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sábado, 4 de março de 2017

Filme do Dia: Onde Jaz o Teu Sorriso? (2001), Pedro Costa & Thierry Lounas

Onde Jaz o Teu Sorriso?

Onde Jaz o Teu Sorriso? (Oú Gît Votre Sourire Enfoui?, França/Portugal, 2001). Direção: Pedro Costa.

Esse admirável documentário, parte integrante da série Cinema de Nossos Tempos, ao invés de ficar preso somente a depoimentos dos realizadores, através de material de arquivo ou filmado diretamente pelos realizadores, apresenta o casal Danièlle Huillet e Jean-Marie Straub em seu processo de montagem de seu longa Gente da Sicília. Como em filmes recentes que havia realizado, talvez de modo mais radicalmente em seu No Quarto da Vanda (2000), Costa consegue um admirável resultado com sua estratégia de um distanciamento diante do que é filmado que traz paradoxalmente uma profunda proximidade, muitas vezes para além do concebível, fazendo tornar uma proposta também dedicada a exploração de processos e toda a inquietação deles resultante em algo igualmente documental, como é o caso do cinema direto norte-americano dos anos 1960, longe de conseguir tal efeito. Aqui sobrepõe-se belamente a imagem do filme sendo montado pelo casal muitas vezes às imagens do próprio documentário, numa mescla que parece forçar os limites de compreensão do próprio corte, assim como do enquadramento, e igualmente o discurso  de Huillet e, sobretudo Straub, mescla idéias sobre a imagem e as motivações do corte mas divagam para bem além, refletindo sobre a própria natureza de seu cinema em contraposição a um cinema que se acredita psicologista pela interpretação do elenco, mesmo em seus melhores exemplos, como o de Woody Allen e Cassavetes, assim como lembranças pessoais e afetivas. Straub faz questão de lembrar que o psicologismo não se encontra ausente de seus filmes, mas eles se encontram mais no processo que essas imagens serão organizadas do que transpostos para o trabalho do elenco, onde se segue uma interpretação de cunho altamente anti-naturalista e teatral. A câmera de Costa, invariavelmente imóvel como em seu filme anterior, flagra as escaramuças entre o casal, sobretudo em seus momentos iniciais, motivado pela tensão entre a irrefreável sede de divagações de Straub, portando sempre um charuto, mas longe da aparente placidez algo forçosamente contida de um Godard, passeando pelo corredor adjacente a sala de montagem. E também como naquele é notável o quanto o realizador consegue tirar partido até mesmo dos ambientes mais restritos, como a sala de edição onde transcorre a maior parte do documentário ou o belo plano final, que apresenta um ansioso Straub aguardando o final da exibição de um filme seu para entrar na sala.  O jogo de luzes e sombras, também bastante explorado nos filmes de ficção realizados no período, somente deixará se entrever o rosto de Huillet já bastante depois de iniciado o filme, algo igualmente favorecido pela ausência de planos aproximados, uma das estratégias para o “distanciamento aproximado” construído por Costa.  Trata-se igualmente de um documentário fecundo pois não só apresenta um processo de realização de realizadores que certamente influenciaram a obra de Costa, como marcado igualmente por estratégias autorais associadas ao próprio Costa, algo longe de acontecer naqueles episódios da série que apenas procuravam registrar, sobretudo através da forma mais convencional de depoimentos, o processo criativo de realizadores como Bresson, Pasolini ou Rohmer, algo presente tanto na primeira versão, como na mais recente da série.  AMIP/Contracosta/Arte France/INA. 73 minutos.

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