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sexta-feira, 10 de março de 2017

The Film Handbook#118: Robert Altman

Robert Altman filming MASH (1970)

Robert Altman
Nascimento: 20/02/1925, Kansas City,  Missouri,  EUA
Carreira (como diretor): 1957-2006

Nos anos 70, enquanto o cinema comercial hollywoodiano naufragou, os melhores filmes americanos foram realizados por Robert Altman. Um outsider por natureza, ele intuitivamente se opôs às heroicas e consistentes tradições narrativas para criar um estilo revigorante e pessoal e uma crítica consistentemente provocativa do Sonho Americano.

Tendo servido como aprendiz em documentários industriais, os primeiros longas de Altman provaram ser pouco auspiciosos: Os Delinqüentes/The Delinquents e um documentário sobre James Dean - ambos realizados em meados dos anos 50 - são hoje quase esquecidos. Ele trabalhou então por uma década em séries de televisão tais como Bonanza e Alfred Hitchcock Presents antes de realizar, em 1967, No Assombroso Mundo da Lua/Countdown um inteligente e raramente humano drama sobre a corrida espacial, notável em parte pela autenticidade de sua modestia técnica. Somente com M*A*S*H*>1, no entanto, foi que seu estilo único se fez sentir. Essa aparentemente caótica comédia de humor negro, sobre as anárquicas aventuras de uma unidade médica móvel do exército durante a Guerra da Coréia, fez um uso inventivo de um grande elenco, mal compreensível diálogos em vários canais e uma espontaneidade nas interpretações quase improvisada. Com toda sua alegre zombaria dos heróis convencionais de guerra, o filme (que claramente pretendia evocar a Guerra do Vietnã) foi prejudicado pelos clichês cínicos; infelizmente, mas talvez não surpreendentemente, permanece como o maior sucesso comercial de Altman.

Desde então, a prolífica produção em breve atingiu a maturidade. Após Voar é Com os Pássaros/Brewster McCloud>2, uma história que atualiza de forma nada convencional o mito de Ícaro que introduzia o protagonista arquetípico e sonhador de Altman, muito de sua obra apresentou variações sobre gêneros há muito enraizados: o western (Onde os Homens São Homens/McCabe and Mrs.Miller>3, Oeste Selvagem/Buffalo Bill and the Indians), cinema noir (O Último Adeus/The Long Goodbye>4), o filme de gangster rural (Renegados Até a Última Rajada/Thieves Like Us), o filme "de chapas" (Jogando com a Sorte/Califórnia Split), o musical de bastidores (Nashville>5), a ficção-científica pós-apocalíptica (Qinteto/Quintet) e o filme de encontro romântico (Um Casal Perfeito/A Perfect Couple). Transcendendo a sátira e a paródia, as ruminações semi-cômicas de Altman foram dissecações críticas da mitologia americana, povoadas por perdedores desiludidos e solitários em busca do sucesso rápido.  Mccabe e Mrs. Miller, pioneiros que almejam trazer Civilização e Capitalismo para uma cidade fronteiriça de mineradores são um tímido e não assumido jogador (confundido com um pistoleiro procurado, proporcionando um soberbo tiroteio sobre a neve) e uma madame de bordel viciada em ópio; em Um Perigoso Adeus, o detetive particular de Raymond Chandler torna-se um vacilante anacronismo moral, perplexo pelo implacável oportunismo e corrupção que definem a elite de L.A.

O estilo democrático de Altman, através do qual os espectadores "tomam partido" no filme ao escolherem dentro de sua banda sonora matraqueante e ampla galeria de personagens o que quiser escutar e ver, atingiu seu ápice em Nashville. Uma narrativa épica de uma semana nas vidas de 24 músicos e fãs que participam de um festival de música country, suas observações fragmentariamente impressionistas retêm uma surpreendente pungência emocional; sua ebuliente tapeçaria da vida cultural americana é enganadoramente informal, seus padrões firmemente tecidos, habilmente escondidos sobre a aparência de naturalismo. Desapontadoramente, os posteriores Cerimônia de Casamento/A Wedding e Política do Corpo e Saúde/Health, experiências a partir de premissas semelhantes, foram menos bem sucedidos.

A mais bizarra das peças de gênero foi Popeye>6, com as figuras das tiras de E.C.Segar sendo trazidas miraculosamente à vida por atores reais, com efeito bastante anárquico, complexo e profano para as crianças, fracassando; uma incursão bem menos satisfatória no universos das histórias em quadrinhos foi o posterior O.C.& Stiggs. No ínterim um lado menos efervescente para a visão pessoal de Altman apareceu periodicamente em trabalhos mais intimistas, frequentemente sombrios - mesmo tenebrosos - psicodramas sobre mulheres redefinindo a si próprias sob pressão. Uma Mulher Diferente/That Cold Day in the Park e Três Mulheres/3 Women, portanto, antecipam James Dean, O Mito Sobrevive/Come Back to the Five and Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean>7, a primeira de várias adaptações ambiciosas de peças de teatro. Ao observar a reunião reveladora de um grupo de mulheres - membras envelhecidas de um fã-clube de James Dean de uma pequena cidade - a câmera, continuamente deambulante em um cenário de um bar para solteiros até pousar em rostos em primeiro plano - ilumina as emoções recônditas e sombrias que permanecem não expressas pelas palavras. Tais experiências (O Exército Inútil/Streamers, Louco de Amor/Fool for Love, Além da Terapia/Beyond Therapy) culminaram em A Honra Secreta/Secret Honor>8, no qual uma assombrosa variedade de perspectivas servem para explorar a loucura, mediocridade e desilusões de um personagem, o melhor perdedor de Altman, Richard Milhous Nixon, dialoga com seu gravador, enquanto aguarda e reprova seu perdão pelo escândalo de Watergate.

O obstinado foco recente de Altman em adaptações teatrais o fez perder inclusive seus seguidores mais devotos; ele parece se inclinar solitariamente na redefinição da tênue linha que separa cinema de teatro. Foram-se as variações de gêneros e os grupos tagarelas de personagens, ainda que o gosto do diretor de pôr a prova os mitos americanos, sua simpatia por sonhadores e fracassados, e sua recusa a fazer compromissos se encontram ainda bastante evidentes. Isso é notável, portanto, em Tanner'88 um drama para a TV que faz engenhoso uso de métodos documentais para traçar uma campanha política ficcional na América contemporânea. A direção que Altman tomará no futuro é possível de ser adivinhada: talvez o maior dos dissidentes retenha sua capacidade de inquietar, provocar e surpreender.

Cronologia
Mesmo que o estilo de Altman seja único, seu uso dos diálogos sobrepostos foi antecipado por Hawks enquanto sua crítica do Sonho Americano através dos gêneros é talvez mais proximamente assemelhada na obra de Penn. Nos anos 70, sua aparentemente caótica espontaneidade influenciou muitos imitadores menores, ainda que ao produzir filmes de Rudolph e Benton, ele tenha encontrado temporariamente dois discípulos dignos de nota.

Photograph of Robert Altman on set of Nashville
Robert Altman no cenário de seu grandemente aclamado épico do  bicentenário Nashville.

Leituras Futuras
Robert Altman: American Inovator (Nova York, 1978), de Judith M.Kass

Destaques
1. M*A*S*H*, EUA, 1970 c/Elliot Gould, Donald Sutherland, Robert Duvall

2. Voar é Com os Pássaros, EUA, 1970 c/Bud Cort, Sally Kellerman, Shelley Duvall

3. Onde os Homens São Homens, EUA, 1971 c/Warren Beatty, Julie Christie, Keith Carradine

4. O Último Adeus, EUA, 1973  c/Elliot Gould, Nina Van Pallandt, Sterling Hayden

5. Nashville, EUA, 1975 c/Lily Tomlin, Keith Carradine, Henri Gibson, Geraldine Chaplin

6. Popeye, EUA, 1980 c/Robin Williams, Shelley Duvall, Paul Dooley

7. James Dean, O Mito Sobrevive, EUA, 1982 c/Karen Black, Cher, Sandy Dennis

8. A Honra Secreta, EUA, 1984 c/Philip Baker Hall

Texto: Andrew, Geoff. The Film Handbook. Londres: Longman, 1989, pp. 11-13.



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