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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

The Film Handbook#111: Eric Rohmer

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Eric Rohmer
Nascimento: 21/03 (ou 04/04)/1920, Tulle, França
Morte: 11/01/2010, Paris, França
Carreira (como realizador): 1951-2007


Permanecendo fiel a seu estilo e preocupações, e resistindo as vicissitudes da moda, Eric Rohmer (nascido Jean-Marie Maurice Scherer) tem construído uma obra única e consistentemente magnífica, talvez sem paralelo em sua perspicácia psicológica. E não deixa de ser irônico que seja através da palavra falada e com uma sensibilidade formal em parte derivada da literatura, que ele tenha se tornado um dos maiores diretores realistas do cinema.

Após ensinar literatura ao longo dos anos 40, Rohmer passou a crítica de cinema e eventualmente se tornaria editor do Cahiers du Cinéma. Ao mesmo tempo, começando com Charlotte e Seu Bife/Présentation ou Charlotte et son Steak (apresentando Godard como seu único ator masculino), passaria a dirigir curtas. Não foi antes de 1959, no entanto, que realizaria seu primeiro longa, O Signo do Leão/Le Signe du Lion>1, uma parábola imaculadamente atenta, na qual um músico, equivocadamente dependente de uma herança, encontra-se por acaso sem dinheiro, amigos e reduzido a vagabundear pelas ruas hostis de Paris em agosto. Mais tradicionalmente realista que os filmes de seus colegas da Nouvelle Vague, o filme foi grandemente negligenciado, e somente em 1963 ele se encontraria capaz de voltar à direção com dois deliciosos curtas realizados em 16mm, A Padeira do Bairro/Le Boulangere de Monceau e A Carreira de Suzana/La Carrière de Suzanne. Eles iniciaram uma série de seis "Contos Morais": meditações lúcidas, irônicas mas não moralistas sobre as minúcias do comportamento humano. Em cada um dos filmes, o enredo diz respeito a um homem, compromissado ou em vias de se comprometer com uma garota que outro rapaz demonstra interesse; em A Colecionadora/La Collectioneuse, dois homens decidem não dormir com uma garota promíscua, que virtualmente os ignora de todo jeito; e em Minha Noite com Ela/Ma Nuit Chez Maud>2, um católico, tendo já determinado se casar com uma completa estranha que frequenta a mesma igreja que ele, passa uma noite inteira com uma divorciada liberal, resistindo à sedução de forma não muito decidida. Evitando clichês melodramáticos, Rohmer simplesmente observa, com preciso e engenhoso senso de detalhe, as trajetórias emocionais e intelectuais pelos quais seus personagens chegam a uma escolha: palavras, ações e gestos expõe o abismo entre impulso e razão, idealismo e pragmatismo, determinismo e livre arbítrio. E as imagens de Rohmer, acuradamente esplêndidas e peculiares em relação ao tempo e ao espaço, transformam o que de outra forma poderiam ser meros exercícios literários em tocantes revelações cinematográficas de rara inteligência. Igualmente notável, enquanto seus personagens falam sobre uma diversidade de assuntos durante os complexos rituais de corte, ele constrói uma investigação de múltiplos níveis sobre questões espinhosas como a natureza do amor, da beleza, da verdade e da vida.

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O breve e discreto olhar de soslaio: um elemento chave no preciso vocabulário fílmico de Rohmer, como observado em A Mulher do Aviador

O formalismo quase neoclássico e as alusões literárias de O Joelho de Claire/Le Genou de Claire>3, que apresentava um herói confrontado com uma verdadeira trindade de mulheres e Amor à Tarde/L'Amour l'Aprés-midi, o último dos seis "Contos Morais", apareceram novamente tanto em A Marquesa d'O/Die Marquise von O...>4 e Perceval O Galês>5. Uma vez mais, apesar de Rohmer estar trabalhando uma novela de Heinrich Von Kleist (sobre una nobre do século XIX, violentada em seu sono, que publiciza para que o desconhecido pai de sua criança se apresente por conta própria) e um épico do século XII de Chrétien de Troyes, permanece fiel a si próprio (Perceval, em sua busca pelo cálice, descobrirá sobre os perigos de se conversar demasiado) assim como às suas fontes; e, como para refutar os cegos aos seus talentos visuais, ele iluminou e desenhou esses filmes para evocarem, respectivamente, o Romantismo Alemão e as pinturas medievais.

Com o início dos anos 80 e A Mulher do Aviador/La Femme de l'Aviateur, Rohmer inicia uma segunda série de filmes ("Comédias e Provérbios"). Como anteriormente, ele se concentra em palavras, pensamentos e emoções mais que no enredo, mas sua atenção agora se foca em grupos de personagens, frequentemente próximos ou com pouco mais de vinte anos, interpretados por uma trupe semi-regular de atores grandemente desconhecidos. Temas comuns básicos novamente estão presentes na série: a impossibilidade do amor perfeito e o modo como as capacidades humanas tendem a ser superadas por esperanças e ambições. Em A Mulher do Aviador>6, um jovem carteiro recruta uma colegial para espiar sua namorada, que suspeita de infidelidade, tardiamente se dá conta que sua obsessão autocentrada lhe custará a relação com ambas; em Pauline na Praia/Pauline à la Plage>7, uma adolescente, emocionalmente mais amadurecida e verdadeira que os mais velhos, compreende o universo do mundo adulto, após sofrer, graças a mentira de um amante hipócrita, as dores do ciúme; e  em Noites de Lua Cheia/Les Nuits de la Pleine Lune, o desejo unilateral de uma garota por independência sai pela culatra quando o amante reage a sua saída arranjando uma nova namorada. Esse pessimismo foi contrabalançado  pela afeição de Rohmer por seus personagens, uma compaixão mais evidente no grandemente improvisado O Raio Verde/Le Rayon Vert>8, no qual uma garota tímida, abandonada pelos amigos no verão e cheia de auto-piedade, viaja sozinha pela França na busca sem grande esperança de encontrar o namorado perfeito. Incrivelmente interpretado (por um elenco em parte amador), apresentando um sutil simbolismo nas cores e repleto de cenas de cativante decepção (uma discussão durante uma refeição sobre o vegetarianismo da garota, um passeio solitário por uma praia repleta nas férias), o filme finda com um comovente e virtualmente imperceptível milagre: a aparição de um raio sobre um por do sol, implicando de forma ambígua a fé da heroína em sua felicidade futura.

Antes de O Amigo de Minha Amiga/Le Ami de Mon Amie, um romance quadrangular deliciosamente complicado e o último das "Comédias e Provérbios", Rohmer realizou As 4 Aventuras de Reinette e Mirabelle>9. Outro exercício em improvisação, explorando o desenvolvimento gradual da amizade entre um estudante parisiense e uma garota que ele encontra no campo. Tipicamente crível e psicologicamente astuto, o filme confirmou a permanente juventude de Rohmer (sua sutil e pouco comum engenhosidade, narrativa peculiar e baixos orçamentos reminiscentes dos métodos da Nouvelle Vague), e apresentando seu fascínio com as alegrias de se ver: o efeito de uma cena tensa com o suspense enquanto o casal permanece no campo  ao alvorecer, pretendendo vivenciar o silêncio absoluto, é puramente cinemática.

Rohmer revela uma rara habilidade de mesclar observações triviais com precisão psicológica e discussão filosófica; palavras, imagens e interpretações se combinam para criar um estilo distinto de cinema, tão sensual quanto inteligente. Sua façanha, no entanto, poderia ser menos profunda se sua atitude em relação aos seus personagens fosse menos generosa; e  é esse entusiamo não sentimental que tornam suas inúmeras observações obsessivas sobre um tema tão infinitamente dignas de serem assistidas.

Cronologia
Apesar de Rohmer ter co-escrito um livro com Chabrol sobre Hitchcock, seus próprios filmes são talvez mais influenciados pelos de Mankiewicz (em seu amor pela palavra falada) e Renoir (em seu humanismo e realismo poético). Seu estilo é hoje tão assegurado e único que comparações com seus contemporâneos são inevitavelmente inexatas. Seus filmes não se assemelham com os de seu produtor associado por longo tempo Barbet Schroeder, que atuou em A Padeira do Bairro.

Destaques
1. O Signo do Leão, França, 1959 c/Jean Hahn, Van Doude, Michéle Girardon

2. Minha Noite com Ela, França, 1969 c/Jean-Louis Triintgnant, Françoise Fabian, Marie-Christine Barrault

3. O Joelho de Claire, França, 1970 c/Jean-Claude Brialy, Beatrice Romand, Aurora Cornu

4. A Marquesa d'O, Alemanha, 1976 c/Edith Clever, Bruno Ganz, Peter Luhr

5. Perceval O Galês, França, 1978, Fabrice Luchini, André Dussolier, Arielle Dombasle

6. A Mulher do Aviador, França, 1980 c/Philippe Marlaud, Marie Rivière, Anne-Laure Meury

7. Pauline na Praia, França, 1982 c/Amanda Langlet, Arielle Dombasle, Pascal Gregory

8. Raio Verde, França, 1986 c/Marie Rivière, Rosette, Carita, Vincent Gauthier

9. As Quatro Aventuras de Reinette e Mirabelle, França, 1987 c/Jessica Forde, Joelle Miquel, Marie Rivière

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 243-5.

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