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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Filme do Dia: As Leis de Família (2006), Daniel Burman

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As Leis de Família  (Derecho de Familia, Argentina, 2006). Direção e Rot. Original: Daniel Burman. Fotografia: Ramiro Civita. Música: César Lemer. Montagem: Alejandro Parysow. Dir. de arte: Maria Eugenia Sueiro. Figurinos: Julieta Bertoni & Roberta Pesci. Com: Daniel Hendler, Arturo Goetz, Eloy Burman, Julieta Díaz, Adriana Aizemberg, Jean Pierre Reguerraz, Dimitri Rodnoy, Luis Albornoz.
O professor de direito e defensor público Ariel (Hendler) é um advogado como o pai (Goetz), mas nunca se decide em ocupar o imóvel vizinho a firma onde esse trabalha. Casado com sua ex-professora de Pilates, Sandra (Díaz), a partir do momento em que o imóvel que trabalha fica interditado e  Sandra viaja em excursão, ele passa alguns dias desocupado, sentindo-se pressionado a dar mais atenção ao filho Gastón (Burman), de dois anos e meio e ao pai, Bernardo (Goetz), de quem sempre busca se esquivar. Em um dia que haviam combinado almoçar juntos, o pai se separa dele mais cedo e Ariel o flagra em um restaurante com a sua secretária, Norita (Aizemberg), com quem não sabia que ele mantinha uma relação. Certa noite, ele é acordado por Norita, que lhe relata a morte do pai.  Ariel compreende então o motivo de maior aproximação do pai e transfere suas coisas para o escritório onde ele trabalhava, convidando Norita para trabalhar com ele.

 Burman envereda por um terreno semi-autobiográfico mais próximo de Woody Allen ou Nanni Moretti, mesmo que surja como ator apenas em uma ponta, sendo apenas seu filho quem faz o filho de seu alter-ego, que já havia protagonizado seu filme anterior.  Do  mesmo modo que o personagem do filme anterior parece ter amadurecido e se casado, o mesmo parece ter se dado com seu estilo visual, afastando-se dos desgastados cacoetes de câmera tremida e  na mão, no melhor estilo Dogma-95 e do desejo talvez por demais explicito de alegorizar sobre a nação de O Abraço Partido (2004), seu filme anterior. O correspondente amadurecimento significa também um evidente aburguesamento de seu alter-ego, vivido pelo mesmo Hendler, ao qual o estilo mais sereno de filmar parece se adequar. O imaginário de formação de personalidade masculino e a importância da figura paterna parece ser o centro da dramaturgia dos dois filmes; lá um pai ausente, aqui um pai que devido a sua ausência anterior, agora sofre uma rejeição quando busca se aproximar do filho – em seu posterior O Ninho Vazio, será sob a perspectiva do pai que se analisará a ausência dos filhos. A relação com a figura paterna é oblíqua, de admiração e distância ao mesmo tempo. Assim, Ariel resolveu seguir a profissão paterna, mas sempre deixando bem claro o quão diferente é sua aproximação do direito, inclusive em termos éticos, da postura do pai.  É bom ressaltar que Burman é bastante sensível ao imaginário masculino, não conseguindo ou buscando construir personagens femininas minimamente complexas ou à altura de seus personagens homens. A esposa do protagonista aqui ainda é menos relevante – e o fato de se encontrar ausente justamente no momento mais dramático da história apenas ressalta que no que aqui se encontra em jogo ela não é uma peça importante – do que no filme posterior. Burman habitualmente é um competente diretor de atores, elemento que se torna fundamental para os propósitos de seus filmes e aqui Goetz (que será o psicanalista de Ninho Vazio) vive uma interpretação marcante. O fato do personagem de Ariel ser um alter-ego do cineasta, torna-se ainda mais evidente quando, na narrativa over que inicia o filme, ele apresenta o seu pai como uma espécie de Zelig, referindo-se ao filme de Woody Allen. Essa referência cinéfila marcante na definição (e apresentação para o espectador) da figura paterna soa um tanto deslocada na boca de um personagem que não demonstrara grande atenção para com as artes ou o cinema particularmente. Outra menção biográfica sempre presente em seus filmes é a sua ascendência judaica. Não existe um humor propriamente no estilo piada ou dialogo pronto, como nos filmes de Allen, no entanto. A graça que pode advir em certos momentos, situa-se mais no modo como descreve a crônica cotidiana de seu personagem, aproximando-se mais portanto de Truffaut. BD Cine/Classical Film/Paradis Film/Wanda Visión S.A para Distribuition Co.  102 minutos.

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