do qual o filme se apropria ao final para apresentar os artistas-pacientes retratados, assim como a própria Nise. A partir da fala libertária, desmesurada e algo descontraída dessa no documentário se tem uma medida do abismo que separa sua figura e o trabalho levado a cabo por ela da ressignificação imposta pela dramaturgia um tanto convencional do filme. Dito isso, seria algo injusto julgar o filme pela proposta que se pensou potencialmente mais próxima do que seria o documentário de Hirzsman, qual fosse, e não pela que de fato foi escolhida, tão digna quanto qualquer outra. Na opção escolhida, salienta-se a interpretação segura de Pires (recém-saída de outra cinebiografia de outra personalidade brasileira contemporânea de Nise e de personalidade igualmente forte, Lota de Macedo Soares em Flores Raras (2013), de Bruno Barreto e um trabalho de direção de arte que valoriza a evocação ao período dentro da padrões modestos e que evitam cenas externas que requeriam um maior esforço de reconstituição histórica. Porém, mesmo se respeitando a opção grandemente clássica do filme, com direito a um maniqueísmo demasiado raso entre os psiquiatras do mal, encarnados na figura de Nélson e as práticas heterodoxas de Nise no eixo do bem, o filme desliza em episódios fragmentários e situações de conflito – como o da morte dos animais de estimação que eram um dos cavalos de batalha da terapia humanista de sua protagonista, que carecem de uma maior reformulação orgânica por parte de seu realizador. Noutros casos, certas cenas, como a do sexo entre dois pacientes, parece uma opção menos inserida como pretenso fomentador de tensão dramática  – o surgimento da gravidez em uma das pacientes – a ser desconstruído retrospectivamente, que como mera dispersão voyeurista, já que a cena não funciona nem como drama nem como cômica. Algo que fica patente em seu final algo abrupto, apelando para o clichê das imagens documentais teoricamente a corroborarem a construção dramática observada em todos os momentos anteriores. TV Zero. 106 minutos.

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Filme: O Libertador (1940), John Cromwell


Resultado de imagem para abe lincoln in illinois poster 1940


O Libertador (Abe Lincoln in Illinois, EUA, 1940). Direção: John Cromwell. Rot. Adaptado: Grover Jones & Robert Sherwood,  a partir da peça do último. Fotografia: James Wong Howe. Música: Roy Webb. Montagem: George Hively. Dir. de arte: Van Nest Polglase. Cenografia: Casey Roberts. Com: Raymond Massey, Gene Lockhart, Ruth Gordon, Mary Howard, Minor Watson, Alan Robets, Harvey Stephens, Howard Da Silva.
Partindo de New Orleans e se estabelecendo como um relativamente simples advogado do Kentucky, Abe Lincoln (Massey), torna-se o chefe dos correios e logo é eleito deputado estadual, a partir de seu crescente carisma. Sua vitória coincide com a morte de sua amada Ann Rutledge (Howard). Posteriormente, Lincoln se vincula à advocacia e se torna o motivo de admiração da dama da sociedade Mary Todd (Gordon), para o horror de sua família. Eleito congressista em Washington, concorre à presidência, derrotando o rival Stephen Douglas (Lockhart), fazendo um discurso emocionado ao partir do Kentucky.
Essa esquecida produção talvez seja a mais razoável adaptação biográfica do célebre presidente norte-americano, compartilhando com a contemporânea e mais famosa A Mocidade de Lincoln (1941), de John Ford, o fato de se deter no período de formação do político. Sua vantagem em relação ao filme de Ford se encontra em se afastar do excessivo sentimentalismo-paternalismo de viés populista, bastante comum nas produções de recorte mais histórico do realizador, mesmo sendo menos inventiva visualmente. As situações mais perigosamente prestativas a tal tipo de situação, como o do reencontro entre Lincoln e o local onde sua mãe foi enterrada, com a presença da voz over repetindo desnecessariamente uma frase que lhe dissera quando de sua despedida, mesmo sendo pouco criativa em termos de epifania, tampouco arrisca cair no pieguismo excessivo. Seu Lincoln, melancólico e taciturno, não consegue se entregar a alegria nem mesmo quando recebe a notícia de sua vitória sobre uma campanha que pouco antes afirmara ser a mais corrupta da história americana. Livre das obrigações de verossimilitude histórica e de mimetismo, inclusive evidentemente com relação a caracterização de seu protagonista, que impregnam em demasiado a realização de Spielberg de mais de sete décadas após (Lincoln), o filme consegue lidar com bastante maturidade no respeito ao complexo relacionamento entre Lincoln e sua esposa, vivida com brilhantismo e sagacidade pela então estreante Gordon. Consegue ser bem mais efetivo, inclusive, em sua opção final, que não procura acrescentar nenhum desnecessário desfecho, por demais forçado na produção de Spielberg, relativo ao assassinato de Lincoln. O longo e emocionado discurso final, assim como a imagem de Lincoln se afastando do povo no trem acaba por se tornar muito mais significativa e pungente que o proselitismo deslocado que finda  Lincoln. Max Gordon Plays & Pictures Corp. para RKO Radio Pictures. 110 minutos.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Quando uma Mulher Sobe as Escadas (1960), Mikio Naruse


Resultado de imagem para Onna Ga Kaidan wo Agaru Toki poster 1960

Quando uma Mulher Sobe as Escadas (Onna Ga Kaidan wo Agaru Toki, Japão, 1960). Direção: Mikio Naruse. Rot. Original: Ryuzo Kikushima. Fotografia: Masao Tamai. Música: Toshirô Mayuzumi. Dir. de arte: Satoshi Chuko. Figurinos: Hideko Takamine. Com: Hideko Takamine, Masayuki Mori, Reiko Dan, Tatsuya Nakadai, Daisuke Katô, Ganjiro Nakamura, Eitarô Ozawa, Keiko Awaji.

Keiko Yashiro (Takamine), jovem víuva, conhecida como Mama,  leva para frente um clube no bairro boêmio de Ginza. Os negócios se tornam difíceis com a concorrência de uma mulher que trabalhara para ela e que conquista a maior parte de seus clientes. Mama não dessiste, no entanto. Sua idéia é de montar um novo bar. Enquanto isso, a jovem que fora sua concorrente lhe afirma que se encontra cheia de dívidas e pouco tempo depois se suicida. O rico homem que propõe a Mama seu próprio negócio é o mesmo que pressionara a jovem morta com as dívidas, e ela recusa. Sendo corteja por Keiko (Katô), um gentil homem que lhe propõe casamento, Mama parece disposta a aceitá-lo, mas logo descobre que ele é casado e aplica com freqüência esse golpe para seduzir várias mulheres solitárias. Bêbada, finalmente se declara apaixonada por Nobuhiko (Mori), homem casado que partirá no dia seguinte para Osaka. Nobuhiko promete ajudá-la nos negócios. Ela vai até a estação ferroviária e presenteia sua família. Na manhã seguinte do dia que dormira com Nobuhiko, recebe a visita de um indignado Kenichi (Nakadai), jovem gerente de seu bar, que declara sua paixão por ela e é recusado. Com todas as tormentas pessoais e financeiras, Mama continua levando a vida com a mesma dignidade de sempre.

A metáfora vinculada ao título que orienta esse típico melodrama de Naruse, onde amor e dinheiro se encontram na balança do sempre difícil equilíbrio feminino da sobrevivência é a referida por sua própria protagonista diante das escadas de sua moradia. Trata-se de algo que a enfada, mas que ela tem que enfrentar sem muito parar para pensar. Tal como sua própria vida. A dimensão prática da vida deve se sobrepor aos altos e baixos que lhes são inescapáveis. A certo momento, o filme pode sugerir que a contraposição seria entre o estilo antiquado de se vestir e de recepcionar em seu bar e o da jovem que se veste nos padrões ocidentais e lhe rouba a clientela.  Logo, no entanto, fica patente que Mama se sente solidária, enquanto mulher, de seu infortúnio. Filmado em preto&branco e tela larga, ocasionalmente pode ser evocativo dos melodramas sirkeanos da década anterior, como quando observamos Mama tentando se adequar a possibilidade futura de uma vida de casada e a câmera a mostra devidamente “enquadrada” pelas paredes do quarto. Porém em Naruse raramente a concretização do amor segue unida ao desgastante cotidiano, podendo ser evocada em um passado feliz (como no casamento de Mama) ou na ilusão de poder ter se unido ao amante de uma única noite. Aqui, menos do que em outros filmes, a amargura que tal solução, tomada por decisão própria ou não, acarreta, parece ser menos acentuada – ou, pelo menos, somente vir a tona através do álcool – do que na maior parte de seus filmes, emprestando uma maior dignidade a consciência da solidão. Uma das estratégias comuns para criar uma identificação com suas protagonistas é justamente sua dignificação, que pode aqui ser contraposta com a personagem secundária de Junko, que simplesmente se vende para uma homem bem mais velho com o objetivo de conseguir montar seu próprio bar. A metáfora da escada já implica que a dificuldade faz parte da vida e se deve aceitá-la com resignação. Takamine, que quase sempre estrelou  mulheres em situação semelhante, conserva o seu habitual brilho e foi também responsável pelos figurinos do filme.  Curiosamente Katô faria o mesmo papel de homem cortês, servil e tímido, porém dessa vez sincero, em Lonely Lane (1962). Toho. 111 minutos.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Hannah Arendt (2012), Margarethe von Trotta


Resultado de imagem para hannah arendt 2012 poster

Hannah Arendt (Alemanha/França/Luxemburgo, 2012). Direção: Margarethe von Trotta. Rot. Original: Pam Katz & Margarethe von Trotta. Fotografia: Caroline Champetier. Música: André Mergentheler. Montagem: Bettina Böhler. Dir. de arte: Volker Schäfer & Ania Fromm. Cenografia: Petra Klimek. Figurinos: Frauke Firl. Com: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet Mcteer, Julia Jentsch, Ulriche Noeten, Michael Degen, Nicholas Woodeson, Klaus Pohl, Friederike Becht.
Nova York, 1961. A filosófa e professora Hannah Arendt (Sukowa), já conhecida por sua obra pioneira sobre o tema, As Origens do Totalitarismo, é convidada pela revista New Yorker para escrever a respeito do julgamento de Adolf Eichmann, um dos nomes mais importantes do nazismo, que ocorre em Jerusalém. Seus ensaios, que abordam o tema de uma forma complexa e não maniqueísta, referindo-se inclusive ao envolvimento dos próprios judeus no holocausto, mesmo contando com a compreensão de seu editor, William Shawn (Woodeson), geram uma reação irada de amplos setores da sociedade norte-americana e sua hostilidade dos colegas professores universitários, assim como de vários de seus amigos. Em meio a tanta pressão, Arendt relembra momentos de seu envolvimento afetivo com Martin Heidegger (Pohl) e se angustia com o acidente vascular cerebral sofrido pelo marido, Heinrich (Milberg). Apesar de tudo, Arendt não se escusa em fazer uma defesa pública de seus argumentos na própria universidade.

Sukowa talvez seja um dos melhores motivos para a existência desse filme que, ao contrário do que o título poderia apontar, não é exatamente uma cinebiografia, mas antes se centra em um momento bastante preciso da trajetória de sua biografada (estratégia essa, aliás, semelhante a que a realizadora havia empreendido em alguns de seus filmes mais célebres sobre personagens femininas “em tempos sombrios”, seja ficcionais como em A Honra Perdida de Katharina Blum ou personalidades do mundo histórico como Rosa Luxemburgo, vivida pela mesma Sukowa). O que o filme possui de modesto, em termos de valores de produção que emulam os ambientes da época é compensado pela densidade com que se adentra no drama de sua protagonista, atormentada e dividida entre o seu comprometimento ético e intelectual, sua integridade moral de um lado e a ruína de sua imagem pública e o esgarçamento de alguns dos laços afetivos mais importantes. Dentro desse espectro, talvez soem desnecessários os prolongados momentos em que se observa  a defesa de Eichmann de si próprio no julgamento ou – e ainda mais – a recriação dos momentos de envolvimento com Heidegger. Ao conseguir se esquivar relativamente bem da mera recriação mimética de seus ilustres personagens, explorada como nunca pelo cinema de sua época, o filme nem por isso consegue um tento de apagar de todo  sua narrativa e interpretações algo irregulares. Seu final, intensamente abrupto, pode igualmente ser apreciado como uma recusa do tradicional tom conclusivo e ao mesmo tempo conciliatório com o qual os desfechos de conflitos apresentados por narrativas similares são elaboradas pelo cinema. Heimatfilm/Amor Fou Luxembourg/MACT Prod./Sophie Dulac Prod./Metro Communications/ARD Degeto Film/BR/WDR para NFP Marketing & Dist. 113 minutos.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Filme do Dia: Minha Querida Brigitte (1965), Henry Koster


Dear Brigitte Movie Poster

Minha Querida Brigitte (Dear Brigitte, EUA, 1965). Direção: Henry Koster. Rot. Adaptado: Nunnally Johnson & Hal Kanter, a partir do romance Erasmus with Freckles. Fotografia: Lucien Ballard. Música: George Dunning. Montagem: Marjorie Fowler. Dir. de arte: Malcolm Brown & Jack Martin Smith. Cenografia: Steven Potter & Walter M. Scott. Figurinos: Moss Mabry. Com: James Stewart, Fabian Glinys Johns, Cindy Carol, Bill Mumy, Ed Wynn, John Williams, Jack Kruschen, Howard Freeman, Jane Wald.

Um apatetado professor de literatura e poeta, Robert Leaf (Stewart) vive na região da Baía de San Francisco e pretende acobertar o dom do filho Erasmus (Mumy), que consegue resolver cálculos com a rapidez de um computador. Descoberta por uma professora, logo a notícia chega aos jornais, mesmo a professora tendo prometido a família silêncio. Trata-se da gota d’água já que Leaf vive as turras com alunos cada vez mais interessados em seguirem carreiras nas ciências exatas. Erasmus possui uma atração secreta pela estrela do cinema francês Brigitte Bardot, a quem escreve cartas.  Em pouco tempo, Erasmus se torna uma celebridade e a mídia o persegue na escola ou em casa, um barco atracado. A primeira a tentar tirar partido da genialidade do irmão na família é Penny (Carol), sua irmã mais velha. E alguns outros conflitos na família surgem. Leaf pretende fazer uso da habilidade do filho para incentivar o estudo das humanidades. Porém, Peregrine Upjohn (Williams), seu sócio no projeto, tem um objetivo mais pragmático: fugir com o dinheiro. Erasmus recebe resposta de Bardot o convidando a conhecê-la. Após muita pressão do filho, Leaf, mesmo contra a vontade de Upjohn, decide viajar para a França, onde ambos visitam a casa da estrela, que presenteia Erasmus com um cãozinho.

Francamente aborrecido, esse filme, grandemente dependente dos intermináveis e aborrecidos diálogos, é um veículo para Stewart, já em início de declínio em sua carreira, assim como pretende gerar frutos ao associar seu título à musa do cinema francês no auge de sua carreira, Bardot, que surge ao final. Sua narrativa é comentada a todo momento por um não menos aborrecido personagem vestido como marinheiro e que não não possui outra função na vida que observar a vida de Robert Leaf e seus próximos. Stewart parece reciclar o seu papel de idealista excêntrico e incorruptível dos filmes de Capra – há inclusive uma menção direta por parte da personagem a leis de proteção social dos tempos de Roosevelt -  com o mesmo semblante grave e gestos. E, para além das referências ao universo do cinema, é o clichê da “alma de poeta” que justifica sua postura pouco prática e inábil  com uma sociedade agressivamente competitiva. Como Bardot proibiu sua inclusão nos créditos dessa produção o título do filme, que originalmente seria o mesmo do romance ao qual foi adaptado, foi mudado para ressaltar a sua presença nele. 20th Century Fox Film Corp. 100 minutos.